Sabemos amar ou só analisar o amor?

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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje vamos ter aqui um psicólogo comigo, o André Nobre Duarte. Eu já o queria trazer há muito tempo e eu pensei em dois grandes temas que eu acho que nós nos cruzamos muito bem nas redes sociais, que é: primeiro falarmos sobre esta geração. Por que nós estamos todos ansiosos? Por que parece que estamos constantemente a comparar-nos com toda a gente à nossa volta e que cria toda esta ansiedade que devíamos estar a fazer mais do que o que estamos a fazer? Aquele conceito de maxing, por que estamos sempre tracking tudo na nossa vida e de que forma é que isto nos afeta? E depois, um tema que o André aborda muito e que eu também gosto de trazer aqui para o podcast, é o amor, é relações. Portanto, vamos falar muito sobre dependência emocional, relacionamentos tóxicos, por que parece que atraímos sempre o mesmo padrão de pessoas para a nossa vida, por que esta geração tem mais dificuldade em compromisso, de que forma é que as redes sociais têm um impacto nisto ou não. Falamos de ghosting, situationships, breadcrumbing, orbiting, bué termos, bué cenas que hoje em dia se ouve a falar em todo lado nas redes sociais, mas é um tema que eu já trouxe aqui várias vezes, mas nunca tinha trazido com um psicólogo. Portanto, acho que ter esta visão do outro lado também nos vai ajudar a entender melhor um bocadinho de por que todas estas coisas acontecem. Espero muito que gostem desta conversa. "Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?" A ideia aqui também com esta conversa, eu pensei em dois grandes temas que quero muito abordar contigo, que acho que também dá ali um overlap naquilo que tu partilhas na net, que é a geração, portanto, por que nós estamos tão ansiosos, como é que é a nossa geração, o que estamos a fazer mal, o que é que podemos mudar. Tu enquanto psicólogo, também aquilo que tu vês que acontece assim recorrentemente em clientes. E depois também a parte do amor, que acho que é um tema também fulcral, principalmente nesta geração.
E está tudo interligado.
Está tudo ligado.
Questões de ansiedade, relacionamentos. Vivemos numa era em que tudo está ligado, portanto faz sentido.
Vamos começar, se calhar, já por aí. Nesta geração, que muitas vezes eu digo: "A geração é os 20", não é os 20, tu tens 25, mas se calhar pessoas com 35 também se podem identificar com isto. Portanto, 20, 30 anos.
Claro que sim.
Por aí. O que tu sentes que é aquilo que mais nos define? Achas que é ansiedade de escolha, de termos muita coisa a acontecer, é a comparação, é querermos tudo muito rápido? O que achas que é o maior problema que tu, enquanto psicólogo, acabas por sentir também nas consultas?
Sabes que para responder a essa questão, temos que ir um bocadinho mais atrás, que é a nossa biologia, o nosso corpo não está preparado de todo para todas estas mudanças. E é curioso analisar como é que nós nos comportamos hoje em dia, à luz desta não preparação do nosso corpo face às exigências do mundo. Então, sei lá, tecnologia, demasiadas opções. A mesma coisa quando nós vamos ao restaurante e temos coisas para escolher, demoramos a escolher. Na vida é exatamente a mesma coisa. Podemos chamar comida para casa num segundo. Ou seja, tudo isso vai influenciar e vai tornar os seres humanos cada vez mais propícios a nos compararmos. Ou seja, quando analisamos todos estes fatores, ficamos a compreender por que nós temos uma geração tão ansiosa, por que nós temos uma geração que não consegue escolher, que se compara a todo instante. Ou seja, o nosso corpo não está mesmo preparado para isso. O nosso cérebro não está preparado de todo para lidar com essa quantidade de informações. E hoje em dia, quem não tira um tempinho para si, quem não faz exercício, tudo coisas que vamos falar aqui um bocadinho ao longo da nossa conversa, acabam por ser pessoas que são mais prejudicadas no dia a dia.
Mas tu achas que havia menos ansiedade? Imagina, a geração dos nossos pais. Eles eram menos ansiosos porque estavam só focados em trabalho e tinham a vida mais facilitada no sentido de ter menos caminho?
Sim, o foco da ansiedade era diferente. Ou seja, o facto de existir também outro poder de compra na altura, o facto de não existirem telefones, porque é muito falado hoje em dia as redes sociais e tudo, mas a verdade é que nós no dia a dia, ou os nossos pais, davam-se com cinco, seis pessoas diferentes no dia a dia. Nós damo-nos com centenas de pessoas, milhares de pessoas. Nós somos constantemente influenciados por temas que nem sequer eram uma questão para eles, por pessoas que já compraram casa, por pessoas que já compraram carro, por pessoas que parece que estão um bocadinho mais à frente no tempo, quando na verdade isso sempre existiu, pessoas que estavam um bocadinho mais à frente, um bocadinho mais atrás. Só que hoje em dia, essa comparação está no nosso telefone a qualquer hora do dia. De manhã, quando nós acordamos, estamos também mais propícios, estamos mais vulneráveis, porque acabamos de acordar, estamos mais sensíveis e levamos o nosso tempo a processar informação. Nós não acordamos assim do nada, já prontos para começar o dia. Quando nós abrimos o telefone e começamos imediatamente a ver: este já comprou casa, este está de viagem, foi para aqui, foi para ali. Claro que nós vamos ficar muito mais propícios a ficar tristes ou a compararmos com: "Por que aquele já tem isto, eu ainda não tenho? Será que vou alcançar? Será que não vou?" Portanto, quando analisamos todos esses fatores, faz todo sentido. Então eu não acho que os nossos pais tinham menos ansiedade, eu acho que os focos da ansiedade eram diferentes, eram mais controlados. Hoje em dia, passamos muito rápido do oito para o 80 e está muito difícil de conseguirmos parar.
Temos de nos esforçar para isso.
Temos de nos esforçar para parar. Coisas que antes eram super Tranquilas, como conversar num café, conversar num restaurante. Hoje nós temos de reaprender a fazer isso. Coisas que são humanas: conversar, fofocar.
Sem estímulos. Por acaso estava a gravar um episódio de podcast com amigas e a Mónica estava a partilhar que a psicóloga dela recomendou fazer um exercício todos os dias, 10 minutos por dia, ter um momento para ela sem estímulos. Ela estava tipo: "Eu não sei que atividades fazer, então depois lembrei-me de desenhar ou pintar". E eu estava a tentar pensar. Eu não tenho nenhuma atividade que eu me lembre, porque eu sou péssima em artes. E ela: "Mas pode ser ouvir um podcast, pode ser ver qualquer coisa." Não. Pode ser ler um livro. Não, tem que ser uma atividade que não tenha estímulo. É difícil, hoje em dia, se tu pensares, no teu dia a dia, provavelmente não tens momentos assim, sem estímulo nenhum.
Sim, sem dúvida. E em consulta, aquilo que acontece muito é passar-se exercícios desse tipo. Ou seja, vai pintar.
Voltar atrás.
É, voltar atrás. Vai falar com alguém sobre um tema que nunca falaste. Vai pintar, vai escrever. Eu adoro escrever.
Se calhar escrever é isso mesmo.
Muito, adoro mesmo. Escrevo desde que me lembro. O meu paizinho tinha um computador, na altura daqueles ainda antigos, e eu gostava imenso de escrever. Tenho lá vários ficheiros de histórias minhas. Lá está, ele sempre me incentivou a isso também. Sempre me contou muitas histórias de polícias e ladrões, que eu sempre adorei isso. E sempre foi estimulando muito a minha criatividade também, sem eu saber que isso podia ser algo terapêutico. Mais tarde vim a descobrir isso, mas na altura ia escrevendo só porque gostava. E facilita muito a vida hoje em dia.
