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Sunday, September 13, 2026

"Donald Trump foi à Irlanda para provocar o Reino Unido"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está aberto o gabinete de guerra da "Rádio Observador", edição de fim de semana. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou falar nos próximos minutos com Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Bem-vindo, bom domingo. Vamos começar com a situação na Arábia Saudita, em que Donald Trump também já falou sobre este assunto, mas a Arábia Saudita decidiu, nos últimos dias, encerrar um importante oleoduto. Estamos a falar do oleoduto Leste-Oeste. Tem 1200 km, tem capacidade para exportar cerca de 7000 barris por dia. E estamos a falar da Arábia Saudita, que é o maior exportador de petróleo do mundo e tem conseguido, através deste oleoduto, de certa forma, contornar a passagem por Ormuz, sendo que transporta cerca de 4% a 5% da oferta global de petróleo. Este é um oleoduto muito importante e é uma decisão da Arábia Saudita preventiva, devido aos ataques que continuam a avançar dos houthis no Mar Vermelho. Que impacto tem, de facto, esta decisão da Arábia Saudita, também para aquilo que será os combustíveis, mas que impacto tem isto para o conflito armado que está em curso no Médio Oriente?

Olá, bom dia, Miguel.

Bom dia.

Sim, de facto, esta decisão da Arábia Saudita em encerrar este oleoduto é obviamente significativa para a economia mundial, numa altura em que já há uma grande pressão sobre os preços dos combustíveis, mas também nos diz do estado deste conflito. Nós sabemos que o Irão, através dos seus proxies, tem vindo a atacar a Arábia Saudita. Como disse e muito bem, os houthis no Mar Vermelho têm conseguido avanços importantes e as milícias pró-iranianas que estão sediadas no Iraque têm atacado postos estratégicos da Arábia Saudita, nomeadamente este oleoduto que agora foi encerrado. E no fundo, denota também a dificuldade da Arábia Saudita em manter o fluxo do petróleo a sair do país. Por outro lado, estes ataques recentes também demonstram que o Irão, apesar de não serem ataques diretos, continua com uma capacidade muito interessante do ponto de vista iraniano, para causar danos aos Estados Unidos e aos seus aliados. A Arábia Saudita, neste momento, nós sabemos que preferiu não responder diretamente aos ataques que têm vindo a surgir do Iraque. Disse que pretende dar espaço ao governo iraquiano para ajudar a resolver a situação com as milícias pró-iranianas, mas também nos diz da sua incapacidade de se defender. E nós sabemos que recentemente também foi pedido aos Estados Unidos ajuda, no fundo, para lidar com estas ameaças, nomeadamente com os houthis, e que neste momento os Estados Unidos também muito em função daquilo que se passa internamente e com as eleições que se aproximam, e que Donald Trump também, de facto, tem demonstrado não ter interesse em aumentar esta intervenção e, no fundo, escalar a guerra que se está a passar contra o Irão, denuncia também uma grande dificuldade dos Estados Unidos e dos seus aliados da região em conter um Irão. Um Irão que nós sabemos que também passa por imensas dificuldades. A crise econômica dentro do país é gravíssima. Nós sabemos que a inflação está a explodir. Começa a haver, de facto, contestação interna e nós, como o Irão não é uma democracia, é um regime muito fechado, nós vamos sabendo pouco do que se passa lá dentro, mas as informações que têm saído é que, de facto, o regime também está a ser pressionado internamente pela população, que cada vez sofre mais com este bloqueio econômico dos Estados Unidos. E, no fundo, o Irão, com estes também ataques, me parece que também pretende tentar infringir o máximo de danos aos Estados Unidos e, por arrasto, à economia mundial, no sentido de tentar obter alguns ganhos antes dessas eleições que sabemos que, e Donald Trump já o disse e já o fez de saber, que depois das eleições a atitude dos Estados Unidos poderá ser outra.

De facto, Donald Trump falou ontem em Dublin sobre esta situação na Arábia Saudita. Utilizou uma frase que agora me parece utilizar todos os dias. É uma frase que vem da pandemia: "Vai correr tudo bem, tudo vai ficar bem". Disse que o príncipe herdeiro é um grande amigo e apontou logo para a responsabilidade do Irão neste ataque. Mas falou em Dublin, como eu referi, Donald Trump teve esta visita, reuniu-se com o primeiro-ministro, reuniu-se com a presidente, visitou também um open de golfe. Se há golfe, Donald Trump aproveita para visitar também. E o presidente norte-americano mal chegou, criou logo aqui um pequeno conflito, disse que gostava de ver a Irlanda unificada. Vamos por partes, mas que balanço faz desta visita de Donald Trump a Dublin? Por que é importante?

