O islamo-esquerdismo, ou a morte da esquerda

Como é que uma parte da esquerda, outrora tão crítica da religião Cristã, se tornou tão condescendente face ao Islão? Como é que uma esquerda que, outrora, lutou contra todas as formas de racismo permite agora que haja militantes nas suas fileiras que nada mais fazem do que destilar o seu ódio contra os povos nativos do Ocidente (os brancos), sem que isso choque as suas elites? Como é que uma certa esquerda, supostamente defensora da igualdade entre homens e mulheres, defende com garra uma religião que, nalgumas das suas correntes mais radicais (o Islão wahabita, ou o Islão salafista), considera as mulheres inferiores aos homens? Como é que a mesma esquerda fecha os olhos perante os crimes de honra, a excisão, o casamento com menores, a poligamia, as penas de morte aplicadas a homossexuais em muitos países muçulmanos ou a degradante condição da mulher em muitos países não ocidentais? Como é que uma parte importante da esquerda passou do “J’accuse!” de Émile Zola, numa época em que quase toda a esquerda defendia o judeu Dreyfus, para uma extrema-esquerda que se recusa a definir o Hamas como um grupo terrorista (foi o caso da deputada Mathilde Panot, membro do partido La France Insoumise)? Como é que uma certa esquerda mais “dura”, que outrora lutava, supostamente, contra o anti-semitismo, se alia agora a islamistas que pretendem a destruição do estado de Israel?
Será puro clientelismo? Será uma última tentativa das esquerdas radicais e extremistas, perante o seu próprio declínio, de continuarem a exercer influência política sobre povos ocidentais que, entretanto, lhes viraram as costas? Ou será antes uma atitude profundamente niilista, quase suicidária, do género: “Já que nós, a esquerda, outrora defensora do proletariado ocidental, estamos condenados a desaparecer, levaremos connosco toda a Civilização Ocidental”? É difícil saber. Mas, na minha óptica, a actual islamofilia de uma parte significativa da esquerda, a par da sua crescente xenofilia — esse amor quase incondicional pelo estrangeiro, sobretudo quando proveniente de fora da Europa — poderá muito bem ditar o seu próprio fim. Sim, atrevo-me a afirmá-lo: o islamo-esquerdismo poderá ser não apenas uma das últimas expressões de uma parte da esquerda contemporânea, mas também a sua última etapa antes do desaparecimento.
O senador francês Claude Malhuret resumiu na perfeição aquilo que considera ser a nova islamofilia da extrema-esquerda francesa: “Pauvre extrême gauche, dont le bilan se résume à un siècle à bouffer du curé pour finir par lécher les bottes des mollahs”. De facto, Claude Malhuret criticava não só o partido La France insoumise (LFI), mas também, de forma mais abrangente, os líderes dos partidos de esquerda em França e no Ocidente, bem como os intelectuais e jornalistas que, na sua perspectiva, caíram nas redes dos islamistas e dos militantes decoloniais. De facto, a crítica que dirige à extrema-esquerda francesa poderia igualmente ser dirigida a vários partidos ocidentais de esquerda que se deixaram enredar pelo islamo-esquerdismo. Mas o que é, afinal, o islamo-esquerdismo? Eis a definição apresentada pelo dicionário político francês Toupie:
O islamo-esquerdismo é um neologismo polémico que visa denunciar uma aliança antinatural ou uma convergência entre uma parte da esquerda e da extrema-esquerda, supostamente progressista, e o movimento islamista, reaccionário. A sua origem remonta ao Reino Unido, na ideia defendida pela extrema-esquerda de que o Islão poderia contribuir para o surgimento de um movimento revolucionário. Em França, o termo “islamo-esquerdismo” foi utilizado pela primeira vez pelo politólogo, sociólogo e historiador das ideias Pierre-André Taguieff, no seu ensaio “La Nouvelle Judéophobie” (2002), na sequência de manifestações pró-palestinianas em que militantes de extrema-esquerda “anti-imperialistas” marcharam ao lado de islamistas radicais. A sua utilização generalizou-se posteriormente por ocasião do debate sobre o uso do véu em 2003 (fonte).