Mas tu usas como ferramenta para tipo journaling, ou não?
Sim, acabo por escrever não só sobre aquilo que vou sentindo, mas coisas que vão acontecendo, ideias que tenho. Acabo por escrever muito no telefone, mas o que eu gosto mesmo é escrever em papel, caneta, é completamente diferente.
É um ritual. Te faz analytics.
É um diário. Gosto mesmo e passo muito isso às pessoas, porque vejo que é algo que resulta. Muitas vezes as coisas estão tão confusas na nossa cabeça, mas quando nós passamos: "Ok, afinal não era assim tão grave como eu achava."
Costumas todos os dias?
Não, todos os dias não faço, porque nem sempre tenho tempo para isso. Nem sempre priorizo, há sempre outras coisas a acontecer, mas todas as semanas tento fazer. Ou tento não chegar ao limite. Quando sinto que já estou muito caótico com uma situação, tento não chegar a essa fase.
Pois, eu sinto que quando eu comecei journaling era muito para descarregar períodos em que eu estava mesmo muito ansiosa.
Mais stressada.
Mais stressada. E agora tento que isso faça parte da minha rotina, não é diário também, mas que faça parte, e obrigar-me mesmo quando não estou bem a sentir necessidade, obrigar-me também para escrever sobre coisas positivas, às vezes também é importante.
Sim, e ajuda não só para agradeceres, mas também para dares nome às coisas que sentes, porque isso é altamente terapêutico. Tu atribuís um nome e atribuís um significado àquilo que estás a sentir. Seja certo ou errado, isso não interessa, mas resulta mesmo muito tu poderes pôr no papel ou falar. Há pessoas que se calhar não se vão identificar tanto com a escrita, mas vão se identificar com o falar com alguém ou gravar um áudio. Há pessoas que também gostam disso e está tudo certo. Aquilo que funciona para um, não tem que funcionar para o outro. Mas o que é bom é nós irmos encontrando as nossas próprias ferramentas para irmos lidando com as exigências todas da vida.
Sim, falando conosco próprios também.
Sim.
Mas quando tu imagina, tenho muita gente que, a partir do momento do journaling, que vem ter comigo: "Mas eu não sei escrever, o que eu escrevo? Não tenho noção do que é suposto eu escrever."
Lá está.
Não é suposto nada.
Parece que temos que cumprir uma exigência a cada instante. E não, parece que temos que ter um script. Alguém já me perguntou isso: "Mas manda-me um script, algum script que eu tenha que seguir?"
Perguntas.
Não, vai escrevendo aquilo que te apetece. Há várias coisas que podemos escrever. Como é que eu me sinto hoje? Como é que eu me senti ontem? Houve alguma situação que me deixou com uma emoção mais negativa? Houve alguma fase do dia em que me senti constrangido, triste, feliz? O que eu fui sentindo? Porque nós vamos misturando as coisas todas na nossa cabeça, vamos aumentando, muitas das vezes, uma situação, porque a emoção vai aumentando cada vez mais. Eu costumo dar sempre o exemplo do semáforo, que é: nós temos o verde, o amarelo e o vermelho. Muitas das vezes as pessoas só acabam por procurar a ajuda quando estão no vermelho. Sendo que emoções no verde toda mundo gosta de sentir, mas nós conseguimos identificar e fazer o tracking de quando estamos a passar do verde para o amarelo e do amarelo para o vermelho. É preciso uma sensibilidade maior, que nos é dada através do quê? Disso, da escrita, do falar com alguém. Portanto, quando nós conseguimos e chegamos à fase de identificar que estamos a passar do amarelo para o vermelho, não é preciso muito trabalho, nem é um mestre que consegue fazê-lo ou uma pessoa mais evoluída. Não, todos nós conseguimos fazer e todos nós conseguimos perceber quando é que estamos mais fora do controle, quando é que estamos mais dentro do controle. E escrever nestes momentos em que estamos ainda no verde e ainda no amarelo, ajuda-nos a recuperar esta sensação de controle, que é tão importante, porque quando chegamos ao vermelho já as coisas descamam, as pessoas que naturalmente são mais impulsivas vão começar aos gritos e a falar e a dizer coisas que não querem, que depois se vão arrepender. Portanto, isto ajuda-nos, estas pequenas ferramentas vão-nos ajudando a isso.
E estamos a falar de um hábito saudável que recomendamos às pessoas a aplicar no dia a dia. O que tu vês em clientes que achas que na nossa geração são os maiores erros ou aquilo que é preciso ser feito e não está a ser feito para que não cheguemos a este ponto de ansiedade crítica?
É difícil, porque são coisas que já estão tão enraizadas em nós e que nós já não sabemos viver sem. Ou melhor, sabemos, mas é muito difícil. Então, o que eu vejo? Vejo acordar e ir para o telefone, vejo saltar refeições Vejo não dormir bem, dormir tipo 5 horas, 6 horas. Não, o nosso corpo precisa de mais. O nosso corpo precisa dormir pelo menos sete, oito horas. "André, mas eu tenho uma rotina, tenho filhos, tenho isto". Certo, tudo bem. Mais uma vez, as rotinas não são iguais e as exigências não são iguais para todos. Há pessoas que têm que andar de transporte público, há outras que conseguem andar de carro, há outras que conseguem andar de avião, outras que conseguem andar de jato privado, portanto, aquela história das 24 horas não é a mesma para toda a gente. Ainda assim, há pequenas coisas que podemos fazer. Então, que principais erros é que eu vejo? Exatamente esses. Ou seja, acordarmos e irmos logo para o telefone. Não, vamos dar um momento. Eu sei que o estímulo é tão grande e que nós queremos ver as novidades todas, mas tentar controlar um cadinho isso. Não quer dizer que numa semana não possamos ir três vezes para o telefone assim que acordamos, mas nos restantes dias da semana tentar ter esse controle.
Forçar o oposto.
Sim. É preferível fazermos pequenas mudanças que nós possamos sentir que temos ali o controle do que tentar mudar tudo de uma vez, porque isso não vai funcionar. Ou vai funcionar, mas para uma porcentagem muito pequena das pessoas. Além disso, alimentarmos bem. O que é alimentar bem? Lá está, cada pessoa vai decidir o que é alimentar-se bem, mas fazer as refeições chaves, pelo menos o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, fazer pequenas refeições entre essas principais. Tudo coisas simples e às vezes quando eu falo disso, as pessoas lá em casa devem estar a achar: "Mas isso é tão clichê". Certo, mas é isso.
Às vezes o básico não está a ser feito.
Sabes, e às vezes mesmo com-
Mesmo o exercício, mexer, sair de casa, apanhar sol.
Mesmo com pacientes, às vezes as pessoas querem uma solução mega, um exercício mega mirabolante. Repara, a pessoa está com muita ansiedade causada por N fatores. Eu vou lhe dar um exercício de duas páginas, três páginas, com um monte de coisas para fazer. A pessoa não vai fazer. Por isso é que eu digo, muitas das vezes, é a coisa mais simples que funciona. Olha, faz esta mudança. Experimenta levantares-te, colocar o telefone longe da cama, abrir a janela e ficar a contemplar o dia. "André, mas eu tenho que me despachar super-rápido". Cinco minutos, dois minutos. Já é melhor do que fazias antes, porque antes desligavas, o quarto estava totalmente escuro, já estavas a levar com aquela luz do telefone. São pequenas coisinhas que vão fazendo a diferença.
Mesmo em termos de exercício físico, eu sinto muito isso, o impacto das pessoas que me acompanham. É muito: "Eu não tenho tempo, eu não consigo". Quando tu não fazes nada e queres passar a fazer exercício, tu olhas para o exercício como, de repente, eu tenho que encaixar na minha semana, treino todos os dias, uma hora por dia.
