Viagens de 12 horas por consulta, falta de remédio e esgoto em casa: os desafios da saúde para o próximo governador de MG

Em um estado com dimensões continentais, o acesso a serviços de média e alta complexidade, a medicamentos e ao saneamento básico ainda não é universal, o que sobrecarrega a capital e deixa milhares de mineiros em situação de vulnerabilidade.
Busca por atendimento
Em Belo Horizonte, a região hospitalar se tornou um "ponto de encontro" de ambulâncias de municípios de diversas regiões do estado, que transportam pacientes em busca de tratamento.
O aposentado Carlos Roberto da Mata mora em Ipanema, no Leste de Minas, e há 12 anos viaja para a capital mineira para tratar sequelas de um câncer. São 360 quilômetros de distância.
"É cansativo. Saio de lá meia-noite e chego aqui 6h30 da manhã", contou.
A vendedora Fátima Magalhães acompanha o marido. A cada viagem, a van da prefeitura só retorna a Ipanema após o atendimento médico de todos os ocupantes do veículo.
"A gente chega às vezes de madrugada em casa, porque outros pacientes precisam ser atendidos mais tarde. [...] É muito longe, tem que deixar tudo para acompanhar", disse.
Carlos Roberto da Mata e a esposa, Fátima Magalhães — Foto: TV Globo/ Reprodução
O estado é responsável por serviços de média e alta complexidade, como cirurgias, transplantes e tratamentos oncológicos. Também gerencia leitos de UTI, hemocentros, a rede de captação de órgãos e laboratórios de vigilância em saúde.
A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) administra 14 hospitais, nove na Grande BH e cinco no interior.
Para Monique Félix, especialista em gestão de serviços de saúde da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, é preciso ampliar os hospitais regionais no interior, mas o mais importante é apoiar os municípios na rede de atenção à básica.
"O mesmo hospital é habilitado, por exemplo, em oncologia, em cardiologia, em neuro. E, no final das contas, ele não tem estrutura física, quantitativo de leitos necessário para atender todas as especialidades nas quais ele é habilitado. Isso sobrecarrega, inclusive, o sistema de transporte do próprio município", afirmou.
Espera por medicamentos
Além do atendimento, o estado é responsável por fornecer medicamentos, inclusive os de alto custo.
O aposentado Gilberto Marinho Vasconcelos caiu de uma ribanceira em 2010, e o acidente afetou as células responsáveis pela produção de hormônios. Um dos remédios que ele precisa para a reposição hormonal custa mais de R$ 800. Sem condições de pagar, ele conseguiu na Justiça o direito de receber o remédio, mas o fornecimento foi interrompido.
"A partir de abril, eu estive lá para pegar a próxima dosagem e fui surpreendido, quando o funcionário que me atendeu disse que estava em falta", contou.
Sem o medicamento, Gilberto sofre com cansaço, dores no corpo e indisposição.
"Eu não paguei porque estou sem dinheiro para fazer a compra desse remédio", disse.
Gilberto Marinho Vasconcelos — Foto: TV Globo/ Reprodução
Saneamento básico não chega para todos
A falta de saneamento básico é outro grave problema de saúde pública. Em Minas Gerais, 78,4% da população é atendida com rede coletora de esgoto. Embora tenha uma cobertura acima da média nacional (62,3%), a realidade em muitas comunidades é de risco e abandono.
Em Belo Horizonte, na casa de Kênia Yasmin, a fossa séptica fica embaixo do quarto dos filhos.
"A gente está até com medo. Meus meninos dormem aqui", contou.
Sem dinheiro para limpar a fossa entupida, a família construiu outra do lado de fora, a apenas um metro da tubulação de água, aumentando o risco de contaminação.
Os filhos de Kênia já tiveram vômitos e diarreias por causa da qualidade da água.
"Meu menino tem umas manchinhas no corpo que é da água também, o médico falou", disse.
Kênia Yasmin — Foto: TV Globo/ Reprodução
Na Ocupação Fábio Alves, na Região do Barreiro, 130 famílias também enfrentam a falta de saneamento.
"O pessoal adoece muito. O posto de saúde fica cheio, é tipo um vírus", afirmou a líder comunitária Simeia Rodrigues Rosa.
Segundo a especialista Monique Félix, a falta de saneamento impacta principalmente crianças e idosos.
"Isso se traduz em doenças infecciosas e parasitárias, sobrecarrega a urgência e emergência e tem impactos também para a questão da evasão escolar. Significa que a mulher, geralmente, nunca o pai, ter que se ausentar do trabalho para cuidar daquela criança. Então, tem um impacto para além da saúde, tem um impacto, inclusive, econômico e financeiro".
Impactos da mineração
Em cidades como Congonhas, na Região Central, a preocupação é outra: a poluição gerada pela mineração. Moradora vizinha de uma mineradora, a empresária Ana Carolina Vieira convive com a poeira de minério.
"Se eu limpar a piscina hoje, amanhã ela já está toda suja de novo. Aqueles pretinhos lá são tudo minério. [...] Eu, meu filho, minha filha e meu marido, que trabalha na mineração... Está todo mundo passando mal esses dias", disse.
O estado é responsável pelo licenciamento ambiental da mineração e tem o dever de fiscalizar os impactos ambientais e à saúde da população.
"A literatura aponta diversos danos ao meio ambiente em relação à atividade mineradora. Isso causa de fato um aumento da poluição ambiental, muitas vezes também uma contaminação do solo, do lençol freático, e isso certamente também causa danos à saúde humana. [...] A atividade mineradora é uma atividade lícita, que agrega recursos para o estado, para a população, mas é papel do estado fiscalizar, regular, punir quando necessário, estabelecer limites e proteger os seus cidadãos", afirmou a pesquisadora e professora da Escola de Enfermagem da UFMG Deborah Malta.
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