Segundo Pierre-André Taguieff, o fenómeno nasceu, de facto, no Reino Unido, durante os anos 80. Foi o trotskista Chris Harman que, no seu livro The Prophet and the Proletarian (1994), apelou directamente a uma união entre a extrema-esquerda e os militantes islamistas. Mas este conhecido pensador da extrema-esquerda, um dos dirigentes do Socialist Workers Party (SWP), começara já, em reuniões e conferências, a defender essa união nos anos 80. O seu raciocínio era simples: como o proletariado branco tinha abandonado o voto nos partidos marxistas, era necessário aliar-se aos islamistas para lutar contra o imperialismo ocidental, recorda-nos Pierre-André Taguieff. Mas será que tudo começou no Reino Unido ou em França? Se Pierre-André Taguieff considera que o fenómeno nasceu no Reino Unido (e rapidamente passou para França), na minha óptica, poderíamos recuar até ao final dos anos 70, aos cafés parisienses frequentados pela intelligentsia esquerdista francesa. Assim, enquanto os membros do Partido Comunista Iraniano (Tudeh) eram massacrados pelas milícias dos mollahs, que tinham utilizado os militantes comunistas para depor o Xá do Irão, os intelectuais da extrema-esquerda francesa, tais como Jean-Paul Sartre ou Michel Foucault, apoiavam abertamente a Revolução Islâmica, vendo no regime islâmico uma possível força de combate ao imperialismo ocidental.
Uma figura política encarna hoje, na Europa, o islamo-esquerdismo: Jean-Luc Mélenchon. Uma espécie de novo “Grande timoneiro do proletariado” do século XXI, Jean-Luc Mélenchon é, de longe, o mais conhecido islamo-esquerdista da Europa e, diria mesmo, o mais perigoso, pelos seus dotes de tribuno e pela influência que conseguiu alcançar nos bairros sociais franceses… Como é que um homem como Jean-Luc Mélenchon, um laico extremista (laïcard, em francês), que criticava o véu islâmico num programa de 2010 e que afirmava, no mesmo programa, que a burca era um “ataque de certos integristas contra a República”, acabou por se tornar uma das caras do islamo-esquerdismo? Jean-Luc Mélenchon manteve alguma proximidade com a esquerda islamófila desde, pelo menos, os anos 2000. Contudo, nessa altura, os militantes próximos dos islamistas eram ainda insignificantes na esquerda francesa e ele continuava a defender a velha visão laica e republicana. A partir de 2017, porém, o discurso de Jean-Luc Mélenchon começa a mudar. Expressões como “violências policiais”, “islamofobia” (conceito que rejeitava poucos anos antes), “polícia do vestuário” (expressão utilizada para criticar os polícias que multavam mulheres por usarem o hijab ou a burca), “França crioula” ou “Nova França” (a famosa Nouvelle France de Mélenchon, uma França não-branca, cuja cultura cristã e greco-romana terá praticamente desaparecido) começam a surgir no seu discurso. Segundo o jornalista Antoine Oberdorff, foi a derrota nas eleições de 2017 que levou o partido La France insoumise (LFI) a mudar de estratégia:
O diagnóstico remonta a 2017. Na altura, Eric Coquerel, recém-eleito pelo círculo eleitoral de Seine-Saint-Denis, chega a uma convicção: “As 600 mil vozes que nos faltam encontram-se, antes de mais, nos bairros populares.” É aí que é preciso ir buscar “o grosso das tropas” por ocasião destas eleições europeias, falando “de forma clara, dura e contundente” sobre Gaza. Pouco importa que os pequenos-burgueses de esquerda se indignem com os discursos de Jean-Luc Mélenchon marcados por conotações antissemitas: são “gente que se esquece facilmente”. (Antoine Oberdorff, L’Opinion).