Donald Trump, com esta visita, conseguiu mais uma vez criticar ou atacar os interesses do aliado britânico, do Reino Unido, ao admitir que gostava de ver a Irlanda reunificada, uma posição que nenhum presidente americano até ao passado teve, inclusive Joe Biden, que é uma pessoa que tem raízes irlandesas e que sabemos que tem grandes ligações com a Irlanda, mas nunca ele ousou tomar posição sobre a possibilidade da união da Irlanda. Nós sabemos que Donald Trump, talvez como muitos outros países, é extremamente impopular na Irlanda, apesar de ter investimentos e, como disse, ele tem campo de golfe e foi visitá-lo e penso que ia passar o dia dois no campo de golfe. E também esta visita se mistura sempre um pouco. O que Donald Trump faz é misturar os seus negócios de Estado com os seus negócios privados. Agora, parece-me mais uma vez que Donald Trump, no fundo, não tem restrições, não se impõe restrições a si próprio e diz as coisas que na altura lhe parecem indicadas ou pelo menos que a sua audiência gostaria de ouvir. Obviamente, o primeiro-ministro inglês já reagiu dizendo que a posição inglesa mantém-se idêntica aos acordos de paz Que foram firmados e, portanto, o que está estabelecido nesse Acordo de Paz é que poderá ser convocado um referendo na Irlanda do Norte quando houver uma ideia e uma maioria clara, que era essa unificação. Neste momento, isso não existe. Parece que Donald Trump, mais uma vez, cria aqui um pequeno incidente diplomático para os Estados Unidos, mas também sabemos que ele não se preocupa muito com esse tipo de incidente. Sabemos também que ele gosta de provocar os seus países aliados e, no fundo, essa vai ser a conclusão desta visita, que Donald Trump foi à Irlanda para provocar o Reino Unido.

Acha que é isso que vai ficar, que é mais essa provocação do que qualquer outra declaração, é o que vamos retirar desta visita, no final das contas?

Sim, parece-me que é o mais importante que se passou. Obviamente, Donald Trump reuniu com o presidente da Irlanda, com o primeiro-ministro, teve os seus encontros normais, mas isso parece-me o mais relevante desta visita.

Entretanto, este é mais um fim de semana marcado também pelo conflito na Ucrânia. Podemos falar aqui da diplomacia, neste caso, são mais esforços de que a diplomacia possa acontecer de forma mais concreta. Nós estamos desde o início do conflito, desde 2022, a falar da possibilidade de um encontro entre Zelenskyy e Vladimir Putin. Já tivemos encontros entre equipes diplomáticas da Ucrânia com equipes diplomáticas da Rússia, com mediação pelo meio, mas muito tem tentado e muito têm dito as elites que há interesse até para realizar esse encontro, mas ninguém consegue concordar no local nem no dia. Zelenskyy quer um encontro com Putin já para Miami, em dezembro, estamos a falar aqui da Cimeira do G20, mas Putin já disse que, de facto, continua disponível para falar, mas não onde Zelenskyy quer. E diz que está disponível para falar, sim, mas em Moscovo. Estamos constantemente aqui numa conversa utópica de um encontro que nunca vai acontecer, porque nunca se vão entender em relação ao local e à data.

A verdade é que enquanto não houver entendimento dos dois lados que há, de facto, um caminho para a paz, isso não me parece que será possível. Esta sugestão de reunir em Miami terá sido do governo americano e não propriamente Zelenskyy, que tem dito que reúne com Putin em qualquer lado do mundo, obviamente não em Moscovo, que também seria danoso para os interesses ucranianos. No fundo, Zelenskyy tem, neste último ano e meio, desde que Donald Trump é presidente dos Estados Unidos, sempre tentado demonstrar que está disponível para a paz, para também não contrariar aquilo que são os objetivos e os interesses de Donald Trump em conseguir uma paz a qualquer preço. Agora, Zelenskyy não pode admitir esta paz a qualquer preço e parece-me que é por isso que também não temos ainda um caminho para a paz. O Vladimir Putin e a Rússia não têm cedido praticamente nenhum milímetro desde o início deste conflito. Continua a pedir mais do que aquilo que a Ucrânia lhe pode dar, ou seja, a Rússia quer conquistar território por via diplomática que não conseguiu conquistar por via militar, e isso a Ucrânia não pode admitir. Os Estados Unidos, que volta e meia ressuscitam estas negociações, mas sem nunca ter demonstrado eficácia, porque de facto houve algumas cedências por parte do lado ucraniano, mas a posição russa é basicamente a mesma desde que se iniciou este conflito. E parece-me que enquanto, por vários motivos, ou se houver um colapso militar de algum dos lados, ou se houver, de facto, mudanças políticas internas na Rússia ou também na Ucrânia, não haverá a possibilidade deste encontro se realizar, porque se os dois líderes se encontrassem agora com as mesmas posições, seria um encontro inútil e parece-me que até mais Vladimir Putin do que Zelenskyy não tem interesse em fazer um encontro que não sirva para nada.