Treinos diários. Calma.
Sim, é isso. Ou seja, é passar do oito ao 80.
É isso.
E se calhar, podes passar do oito para o 15 ao fazer uma caminhada depois do almoço, todos os dias, 10 minutos.
Sim. E em terapia vai-se trabalhando muito isso, os pequenos passos, que é, por exemplo, alguém que termina uma relação, que venera a pessoa, que coloca a pessoa claramente lá em cima. Isto apenas para dar um exemplo. Nós vamos trabalhando ao longo de meses ou até anos, a pessoa conseguir acordar e priorizar outras coisas e não pensar imediatamente na pessoa. Há pessoas que não conseguem sequer sair de casa. Então a pessoa conseguir olhar pela janela, começar a comer outra vez bem. Ou seja, pequenos passos que ao final de 365 dias, a pessoa vai ser completamente diferente e vai ter outros hábitos. Nós somos seres de hábitos e querer mudar tudo de um dia para o outro, eu entendo que seja instagramável, mas só nos vai deixar cada vez mais frustrados.
E é aliciante, porque tu estás numa posição em que olhas para aquela mudança como: "Meu Deus, vai ser tudo melhor na minha vida, então eu quero aquilo para amanhã".
E esse input é bom, essa vontade é boa, porque move-nos a fazer várias coisas. Mas calma, não é tão assim. Temos que ter mais paciência conosco. Eu no outro dia vi um vídeo no Instagram em que uma atriz brasileira dizia: "Eu não sou aquilo que eu quero ser, eu sou aquilo que eu consigo ser". Isso faz toda a diferença. Eu gostava de ser muito mais do que aquilo que eu sou. Hoje em dia, eu gostava de ter a casa X, o carro X, o relacionamento top, viajar todos os meses, mas eu não consigo agora ser isto. E está tudo bem. E eu não estou a falar de um lugar de nos acomodarmos à vida. Não, é bom nós querermos mais. Mas às vezes nós temos que pensar só que não partimos todos do mesmo sítio, não temos todos as mesmas oportunidades, isso não existe, é utópico pensar isso. Um vai começar muito mais à frente do que outro. E eu sou efetivamente aquilo que eu consigo ser neste momento. E eu acho que termos esta ideia nos conforta um cadinho mais. Eu gostava de ser muito mais, mas eu sou aquilo que eu posso ser neste momento.
E estares ok, aceitares que não é só quando tu fores aquilo que tu imaginas que vais ser, é que a tua vida vai ser boa.
É o meu desafio constante.
De todos nós.
Sim, sem dúvida, mas é o meu desafio constante, porque eu quero sempre fazer mais, eu sou muito ambicioso, então completamente que eu percebo isso. Mas lá está, é um trabalho diário de te mentalizares mesmo, de teres pessoas à tua volta que te relembrem, tipo: "Olha, o que tu já alcançaste. Olha as coisas que tu já fizeste. Olha as características que tu não tinhas, as competências que tu não tinhas há um tempo atrás e que tu já tens agora. Já melhoraste muito no espaço de um ano". E teres essas pessoas assim que te ajudem é muito bom, porque eu senti isso na pele também, o querer alcançar a outra coisa, querer o próximo objetivo.
E mesmo em termos de desenvolvimento pessoal, aquele conceito agora que se fala imenso, que é o maxing, que é estares constantemente a maximizar tudo na tua vida. Tudo é trabalhável, tudo tem de ser melhorado. Mesmo o fato de usarmos as pulseiras de saúde, é muito de tudo na tua vida é controlável e pode ser-
Tem que ser a melhor versão, a todo hora, a todo momento.
Achas que isso nos impede de simplesmente vivermos a vida? Ou seja, não é o acomodar, mas o vivermos, aproveitarmos mesmo, o estarmos constantemente a medir.
Sim, o estarmos mais tranquilos com as coisas. Sem dúvida que este efeito de maximizar tudo e controlar tudo e que temos que trackear tudo, eu entendo, vem da parte das redes sociais Somos seres influenciáveis também. Já éramos há uns anos atrás, hoje em dia com as redes somos ainda mais. Portanto, obviamente que nós queremos estar um passo mais à frente, queremos fazer coisas diferentes a toda hora, mas às vezes temos de nos lembrar disso, que somos só pessoas a viver esta vida a primeira vez, mais uma vez que clichê, mas é o que é. Nós nunca estivemos nesta fase, nós nunca tivemos as demandas que temos hoje na nossa vida, eu e tu. Não é justo nós estarmos a aprender a lidar com isso e ficarmos confusos e não sabermos como reagir, intercalarmos entre o que é certo, o que é errado, eu não sei o que fazer. Está tudo certo, não temos que ter respostas para tudo. E eu tento muito passar isto para as pessoas, porque acredito que possa ser mesmo o mais saudável. Está tudo bem. "Mas eu não sei que decisão tomar". Está tudo bem. Vais saber.
Porque eu acho que isto das redes sociais também ajuda que tu olhes para as pessoas à tua volta e aches que toda a gente sabe o que está a fazer. Eu acho que isso é o pior, é acreditar que isso-
Claro, porque a gente só está a postar o bom. E está tudo certo. Eu não quero ir para as redes sociais postar coisas menos boas, se bem que agora já há algumas trends que mostram isso. Ainda agora tivemos uma que as pessoas mostram as coisas que não estão a correr bem. Adorei, porque dá-nos uma outra perspectiva de que não é só as coisas perfeitas. Só que embora nós possamos saber que as redes sociais têm só o bom, quando nós lá estamos oito horas por dia.
Claro, é inconsciente.
Tu vais absorver cenas que tu perdes essa consciência de que: "Eu sei que as pessoas só estão a mostrar o bom. Eu sei que eu também só estou a mostrar o bom", mas perdes essa noção, porque estás tantas horas ali que acabas por esquecer isso.
E por outro lado, temos constantemente muita informação, muito conhecimento a ser passado, que antigamente se calhar nem sequer era uma questão. No que toca, por exemplo, ao amor. Estamos constantemente, não sei quanto a ti, mas a ser bombardeado com dicas de relacionamentos e isto e aquilo. Estava te a contar do livro "Ligados", por exemplo. É um tema que eu acho super importante tu estares a par disso, mas será que justifica, tu entras numa cena com alguém e de repente estás a psicanalisar todos os comportamentos e tudo, e a justificar? "Não, ele é ansioso, ele é evitativo". Será que isto justifica e faz bem estar sempre a fazer esta análise com base no conhecimento que vamos sendo bombardeados? Ou devíamos só deixar as coisas acontecer como sempre foi?
Depende. Na psicologia, esta palavra é muito usada, o depende. Depende do contexto, não quer dizer que qualquer relação, por ter este ou aquele comportamento, seja tóxica.
É que temos tantos labels hoje em dia, que é fácil de pôr as coisas em caixinhas.