A facção marxista laica, representada por deputados como Alexis Corbière e pelo muito popular Jean-Christophe Ruffin, foi sendo pouco a pouco “expulsa” do partido ou, perante a pressão, acabou por sair. Além de pessoas ligadas à Irmandade Muçulmana ou a outros grupos islamistas, o partido La France insoumise (LFI) viu aderirem às suas fileiras, entre 2017 e 2019, inúmeras pessoas próximas das teses dos chamados “decoloniais” (em francês, décolonialistes). Ora, de facto, a ideologia — se é que podemos chamar “ideologia” a tal coisa — islamo-esquerdista não se resume apenas à união entre a esquerda e o Islão. A partir dos anos 2010, vieram juntar-se-lhe os movimentos decoloniais, bem como os movimentos ligados às questões sexuais, ao feminismo radical e à militância transexual, dando origem àquilo a que se chama interseccionalidade das lutas. Pierre-André Taguieff, que também escreveu sobre este assunto, recorda-nos que a visão do movimento descolonial é simples: o Ocidente teria criado o mundo moderno através da opressão dos povos do Terceiro Mundo, que a sua riqueza seria fruto da pilhagem sistemática dos outros continentes, e que o “universalismo ocidental” seria apenas uma “arma dos ocidentais” para continuar a opressão. Assim, o intelectual afirma que conceitos como “branquitude” (blanchité, em francês, ou whiteness, em inglês) são conceitos pseudocientíficos cujo intuito é impor uma “culpabilidade colectiva” a todos os brancos. Uma impostura intelectual que, segundo o intelectual francês, contaminou não só o partido LFI, mas também uma parte da esquerda francesa e, mais recentemente, da esquerda ocidental mais radical. O objectivo dos descoloniais? Nas palavras de um dos quadros do partido LFI, Yazid Arifi, o objectivo é claro: trata-se, e cito, de “contribuir de maneira decisiva para a queda da cidadela ocidental”, bem como de “desocidentalizar a França” (dé-occidentaliser, no original). Descolonizar a França e, no final, descolonizar o Ocidente. Por outras palavras, a “desocidentalização” do Ocidente é, nesta perspectiva, um eufemismo para a destruição da nossa Civilização.
O caso francês e o britânico podem ser os mais conhecidos, mas, se pensam que o fenómeno é residual noutros países ocidentais, estão enganados. Não é. Vários partidos de extrema-esquerda, de esquerda radical e, infelizmente, de centro-esquerda, na Europa Ocidental e nos EUA, estão infestados pelo cancro islamo-esquerdista — em certos partidos, trata-se apenas de facções minoritárias; noutros, como no caso de La France Insoumise ou do Green Party, o fenómeno abrange o partido na sua totalidade. Já falei várias vezes do caso do partido LFI em textos publicados no Observador. No Reino Unido, o Green Party é um claro exemplo de islamo-esquerdismo, e o seu líder, Zack Polanski, é uma espécie de novo Jean-Luc Mélenchon, em versão britânica. A mesma fixação pela causa palestiniana e pelo anti-sionismo. Candidatos muçulmanos, oriundos do Paquistão ou da Índia, que mal falam inglês e que fazem campanha, por exemplo, em bengali, sem que os quadros do partido pareçam ter algo a dizer sobre o assunto. Militantes decoloniais que destilam o seu ódio ao Ocidente e aos valores ocidentais. Islamistas infiltrados que tentam impor agendas islamistas nas escolas, em torno do halal, do hijab e da burca, ao ponto de um antigo deputado muçulmano, membro do Green Party, Shahrar Ali, ter afirmado que abandonou o partido por este estar “infiltrado por islamistas e ter-se tornado um perigo para a sociedade”, uma vez que, segundo ele, proliferam no seu seio discursos islamistas, anti-semitas e anti-ocidentais. E o mesmo acontece em Espanha, onde, na extrema-esquerda, encontramos um quadro do partido PODEMOS a afirmar que o reino cristão de Espanha cometeu um genocídio na sequência da “invasão” (!!) dos territórios de Al-Andalus pelos cavaleiros europeus. Afirma também que a Espanha sob domínio muçulmano era um território tolerante e multicultural — uma visão que vários intelectuais, como Serafim Fanjul, têm contestado, lembrando que as minorias não muçulmanas eram constituídas por dhimmis, isto é, pessoas com um estatuto jurídico inferior, sem falar dos constantes massacres cometidos contra cristãos e judeus —, ao contrário da Espanha cristã, que teria sido intolerante. E poderia apresentar-vos exemplos semelhantes na Bélgica, na Suécia, na Itália, nos Países Baixos ou na Alemanha. Neste último caso, a líder do partido de extrema-esquerda Die Linke na cidade de Berlim, Elif Eralp, de origem turca, terá admitido, em notas internas, ter medo de alguns dos seus próprios militantes islamistas, em particular de um deles, Ibrahim Ibrahim, alegadamente próximo de um grupo terrorista proibido pela União Europeia. Chegámos ao ponto em que quadros muçulmanos de partidos da extrema-esquerda europeia têm medo de certos militantes islamistas. Que é que pode correr mal?