Falemos do encontro dos BRICS, que acontece na Índia, em que António Guterres participa também. O secretário-geral das Nações Unidas já sublinhou a necessidade de pôr um ponto final nos conflitos mundiais e disse isto perante os líderes da Rússia, do Irão, dos Emirados Árabes Unidos e da China, todos que estão presentes nesta cimeira dos BRICS. Que importância tem, de facto, esta cimeira nesta altura e se a voz de Guterres nesta fase, mesmo neste contexto, ainda é uma voz que pode ser ouvida?

António Guterres é português e todos nós temos respeito pela sua posição e pela sua carreira política, mas também temos a consciência que a sua autoridade enquanto secretário-geral das Nações Unidas está muito diminuída, visto que a sua capacidade de intervenção nos atuais conflitos tem sido quase nula. António Guterres, já não é a primeira vez que vai à Cimeira dos BRICS, mas no fundo, o seu papel tem-se resumido a ter discursos e um conjunto de intenções, mas sem consequências práticas. Nós nesta conferência dos BRICS tivemos, de facto, Vladimir Putin, tivemos os líderes da Rússia e do Irão, também dos Emirados Árabes Unidos, mas as consequências são praticamente nulas. Repare-se que iniciámos este gabinete de guerra a falar do conflito no Irão e os ataques que o Irão tem promovido contra a Arábia Saudita e os interesses sauditas e, no fundo, estas cimeiras servem um pouco para proclamar um conjunto de intenções, mas depois em que termos de consequências práticas, pelo menos a nível político e a nível de intervenção nestes temas relacionados com os vários conflitos que temos, a sua capacidade é nula. E António Guterres faz bem em estar nestes palcos internacionais, nestes fóruns, pois as Nações Unidas é suposto ser uma representação a nível global, mas a sua capacidade de intervenção tem sido muito reduzida e eu diria até que durante o seu mandato, a ONU perdeu algum prestígio e alguma capacidade de intervenção, também muito devido a que este tipo de conflitos não seriam possíveis de ser resolvidos através de uma intervenção das Nações Unidas, mas a verdade é que as Nações Unidas estão muito enfraquecidas e fragilizadas Aos olhos até da opinião pública mundial.

Vamos a um último tópico. Temos cerca de um minuto, mas queria ouvi-lo rapidamente sobre este assunto, estes avisos dos CEOs de empresas de inteligência artificial que apontam para vários riscos para a humanidade se esta tecnologia continuar a ser desenvolvida sem controle. Fala-se até na possibilidade de criação de armas biológicas. Ainda estamos a falar de um cenário que não se terá concretizado, mas ouvindo todos estes CEOs de todas estas empresas, alguém que acompanha também toda esta matéria em torno dos conflitos armados, das guerras e também da diplomacia, que análise faz de tudo o que tem sido dito nesta semana?

De facto, é sintoma de alarme para todos quando temos o próprio setor da inteligência artificial a alertar para os perigos do que tem vindo a ser feito nos últimos anos. Nós sabemos que os Estados Unidos estão numa contradição, porque obviamente querem manter a liderança nesta área que será fundamental para o futuro do mundo. Os Estados Unidos estão, de facto, na liderança, mas, por outro lado, vemos os responsáveis do setor, que normalmente os responsáveis e os empresários, o que querem é menos regulação e menos intervenção por parte do Estado no seu modo de agir. E neste momento temos o contrário, temos o setor a pedir mais regulação e a pedir mais atenção do poder político. Obviamente, nós sabemos que os Estados Unidos estão muito preocupados com o que se está a passar, mas também ao mesmo tempo querem manter a liderança neste setor, até porque há uma grande concorrência da China. E nós na China, ao contrário dos Estados Unidos, vamos sempre sabendo e vamos percebendo, pelo menos, às vezes até por pessoas que saem das empresas, como aconteceu recentemente numa destas empresas de inteligência artificial americana, vamos sabendo muito do que se passa e na China não sabemos muito do que se passa e, portanto, os Estados Unidos estão numa posição complicada, que por um lado querem manter a dianteira e, portanto, não querem desacelerar com a investigação e com o avanço tecnológico, mas, por outro lado, quando vemos estes responsáveis a alertar para os perigos deste avanço, eu acho que deve ser motivo de preocupação de todos nós. E esperemos que os responsáveis políticos dos Estados Unidos e de outros países tendam a olhar para estas revelações com muito cuidado e perceber o que é que podem fazer para terem atenção a estes alertas, que são de facto, alguns deles, até assustadores.

Está feita esta edição do Gabinete de Guerra. Nuno Gouveia, bom fim de semana.

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