Mas repara, nós enquanto seres humanos, precisamos de pôr as coisas em caixinhas. O nosso cérebro adora coisas organizadas. Se eu te disser assim: "Olha, daqui a bocado vais conhecer uma pessoa que vais gostar". E não te digo mais nada. Tu ficas: "Quem? Mas diz-me, André, quem é essa pessoa?" "Não, não te vou dizer, daqui a bocado vais ver". Tu não arrumaste isto numa caixinha, mas o teu cérebro está por dentro, os teus divertidamentos lá dentro, como eu costumo dizer, estão: "Eu preciso de saber quem é, eu preciso de saber", porque não foi organizado. E ok, o nosso cérebro precisa disso, mas nem tudo consegue estar organizado em caixinhas. Isto para dizer o quê? Numa relação, há coisas que nós não vamos conseguir encontrar significados. A psicologia explica muita coisa, mas há muita coisa que também não explica. Depende da situação. Não é por nós termos traços de uma possível perturbação, por exemplo, narcisismo, que eu vou ter uma perturbação narcísica da personalidade. Isso não quer dizer. E às vezes quando nós estamos no Instagram ou no TikTok e vemos três sinais de que o teu namorado é narcisista. Três sinais que estás numa relação tóxica. Isto é altamente apelativo. Por quê? Porque o teu cérebro vai organizar isto em caixinhas. Os teus divertidamentos vão estar aos pulos, do estilo, nós vamos encontrar um significado para isto. Só que por que temos que encontrar um significado para tudo? Era isso que estavas a dizer. Muitas das vezes nem é saudável fazê-lo, porque nós somos pessoas que temos comportamentos corretos e às vezes não tão corretos assim. E está tudo certo. Há pessoas que de fato têm perturbações da personalidade ou outro tipo de perturbações, mas há pessoas que também não têm e só estão num dia mau. Claro que nós queremos salvaguardar-nos ao máximo e estamos numa altura das redes sociais em que nós temos que ter relações saudáveis, temos que ser saudáveis a todo momento, aquilo que acabamos de falar. Só que nem tanto ao mar nem tanto à terra. É uma situação em que eu nem sei bem em que ponto pegar, porque é tanta coisa. São tantos fatores, desde nós acreditarmos em tudo o que vemos nas redes, desde pegarmos nisso para comparar as nossas relações. Já tive pessoas a dizerem-me que acabaram com os namorados porque claramente o diagnosticaram como narcisista. E eu penso: "Mas quem é que diagnosticou?" "Não, eu". Mas como assim? Um psicólogo ou um psiquiatra vai diagnosticar alguém com base em fatores específicos, clínicos, vai ter atenção ao contexto da pessoa, vai ter atenção a quão aquela possível perturbação vai afetar negativamente a vida da pessoa, vai ter atenção à forma como as pessoas à volta estão a captar aquele tipo de comportamento. Ou seja, existe uma série de fatores que não cabem num vídeo de 30 segundos. Eu percebo que seja mais apelativo dizer: "Cinco sinais de que o teu namorado é narcisista".
Porque depois tu estás: "Ok, faz sentido e já consegui justificar este comportamento".
Mas o intuito é esse, o intuito do vídeo é esse, é que tu digas: "Eu estou a passar por isto". O intuito das pessoas é que tu te identifiques.
Sentes-te identificada. "Não sou louca, afinal. Está bem, o problema é meu".
"Afinal, isto tem uma justificação, afinal isto está numa caixinha". Só que não é tanto assim. Claro que há pessoas que podem estar numa situação ou numa relação tóxica, não só com namorados, mas também com família Há muitos exemplos também de pais e mães, não só narcisistas, mas borderline ou o que quer que seja. E é importante nós analisarmos isto. Só que o que eu recomendo às pessoas nas redes sociais é ficarem só com o alerta, mas não irem mais a fundo, pelo menos nas redes sociais. Ou seja, eu estou a ver um vídeo, capta minha atenção alguma coisa. Será que a minha mãe pode ser narcisista porque tem este e este comportamento? Será? Eu fico com este alerta. E depois vou pesquisar, e depois vou falar com um psicólogo, e depois vou investigar pelo sítio certo.
Fora das redes, certo, mas se viste esse vídeo do narcisista até o final, depois dois ou três vídeos a seguir, vai te aparecer outra vez. Depois tu vais ver. E de repente o teu feed vai ser só narcisistas.
Sim, claro que sim.
E de repente tu estás a passar o dia só a ver isso e está a te entrar, e pra ti aquilo já é lei.
Claro que sim, mas por isso é que eu digo sempre que nós temos que ter essa atenção, sobretudo quando falamos de saúde. Perceber de quem é que estamos a captar esta informação. A pessoa tem estudos para isso? A pessoa tem autoridade para falar sobre esse tema? É importante saber distinguir. E hoje em dia com a inteligência artificial, é muito fácil disso nos passar ao lado. Às vezes a minha mãe ou a minha avó mandam-me coisas: "Filho, será que isto é IA?" Claramente eu vejo que é um cão a conduzir uma bicicleta. Claramente é IA, mas é apenas um exemplo. Hoje em dia está muito difícil de separar o que é verdade, o que não é. Será que essa pessoa tem estudos para falar disto? Será que não tem? Não é que eu também só concorde que as pessoas que têm estudos é que só podem falar disso. Não, mas termos essa atenção, termos esse alerta, termos esse filtro, porque senão, sem filtro, tudo vai entrar. E se tudo vai entrar, vai ficar uma bagunça tudo cá dentro.
Pois, aí não conseguimos mais organizar pensamentos. Mas daquilo que tu vês em consulta, mais no tema de amor, de relacionamentos, qual é que achas que é o maior problema da nossa geração? Achas que é o medo de compromisso, é termos esta cena de paradoxo de escolha?
O maior?
O maior problema, aquilo que tu vês mais recorrentemente.
Dependência emocional.
Sério? Ou seja, são pessoas ansiosas que vão ter contigo, é isso?
Dependência emocional em níveis extremos. Do estilo a pessoa não faz nada sem a outra pessoa. A pessoa não tem amigos, a pessoa não come se a outra pessoa não estiver. E isto é grave.
Mas só chegam até ti quando já estão nesse ponto?
Algumas não, depende. Algumas chegam com mais consciência, numa fase mais inicial, em que estão a conseguir identificar alguns sinais, ou algumas ainda não identificaram, mas vão passar a identificar. Mas há algumas pessoas que chegam nessa fase vermelha do semáforo, que chegam nessa fase em que está tudo a descambar e não sabem quem são, não sabem o que gostam de fazer, o que gostam de comer, que tipos de amizades valorizam. Não sabem.
E se calhar acabaram o relacionamento e estão naquela fase.
Ou ainda estão no relacionamento. Exato.
E sentem que estão perdidas, é isso?
Sim, nós todos somos dependentes uns dos outros. E eu gosto de dizer isto porque eu sou dependente da senhora das finanças, porque preciso dela para fazer as minhas coisas e para agilizar o meu negócio. Preciso do senhor da padaria, porque gosto de ir comprar pão. Eu dependo, nós todos dependemos uns dos outros. Agora, o problema surge nessas situações de codependência muito tóxicas, em que a pessoa efetivamente não faz nada ou deixa de fazer coisas porque precisa da outra pessoa.
Como se fosse o teu oxigênio, sem aquilo tu não te imaginas mesmo a viver, não é?
Literalmente, o oxigênio da pessoa. E quando entramos neste campo, eu não posso ter uma pessoa que deixa de ir trabalhar porque discutiu com o namorado. Não é saudável isto. E quando nós entramos nesta esfera, acaba por ser bastante complicado. Como é que se faz o trabalho a partir daqui? Quando a pessoa já terminou o relacionamento, é colocar a pessoa ao mesmo nível, porque acontece quase sempre, e nestas situações e nestas relações tóxicas, pôr a pessoa num pedestal e olhar para ela lá para cima e: "Oi, coloca aqui ao mesmo nível que tu", ou nesses casos de términos de relações, abaixo. Porque é muito comum a pessoa dizer: "Mas já passou uma semana", vem a carência, "e ele não era assim tão mau". Ou ela, existe situações dos dois lados, mas: "Ela não era assim tão má". E aí surge o trabalho do terapeuta, que é: "Como assim não era assim tão mau?" Eu não vou dizer isto assim, mas lembra-te de todas as coisas, ou faz uma lista de todas as coisas que a pessoa te fez passar. "É verdade, fez-me passar por isto, por isto. Pois, não era assim tão bom". Mas isto é um trabalho de meses. E a pessoa, durante tanto tempo, esteve numa relação em que se anulou completamente, esqueceu-se completamente de quem era. É igualmente um trabalho de meses também, um trabalho de muito tempo, voltar a renascer das cinzas, entre aspas. É mesmo muito complicado.
