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Sunday, October 25, 2026

IA é como fast food, "pouco saudável ao fim de um ano"

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“Por vezes, comer comida de plástico sabe muito bem, mas se comermos porcarias durante um ano, a pessoa acaba por sentir-se muito pouco saudável”, exemplifica. “Os chatbots de IA ainda são relativamente novos no mercado e são criados com muitas características específicas para parecerem vivos e parceiros de relacionamento muito interessantes. E, primeiro, a sensação de conversa pode ser incrível. ‘Uau, parece que há uma pessoa ali, que é excecionalmente simpática, acha que sou muito inteligente e é muito atenciosa’.”

“Pode parecer bom a curto prazo, mas se se passa a depender disso durante um ano, dois, dez… torna-se muito pouco saudável.” De um ponto de vista empírico, Amelia Miller considera que “ainda estamos na fase inicial de estudo dos efeitos da dependência de chatbots nos eixos emocionais críticos. Tenho medo do que vamos descobrir quando tivermos mais estudos que acompanhem como é a dependência das pessoas destes chatbots durante meses ou anos.”

O que faz uma coach de IA?

A partir do momento em que passou a disponibilizar ajuda para as pessoas se relacionarem “de forma mais intencional” com os seus assistentes de IA, Amelia Miller já ouviu de tudo um pouco. No caso dos homens, percebeu que “muitos falam com os chatbots para ter a sua própria cheerleader“. “Iam a caminho do trabalho e interagiam para ouvir um ‘vais arrasar hoje, vais brilhar na reunião com o investidor’. Mas achavam que era algo com valor, tiravam proveito dessa interação.”

Já nas mulheres, principalmente nas mais jovens, há quem relate que “sente que é mais fácil abrir-se com um chatbot do que com amigos, familiares, ou até em comparação com as pessoas com quem estão numa relação”, diz Amelia Miller.

Explica que trabalha com pessoas que se apercebem de que alguns hábitos na interação com a IA começam a “deixá-las preocupadas”. “Não trabalho com pessoas que já estão ‘sem pé’, que fazem um uso profundo da IA ou passam horas em conversa.” Dá como exemplo os casos de suicídios de jovens e adultos, destacando o trabalho da associação Human Line Project, criada para os casos de “espiral de ilusão” gerada pela IA. “Tento manter-me longe desse ambiente de alta complexidade, até porque não sou terapeuta clínica.”

Human Line, o grupo de apoio para quem precisa de ajuda para sair da “espiral de ilusão” da IA

O mercado em que trabalha, diz, “é muito grande, há centenas de milhões de pessoas a interagir diariamente com chatbots”. “E todas são vulneráveis, adotam hábitos que podem parecer inofensivos mas que, com o tempo, começam a corroer a sua capacidade de se relacionarem com outros seres humanos.”

Ao longo das sessões e workshops, tenta “ajudar as pessoas a refletir sobre como as respostas do modelo afetam as suas relações humanas reais”. Diz que pedir um conselho a alguém é “uma troca social, não uma troca de informação”. Quando se usa um chatbot para perguntar a melhor temperatura para cozinhar salmão ou um sítio bom para jantar, “perdem-se oportunidades para nos ligarmos a outras pessoas da nossa rede”. “Há oportunidades de conexão humana que estamos a perder ao envolver um chatbot na interação.”

Nas sessões, pede não só que se reflita mas também transmite algumas dicas para uma “interação mais saudável”. Por exemplo, “criar instruções personalizadas [para dar ao chatbot] que moldam o comportamento”. Uma das estratégias passa por pedir que a pessoa numere todas as mensagens. “Esta é a minha 12.ª, 13.ª mensagem — isso transmite a quantidade de tempo que se está a interagir com o chatbot”.

Outra das técnicas exploradas nas sessões passa pelo incentivo para encontrar no mundo real forma de “satisfazer a necessidade de validação” que as pessoas procuram nos chatbots. “Outro exemplo é tentar que as pessoas passem do chatbot para um espaço offline. Por exemplo, passar da conversa com um assistente para a escrita num diário físico. Ou, se acharem significativo, receber um mantra positivo de um chatbot, porque não escrevê-lo num post-it e colá-lo no espelho?”

Miller relata que a ideia das sessões passa principalmente por “tentar encontrar formas de avaliar o que é tão sedutor no chatbot e o hábito que se desenvolve, mas também encontrar outras formas de satisfazer essa necessidade sem fazer com que as pessoas pensem que estão numa dinâmica relacional que não existe”.

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