Mesmo nos EUA existe um fenómeno semelhante, embora não se compare ao que encontramos em certos partidos políticos da Europa Ocidental. Vários históricos do Partido Democrata afirmam estar preocupados com certos militantes e candidatos, apoiados por influenciadores muçulmanos, que veiculam posições anti-americanas e anti-ocidentais, bem como discursos hostis aos brancos, aos judeus e a Israel. Alguns destes candidatos e militantes chegam mesmo a manifestar claras simpatias por grupos islamistas como o Hezbollah ou o Hamas. Antigos conselheiros como Jamie Metzl (conselheiro de Bill Clinton), Philippe Reines (conselheiro de Hillary Clinton quando esta era secretária de Estado), Mark Penn (antigo conselheiro de Bill Clinton), ou o histórico democrata James Carville, afirmam, todos eles, que a extrema-esquerda, aliada a militantes islamistas, está a tentar reproduzir nos Estados Unidos (no Partido Democrata) aquilo que os militantes islamo-esquerdistas fizeram aos partidos da esquerda radical e da extrema-esquerda na Europa Ocidental.
Assim sendo, um pouco por todo o Ocidente, partidos de esquerda, quer sejam de centro-esquerda, de esquerda radical ou de extrema-esquerda, deixaram-se infiltrar por todo o tipo de forças hostis à Civilização Ocidental. Uns, por estratégia eleitoral das respectivas lideranças; outros, por distracção dos quadros históricos dos partidos. A menos que tudo isto se explique simplesmente pelo ADN da extrema-esquerda. Como dizia o filósofo Michel Onfray, para a extrema-esquerda e a esquerda radical, tudo o que é anti-ocidental é bom, chegando mesmo a afirmar que os “eleitores da esquerda são capazes do pior, desde que seja um pior de esquerda”. Outro facto preocupante: quanto mais aumenta a população de origem extra-europeia na Europa e nos EUA, maior é a preponderância dos partidos islamo-esquerdistas nas políticas nacionais. E, com isso, militantes de origem extra-europeia destes partidos conseguem pressionar as respectivas lideranças a aceitar candidatos também de origem extra-europeia, que acabam por conquistar lugares nos parlamentos e nos senados.
A pergunta que nos devemos fazer é a seguinte: com o aumento da imigração extra-europeia e as taxas de natalidade mais elevadas de certas populações, haverá o risco de, daqui a 10 ou 20 anos, partidos como o LFI chegarem ao poder em grandes nações ocidentais? É uma possibilidade, sim, assustadora, mas real. Resta-nos, assim, responder a uma outra pergunta: se chegarem ao poder, irão respeitar a democracia, o laicismo e a liberdade de expressão — em suma, os valores ocidentais que tantos militantes desses partidos desprezam? Irão salvaguardar os valores civilizacionais do Ocidente — os mesmos valores (a razão grega, o primado da ciência na explicação do mundo, a liberdade individual, a propriedade privada, a igualdade entre homens e mulheres, a igualdade perante a lei, o capitalismo, o debate intelectual) que fizeram a grandeza da nossa Civilização e que, através das nossas invenções, da nossa tecnologia e das nossas ideias políticas, tornaram a vida de milhares de milhões de pessoas, em todo o Planeta, muito melhor do que era nos milénios passados? Penso que todos sabemos, no fundo, a resposta.
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