Isto também é muito de não conseguir lidar com a solidão?
Sim, podem haver vários fatores. Pode ser o medo de lidar com a solidão, o fato de ter esse medo de estar sozinho, o fato de não saber ao certo quem é e apanhar do outro lado uma pessoa que naturalmente já é manipuladora.
E essa cena que tu estás a falar de apanhar do outro lado também era um tema que eu queria trazer, que é: tu sentes que há uma tendência para se escolher o mesmo tipo de pessoas.
O dedo podre.
Sim. Achas que sim?
O que tu achas?
Eu acho que sim. Acho que acaba por espelhar coisas em ti. Então tu acabas por atrair e sentir-te atraída, ir atrás do mesmo tipo de padrão. Portanto, acho que se calhar entrarem coisas tóxicas ou coisas que não se desenrolam, também tem muito a ver contigo e com aquilo que tu estás a escolher e a aceitar.
100%. 100%. É isso. As pessoas dizem muito: "Eu tenho o dedo podre, eu só atraio pessoas menos boas, eu só atraio almas mau-caráter, boy lixo que só procuram sexo e depois vão embora". Tu não atrais, tu escolhes. E isso para mim faz toda a diferença. Eu não vou atrair este tipo de pessoa. Eu estou inconscientemente a escolher.
E por quê? Porque eu não quero mesmo, na verdade, estar com alguém? Por que achas que isso acontece?
"N" fatores. Desde eu não querer efetivamente estar sozinho, desde eu sentir muita carência e achar que eu preciso de uma relação, porque toda gente tem uma relação e está feliz numa relação. "N" fatores, fatores de infância da pessoa que também influenciam. Eu gosto de dizer que a infância não prediz 100%, obviamente, aquilo que a pessoa vai ser, mas condiciona muito e há vários estudos sobre isso. Portanto, claramente que a infância também prediz aquilo que a pessoa viu em casa. Mas dois irmãos que passaram exatamente pela mesma situação, um vai escolher seguir um caminho, o outro vai seguir outro caminho completamente oposto, ou seja, não influencia tanto como se pensa. Ainda assim, existe a sua porcentagem. Agora, é muito complicada esta situação da dependência emocional, porque pode ter "n" fatores, qualquer um de nós pode cair nisto e numa situação ou numa fase de vida em que está mais vulnerável, pode cair nesta situação de dependência emocional. O que difere uma pessoa que consegue sair de uma pessoa que não consegue sair? Depende, mais uma vez, mas o quão alerta ela possa estar e a rede de apoio que ela tem à volta. Porque também é comum a pessoa não querer ouvir quando está apaixonada e quando está altamente manipulada, é muito difícil a pessoa conseguir ouvir um amigo que lhe diz: "Olha, essa pessoa claramente não é para ti". E a pessoa simplesmente não quer ouvir. E eu acho que todos nós já passamos por essa situação, pelo menos quando estamos apaixonados, em que nós não queremos ouvir a outra pessoa ou quem está à volta.
Tu achas que só tu é que estás dentro?
É, eu é que sei.
Eu é que sei.
Eu é que sei, eu é que estou com a pessoa. O que tu sabes disso? Eu é que sei. E às vezes, termos esse campo um bocadinho mais aberto e estarmos mais abertos a esse feedback, não é assim tão mau nesses casos. Porque sim, quando a pessoa tem essa dependência emocional, em consulta aquilo que funciona muito é a pessoa ter uma rede de apoio muito saudável, que a apoie.
Mostra outro caminho.
É, fazer uma lista também de quando eu sinto essa carência, a quem é que eu posso ligar, a que amiga é que eu posso mandar mensagem e que me vai dizer a verdade. "Olha, ele não é saudável para ti, lembra-te o que ele fez já de menos positivo". Isso ajuda muito.
E quando estamos a falar aqui em atrair este tipo de pessoas, achas que tem a ver com os estilos de apego, aquilo que estávamos a falar antes de: "Eu sou ansiosa, vou atrair um evitativo".
Sim.
Tem a ver?
Tem muito a ver, sim. Tem muito a ver e a ciência mostra isso. Ainda assim, mais uma vez, tal como a infância não prediz, numa grande porcentagem, aquilo que a pessoa vai ser, os estilos de vinculação ajudam a explicar, mas não é chapa cinco, como se costuma dizer, depende muito. E nós somos seres tão complexos, nós já passamos por tanta coisa. Tu tens os teus traumas, possivelmente, eu tenho os meus. E isso claramente pode influenciar as escolhas que nós fazemos. Claramente, aquilo que nós passamos vai influenciar aquilo que nós sentimos e vai influenciar, obviamente, aquilo que nós pensamos e as decisões que nós tomamos. Claramente.
E hoje em dia fala-se imenso de, tem aqui três termos, que é situationships, breadcrumbing e orbiting.
Eu não sei o que é isso. Essas duas últimas.
Breadcrumbing é tu… Não sabes?
Não sei.
Tu és mais jovem do que eu. Breadcrumbing é aceitar as migalhinhas.
Sim.
Pronto, é pessoas que andam ali a deixar as migalhinhas e tu andas atrás.
Eu adoro os termos que surgem a cada momento.
Eu acho que é uma pessoa ansiosa que aceita coisinhas de um evitante. Estás a ver?
Sim, aceitar as migalhas.
E orbiting é uma pessoa que está sempre lá, não te quer, mas está sempre ali a rondar.
Marca presença.
Está em órbita.
Está ali e não está. Isso acontece muito. Quando nós falamos em dependência emocional, não é só quando a pessoa está numa relação. Acontece, sim, quando existe essa pessoa que está ali em órbita.
Essa situationship.
Sim, mas às vezes a pessoa quer essa situação. Não me sinto bem com essa situação, mas eu quero. E eu continuo a aceitar.
Porque tu achas que vais mudar, que a pessoa vai mudar de opinião.
Isso é das piores coisas que existe.
Vai acordar um dia e vai perceber que sou eu.
É das piores coisas que existe. E mesmo a nível pessoal, eu mesmo, é das coisas mais difíceis, é tu achares que a pessoa vai mudar, mas tu não tens essa certeza de que a pessoa vai mudar, mas existe essa possibilidade. Qual é a porcentagem? 5%? 1%? Não interessa, mas existe, que a pessoa pode efetivamente mudar e tornar-se aquilo que eu quero. Mas aí nós entramos naquela parte também da idealização do outro.
Dizemos muitas vezes: não estamos a apaixonar pela pessoa, mas pela ideia que nós, na nossa cabeça, criamos da pessoa.
E isso acontece sempre. Quando é que não se torna saudável? Quando eu idealizo uma pessoa completamente diferente face à pessoa que é. Eu posso idealizar o meu namorado porque eu percebo, e quando olho para ele, percebo que ele pode ser muito mais do que aquilo que ele é.
E isso é bom, estamos todos em conjunto para crescer em conjunto.
Eu quero que a outra pessoa do outro lado veja exatamente a mesma coisa face a mim. Ou seja, o que eu posso fazer para me tornar a melhor pessoa? Eu quero ter esse feedback também, mas calma, idealizar uma pessoa completamente diferente, imagina, eu estou a namorar com uma pessoa que ou não trabalha, não tem responsabilidades, e o que eu idealizo é uma pessoa que tem o seu trabalho, consiga pagar as suas contas. Se calhar é uma situação um bocadinho desmedida. Há outras pessoas que se calhar vão preencher esse campo. Eu ir de encontro àquela pessoa que não trabalha, que não tem responsabilidades e querer mudá-la. Eu quero mudá-la por quê? A outra pessoa só vai mudar se ela quiser. Nós próprios vemos conosco, fazer mudanças na nossa própria vida, na minha, na tua vida, é tão difícil, quanto mais exigir uma mudança na outra pessoa. Claramente, isso nunca vai resultar.
E por que achas que isso acontece? É porque, um, queremos uma relação e porque idealizamos que esta pessoa até pode encaixar. Dois, o mundo do dating é complicado, então mais vale settle.
Tudo. Eu acho que na nossa cabeça nós vamos juntando tudo. Acredito que estas coisas vão orbitando aqui na nossa cabeça e vamos acabando por chegar a essa conclusão. Tudo isso influencia para chegarmos a esta conclusão. Mas não é assim tão mau.
O quê?
Quando eu estou nesta relação tóxica. Não é assim tão mau. Eu estou com um rapaz, ele de vez em quando procura, mais vezes não procura, mas é melhor do que não ter nada.
É isso, do outro lado o que é que há? Estar sozinha ou voltar à procura, voltar a ir a dates.
Eu entendo, é complexo. E pelaquilo, isto aqui em off, que não é em off, mas daquilo que eu vejo das minhas amigas, o mercado está mesmo difícil. As coisas não estão fáceis, efetivamente.
E outra coisa também relacionada aqui do mundo do dating, antes de sequer entrar em situationship e coisa assim, ghosting, que também é um destes três termos em inglês, mais um, ghosting. Achas que isto diz mais sobre nós? Ou seja, nós assumimos que isto diz muito sobre nós, quando, na verdade, não diz.
Total.
Quando, na verdade, é super sobre a outra pessoa.
O ghosting é o comportamento que a pessoa tem quando desaparece simplesmente e não atribui qualquer explicação. Repara, ser dado uma explicação não demora mais de um minuto, dois minutos. Eu posso ir sair contigo, não me identificar e ainda assim dar-te esse feedback. Tu mereces esse feedback. Eu tenho essa responsabilidade afetiva contigo. O que acontece quando não existe essa responsabilidade afetiva? Eu não te digo nada. Não te digo nada porque: "Ela vai perceber. Eu vou desaparecer, não tenho que enfrentar".
E também estamos escondidos atrás do telemóvel.
Isto tem tudo a ver com a outra pessoa e não conosco, porque estamos a lidar com a capacidade ou incapacidade da pessoa falar sobre temas difíceis, ter conversas desconfortáveis, porque chegar ao pé da outra pessoa e dizer: "Olha, eu não estou assim tão interessado", é uma conversa desconfortável e nem toda a gente aguenta ter estas conversas. Portanto, sim, é completamente sobre o outro e não sobre ti. Está tudo certo, eu posso ter esta atitude X, atitude Y, portanto, que tu não te vais identificar, mas isso não é motivo para tu ires embora sem dizer nada. Podes dar um feedback, podes dar essa explicação. E não é uma explicação exaustiva. "Olha, eu não me identifiquei".
Eu acho que nós queremos todos ser gostados por todos. Temos muito essa vontade.
Mas porque isso nunca vai acontecer.
É isso, mas eu acho que vem com a maturidade, com a idade, com conhecer outras pessoas, ter experiências diferentes, que tu aceitas que nem toda a gente tem de gostar de ti e está tudo certo, seja na vida amorosa, seja nas amizades.
Eu acho que é talvez das coisas mais complicadas. É nós termos essa consciência de que nem toda a gente vai gostar de nós, nem toda a gente se vai identificar conosco, e está tudo bem. Eu não sei se sequer se há um período da tua vida em que tu chegues e digas: "Eu agora não me importo com mais ninguém". Porque mais uma vez, puxando aqui o lado da ciência e o lado humano, nós precisamos de sentir que as pessoas gostam de nós. Há milhares de anos atrás.
Estamos combinadas. O objetivo principal é esse.
Certo, há milhares de anos atrás, quem não era aceito, morria, porque não tinha comida, não tinha uma tribo para defender. O nosso cérebro não está assim tão evoluído para pensarmos de forma diferente. Portanto, hoje em dia, claramente que se alguém não gostar de mim, eu não vou morrer por causa disso. Mas isso ainda está cá dentro. Ou seja, há coisas que são biológicas e que nós não podemos simplesmente querer controlar. "Não me preocupo com ninguém, eu não quero saber de ninguém, eu não me importo a opinião de ninguém". Isto não existe.
Mas é uma confiança que se trabalha?
Uma confiança?
É uma confiança em ti.
Sim, é uma confiança que vais desenvolvendo com base naquilo que vais criando na tua vida, com base naquilo que vais conseguindo atingir. Ainda assim, eu acredito que não é saudável chegares a um momento onde: "Ok, agora eu não me importo com a opinião de ninguém". Eu gosto de dizer, por exemplo, às pessoas que termos uma espécie de pirâmide. Lá em cima estão as pessoas mais importantes para mim. Ou posso estar eu. O que eu quero? Depois descemos um nível da pirâmide. As pessoas mais importantes para mim, a minha mãe, namorado, namorada, irmão. O que estas pessoas pensam? Depois, colegas, amigos, depois, pessoas no geral, público no geral.
Tem um peso muito menos relevante.
É, tem um peso muito menor. Hoje em dia, se a minha mãe me disser algo ou se me der uma opinião, eu vou levar aquilo muito em consideração. Mas se for alguém, por exemplo, do Instagram, uma pessoa que me segue no Instagram.
Aleatória que deixa um comentário.
Lá está, que não conhece a pessoa que eu sou, vou atribuir um peso muito diferente. Não quer dizer que eu não ligue, porque acho que também nós estarmos num pedestal em que eu não quero ligar a nada, também não é bom.
E acho que é difícil lá chegar. E depende também dos temas em que tocar, porque se tocar numa ferida tua, aí vai te ativar a tua insegurança.
Nós todos temos coisas que nos deixam mais vulneráveis, sim, claro que sim. E é preciso ter atenção a isso. Mas lá está, a própria pessoa que trabalha em si, escreve muito, fala com os amigos, numa roda de amigos sobre aquilo que sente e não tem vergonha de dizer, vai ser alguém que tem muito mais noção das coisinhas que a deixam vulnerável e das coisinhas que a deixam mais frágil. E tu teres essa noção é bom.
Isto vem, acho que é com a idade, aquilo que eu estava a dizer, mas também com todos estes exercícios que estávamos a falar, seja escrita, seja fazeres terapia. Tu passas a conhecer-te melhor e depois tu já sabes que aquele comportamento daquela pessoa está a ativar em mim Um trigger de uma insegurança minha não tem nada a ver com aquela pessoa.
Mas lá está, nem oito nem 80, porque depois aquilo que acontece muitas das vezes é nós querermos procurar esses triggers e esses significados em todo lado, quando se calhar a outra pessoa tem um dia mau ou quando eu também tenho dias maus. Ou seja, hoje em dia não é fácil fazer este balanço. Não é mesmo fácil de todo. E eu compreendo mesmo quando as pessoas chegam, por exemplo, à consulta e dizem isso. Há demasiados estímulos, e voltamos ao início da nossa conversa, há muitas situações que podem influenciar-nos. Nós nunca estivemos tão vulneráveis a tudo, a que alguém toque na nossa ferida, a que alguém nos diga uma coisa que nos vai ferir. Nós nunca estivemos tão suscetíveis a isso.
Porque acho que também é isso, nós temos tanta informação e falamos cada vez mais de saúde mental, que é ótimo.
Uhum, é incrível.
Estamos aqui a falar sobre isso, que é incrível. Mas, por outro lado, também traz isso, de estarmos constantemente a analisar tudo, a querer controlar tudo. Já que estamos a par que isso existe e que isso acontece, então deixa-me tentar brincar com isso até chegar ao ponto perfeito de estar 100% feliz, que nunca chegamos.
Nunca chegamos.
Há sempre um problema a surgir.
Sim. Sabes que eu tenho assistido muito, não sei se tens exatamente essa perspectiva também, de algo que evolui tão rápido, tende depois a ter um retorno. Ou seja, esta é a minha perspectiva, nós estamos a evoluir tão rápido e a querer saber tudo, a querer medir os indicadores todos a nível de saúde mental, a nível de ter uma vida saudável, que hoje em dia eu começo a ver que as pessoas começam a querer regressar ao antigamente. Parece que o retro, o antigo, começa a estar mais na moda também.
Mesmo, em termos de câmaras digitais. Há pessoas a voltar a telemóveis com teclas.
Adoro. Eu próprio já pensei também ter um telefone que fosse só de teclas. E eu adoro, acho que isso é muito saudável, o fato da nossa geração, jovens, estarem a querer voltar.
E run clubs, e clubes de leitura, e clubes de pintura. Há agora uns negócios, mesmo em Portugal, que são umas cabaninhas em que tu vais, o conceito é este: três dias, meio que retiro, vais com alguém ou sozinho, e deixas o telemóvel preso numa caixinha e eles deixam lá jogos e câmaras e coisas assim.
Adoro.
Giríssimo.
E basta nós pesquisarmos isso na internet e o algoritmo depois também vai nos mostrando isso, porque existem, de facto, essas pessoas que criam esse tipo de negócios, que eu acho que são incríveis, esses clubes do livro, em que a pessoa leva o seu livro e partilha os ensinamentos que teve ou a história que está a ler. Eu acho isso absolutamente incrível e este retorno ao antigamente deixa-me mesmo muito feliz, porque vejo que tem um bom impacto nas pessoas.
E mesmo em termos de dating, conhecer pessoas novas. Claro, temos as dating apps, Tinder, Instagram, e dá para conhecer muito mais gente do que antes, mas ao mesmo tempo, todos estes run clubs, coisas assim, acabam por estar a surgir porque as pessoas querem a parte social para dating ou amizade, mas querem é estar rodeado de pessoas novas e estar fora de casa.
Sim.
Isto é giro de se ver também.
É muito giro as pessoas começarem a socializar. Existem agora umas batalhas de farmar aura, não sei se já viste.
E a bem.
Tem os dois lados. Ou seja, tem o lado de ser uma coisa cringe.
Eu não estou muito a par do que isso é.
Eu não sei muito também, portanto, não vou conseguir desenvolver muito, mas tenho aquela que é a minha perspectiva. Daquilo que vi, tem o seu lado cringe, tem o seu lado de passarmos muito do oito para o 80 a nível de extravasar, parece que toda a gente quer mostrar e extravasar, mas também tem o outro lado, de miúdos que se juntam, saem de casa, largam os telefones, largam os jogos e juntam-se para interagir. E se formos olhar nessa perspectiva.
Social.
Social acaba por ser algo positivo, de os miúdos se encontrarem na rua para brincar. Há quanto tempo é que isto não existia? Deve existir na altura dos nossos pais. Eu não passei por isso. Também sempre vivi em prédio, mas não sei, não existia isto de ir para a rua brincar com os amigos. Eu não passei por isso, a não ser na escola, mas é giro ver isto, é giro ver a forma como as coisas evoluem. Ou seja, evoluímos tanto que depois as pessoas sentem necessidade de voltar ao que era humano. Gosto muito.
Sim, mas eu acho também, estamos aqui a falar muito de redes sociais e demonizar tudo isto, mas a verdade é que também tem um lado muito positivo de, um: estarmos muito a par das coisas e estarmos conscientes. Dois: a parte da saúde, obviamente, estamos sempre a maximizar, mas, por outro lado, está tudo a correr, está tudo a fazer exercício. E ainda bem.
Ainda bem.
Portanto, quando se critica. Está na moda. Ainda bem. A parte social, estão se a mexer, conhecer pessoas novas, o que é que há de mal nisto? Que seja uma trend, que haja mil run clubs por aí.
Eu não sei, eu acho que as pessoas têm sempre essa perspectiva de acabar por criticar muito o que é novo, porque desconhecem também. Mas sim, os run clubs, eu já fui, amei, conheci pessoas novas, inclusivamente fiz amizades no run club. E se eu não tivesse ido, não tinha feito.
Isso que é mesmo por estar sair de casa.
Não só run club, mas também clubes de livro, sei lá, outras coisas que se possam fazer, onde há vários amigos que se juntam já, e já vi essa trend também no TikTok, onde ninguém literalmente mexe no telefone à hora de jantar. Existe aquela brincadeira de quem mexer no telefone tem que pagar a conta, mas fora isso, lá está, não vamos mesmo mexer, vamos partilhar coisas nossas que se calhar nunca partilhamos. Existem cartas também onde se pode conhecer melhor a outra pessoa, não só amorosamente, mas a nível de amizades também. Portanto, deixa-me muito feliz ver esse lado humano e ver que as pessoas estão a valorizar cada vez mais essas coisas que eu pensei, há um tempo, que estivessem perdidas. E deixa-me muito feliz perceber que não estão.
Sim, que nós vamos dando a volta.
As coisas vão circulando. Não é linha reta, as coisas vão circulando. E isso é muito bom, ver as pessoas valorizarem cada vez mais isso. Eu próprio, quando apareceu essa coisa dos running clubs, pensei assim: "Mas as pessoas juntam-se todas para correr?" Eu que detesto correr. Eu não gosto nada de correr, prefiro fazer outro tipo de exercício se não correr. Gosto de correr. E ganhei esse gosto por correr por causa disso, porque estou ao pé de pessoas que gostam de correr, que gostam de conviver. Encontras pessoas que têm os mesmos interesses que tu.
É logo um ponto de partida muito mais fácil. Estamos a falar do running club, mas existem mil e outras coisas de pontos em comum. Vai a uma aula de cerâmica ou qualquer coisa.
Que inclusive eu já fiz e amei.
Eu também.
Incrível.
Mas é isso, é teres um ponto em comum que acaba por ser mais fácil. Quando tu vais a um running club, tu sabes que as pessoas pelo menos gostam daquela parte e estão abertas a conhecer pessoas novas. E a partir daí já se cria uma ligação que te faz conseguir mais facilmente quebrar o gelo com essas pessoas.
Sim. E há pessoas mesmo, e já recebi esse feedback de: "André, eu fui e expus-me a essa situação desconfortável, que é ir a um clube de qualquer coisa e não saber como começar a conversa, não saber como interagir." Nós somos humanos, nós sabemos interagir, nós sabemos conversar. Quando é que nós perdemos isso?
E é uma pessoa nova, tu podes perguntar de tudo.
É isso. Mas é interessante analisar isso, que nós temos vindo a perder essa capacidade de interagir, de conversar, de querer saber, de eu realmente fazer-te uma pergunta e estar interessado naquilo que tu estás a dizer, não só perguntar para ficar bem. E estes tipos de encontros geram isto, mexem com a pessoa, estimulam a pessoa.
Não achas que é um músculo que se treina também?
Sem dúvida.
Imagina, eu estou numa fase um bocadinho mais focada em trabalho, eu sou de ir a estes eventozinhos e forçar-me a isso. E se eu estou numa fase em que não faço tanto, eu sinto que perco um bocadinho a capacidade de o fazer tão facilmente. E que fico até com menos vontade de ir a primeira vez, porque custa-me mais a retomar.
É um músculo.
Mas quando estou ali na cena, marco café aqui, café ali. Estou muito mais na cena. Flui muito mais naturalmente.
Sinto exatamente a mesma coisa. Sim, quando nós vamos fazendo, quando nós vamos pondo as coisas em prática, as coisas vão fluindo. É o poder de deixar fluir. Deixar fluir, mas fazer por isso. E sem dúvida, sinto exatamente a mesma coisa. No início é desconfortável, porque por que eu vou para um clube onde vou encontrar pessoas ou combinar um café com uma pessoa que eu nunca conheci? É desconfortável, mas vai só.
Mas quando já fizeres várias, depois vai-se tornando cada vez mais fácil, mesmo no mundo do dating. Por exemplo, tem uma amiga minha que já não vai a dates há muito tempo. E este verão nós estávamos a falar sobre isso e ela disse: "Um objetivo que eu tenho é ir a um date." E ela está a pôr muita pressão nisso, por ser uma coisa que ela já não faz há muito tempo. Então ela disse: "Não, eu vou instalar dating apps e eu vou num date. Esse vai ser o meu KPI de objetivo."
Que bom! Lá está, uma coisa que está ao alcance dela.
Eu sei que lhe vai custar muito. Imagina, se eu tivesse de ir a um date hoje em dia, eu estou sempre a conhecer pessoas novas, sinto que o meu músculo está muito treinado e já não iria com tanta pressão, nem poria tantas expectativas nisso, porque já faz parte da minha vida. Estar sempre a conhecer pessoas, estar habituada a fazer esta conversa de circunstância, se calhar, inicial, ou suportar essas conversas desconfortáveis. E se calhar esta minha amiga já não tem tanto esse músculo treinado e sei que a primeira vez vai lhe custar muito e ela vai ponderar muito se vai, se não vai. Mas depois de dar esse passo, se calhar até ganhar confiança de: "Eu sou capaz." E depois nos próximos já vai ser mais fácil.
Sim, e isso para várias coisas na nossa vida. Eu compreendo perfeitamente, porque é uma situação desconfortável, não só conhecer outra pessoa, mas nós no nosso dia a dia podemos ter situações que são desconfortáveis para nós, mas dar esse passo e querer avançar e querer fazer e colocar-nos nesse lugar de desconforto é tão bom, porque depois a sensação que nós temos quando passamos por isso é: "Afinal não foi um pesadelo." Ou se calhar foi um pesadelo, mas eu cumpri, eu fiz, eu consegui. Lá está, a importância de ter esse controle nessas pequenas coisas. Eu acredito que para essa tua amiga possa ser bastante difícil, mas depois ela vai conseguir perceber que eu fui capaz. E aí vai abrir a porta para ela conseguir até conhecer outras pessoas, não só a nível amoroso, mas outras amizades também que se podem desbloquear a partir daí. É a interação, o poder da interação.
Quem está há muito tempo fechado na sua rotina, mesmo sem fazer amizades novas, fica muito bloqueado.
O Covid influenciou tudo 100%. Não só na malta mais nova, que passou por isso numa fase em que eram mais miúdos, mas também a nossa geração.
E custa muito desbloquear isso, custa muito dar esse passo. Ainda há duas semanas fiz uma corrida com seguidoras, porque eu precisava de gravar um videozinho e chamei algumas pessoas. E tive mesmo de convencer pessoas por mensagem do gênero: "Mas eu não tenho ninguém para ir comigo, eu estou sozinha." "Olha, vão ser só raparigas, vai ser mega tranquilo. Vai ser uma vibe de certeza absoluta que vais gostar, não tenho a menor dúvida. Aparece." E há pessoas que custa mesmo a dar esse passo, custa mesmo a sair de casa.
É o desconhecido. Lá está, é o medo do desconhecido. Só que além disso, há tanta coisa boa que pode surgir. E mesmo que não seja algo bom, surge uma aprendizagem qualquer.
Uma confiança em ti.
Sim, confiança, vais ganhando mais autoestima. Há muita gente a perguntar como é que se constrói autoestima. Não é algo palpável, mas como é que eu posso construir? É através dessas coisas, darmos este passo, tentarmos. "André, não estou preparado." Está tudo certo. Daqui a um mês vais te preparando e vais conseguir. Tranquilo, cada um tem o seu tempo. Acho que isso é o mais importante.
Olha, e se tivermos aqui do outro lado pessoas a ouvir-nos assim nesta faixa de idades, 25, 35, o que tu achas que sejam as maiores recomendações que tu podes dar para fecharmos aqui o episódio, assim em jeito de resumo?
O que eu posso dizer, fora aquilo que nós já falamos também? Eu acredito que falamos em temas importantes Sobretudo o não comparar, a não comparação, o alimentarmo-nos bem, o escrever. Acho que são coisas simples que nós temos controle sobre. Como já disse, as pessoas têm todas horários diferentes, as pessoas têm todas responsabilidades diferentes. Ainda assim, há pequenas coisas no nosso dia a dia que nós podemos fazer. E outra coisa, se nós não conseguirmos, porventura, estar a lidar com algum tipo de situação, pedir ajuda. Porque eu também já estive nessa situação, há uns anos, onde precisei de ajuda e não consegui pedir essa ajuda. Portanto, percebo quem não tem esse input de: "Vou pedir ajuda, vou ser vulnerável, vou assumir que preciso."
E é assustador dar esse passo.
É muito assustador, porque a pessoa vai nos ver de forma frágil, vai achar que somos fracos, só que tudo isso compensa quando nós decidimos dar esse passo e pedir ajuda. E pedir ajuda não tem que ser só um psicólogo e fazer terapia.
Pode ser falar com uma amiga.
Não tem que ser. Pode ser ligar alguém e explicar a situação que estamos a passar para alguém ter o conhecimento também, para nós falarmos sobre isso, para elaborarmos isso dentro de nós. Acho que pedir ajuda é das coisas mais importantes.
Para tirar isso da nossa cabeça.
Não somos fracos, somos muito fortes por querer pedir ajuda, sem dúvida.
E de certeza que do outro lado vai ser bem recebido, porque nós todos queremos ajudar.
Claro que sim.
Sentirmo-nos úteis.
Claro, e as redes sociais mostram o bom, mas toda a gente, se nós formos analisar, passa por situações muito parecidas. Não há uma lista assim tão grande de emoções e sentimentos. Nós sentimos quase todas as mesmas coisas, o que muda são os contextos. Tu passas por uma situação, eu passo por outra, mas a forma como sentimos aquilo que sentimos é muito parecido. E então, claro que nós nos vamos conseguir ajudar e compreender, se forem as pessoas certas e se forem as nossas pessoas, o nosso grupo, sem dúvida que nos vai ajudar a sentir compreendidos. E muitas das vezes, o que nos falta é isso. Não é arranjar a estratégia mirabolante, é sentirmo-nos só ouvidos, ter ali alguém que de fato está a ouvir o que estamos a dizer. Isso é muito importante.
Obrigada, André. É um prazer ter-te aqui. Foi muito bom. Valeu o teu livro. Trouxeste-me um livro muito giro!
Sim, esse é top.
"Para tão curtos amores, tão longa vida".
Tão longa vida.
Daniel Sampaio.
Maravilhoso.
Fala de quê?
Relações, amores, as exigências de hoje em dia.
Relações afetivas breves e as prolongadas.
Exatamente.
Monogamia e infidelidade.
O fato de hoje em dia as pessoas não quererem assumir compromisso, o ghosting, fala dessas coisas mais todas.
Giro, vou amar. Obrigada, adorei.
Obrigado eu.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
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