Entrevista Passos Coelho. Que planos tem para o futuro?

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Este é o Explicador das manhãs 360. Esta segunda-feira falamos da entrevista de Pedro Passos Coelho e para isso convidamos para estarem conosco Pedro Lomba, do PSD, Miguel Corte-Real, do Chega e Vitalino Canas, do PS. A moderação é do Bruno Vieira Amaral e da Carla Jorge Carvalho.
Pedro Passos Coelho deu ontem a primeira entrevista televisiva desde que saiu do governo, numa altura em que tem multiplicado as intervenções e as críticas à inação do governo. Muito bom dia, bem-vindos aos três a este Explicador. Começando por si, Pedro Lomba, Pedro Passos Coelho tem razão, o governo da AD está a desperdiçar as condições no Parlamento, as condições políticas de uma maioria de direita para fazer as reformas de que o país precisa?
Muito bom dia para vocês e também para Miguel Corte-Real e para o Vitalino Canas. Eu ouvi a entrevista de ontem e fiquei com essa leitura interpretativa. Pedro Passos Coelho é, já sabíamos, muito crítico dos anos de António Costa, que ele considera terem sido uns anos de pouca preparação do futuro. Disse várias vezes na entrevista e também diz que isso está agora a acontecer, porque na sua leitura, o governo está fundamentalmente a repetir o método de António Costa de governar. E uma das objeções que muitas vezes é feita, e João Vieira ontem fez essa objeção, é a de que o país está bloqueado, que é um problema do país. No fundo, o governo atua desta maneira, repete o modo de governar de António Costa, porque o país está bloqueado, não consegue gerar uma outra forma de fazer as coisas. E pareceu ontem claro que subjacente à proposta de Passos Coelho não está a ideia de que o país está bloqueado. Aquilo que está a acontecer é que o país não está a aproveitar a força que existe, as forças que existem. E essas forças são, como ele nomeia, as forças à direita que não estão a ser utilizadas para gerar a força, o movimento, a energia política que o país aqui poderia ter para levar a cabo um conjunto de medidas transformadoras que responderiam, no seu entender, àquelas que são as ansiedades das pessoas, que as pessoas querem essas mudanças.
Querem essas mudanças. Sendo, sobretudo, um problema de liderança, é isso, Pedro Lomba?
E nesse sentido, se assim for, o problema é um problema político, e é um problema de método, é um problema de vontade, é um problema de liderança também, não é um problema do país, porque as armadilhas, a palavra armadilha também é de Pedro Passos Coelho, em que o governo se deixou colocar, repito, não é um problema do país, não foi uma escolha do país. Poderia ter sido de outra maneira ou pelo menos, e penso que até vocês poderiam perguntar isso, eu não quero antecipar as minhas perguntas, não sabemos se poderia ter sido de outra maneira, mas sabemos que poderia ter sido tentado, que eu acho que é uma coisa que ele também diz, e também não foi tentado. E portanto, o problema é um problema político e é um problema que se estende, de fato, ao sistema partidário. E aí também se vê a crítica que ele faz ao bloco central como uma das soluções possíveis, porque desse ponto de vista, o bloco central anularia essas forças em vez de as somar. Penso que esta é uma das chaves da leitura da entrevista de ontem.
Vitalino Canas, muito bom dia também, bem-vindo a este Explicador. Um governo do Bloco Central seria uma solução, uma forma de desbloquear o atual impasse, ou agravaria precisamente esse impasse?
Bom dia a todos, aos companheiros de painel e também aos moderadores e à audiência, naturalmente. Eu gostaria de começar por dizer, antes de dizer alguma coisa sobre a pergunta, mas gostaria de começar por dizer que eu achei esta entrevista muito interessante e clarificadora. Importante não apenas para o PSD e para a leitura que o PSD possa fazer do trajeto que Pedro Passos Coelho esteja a pensar fazer, mas também para os outros partidos, para o Chega e para o Partido Socialista. Eu acho que aquilo que ontem Pedro Passos Coelho veio dizer é que será mais tarde ou mais cedo candidato a primeiro-ministro. Não tenho outra leitura, porque as condições que ele estabelece para isso são condições que são quase inevitáveis. É como dizer: "Eu candidato-me a primeiro-ministro se amanhã o dia tiver 24 horas, os dias seguintes também". É claro que amanhã o dia vai ter 24 horas.
Mas é inevitável que a condição do país, o estado do país se agrave, é isso?
Na leitura dele, sim. Parece-me que isso ficou particularmente evidente. Ele disse: "O meu partido deixou-se cair numa armadilha. A atual liderança do partido deixou-se cair numa armadilha. Não está a fazer aquilo que deveria fazer, que é fazer reformas e quebrar com o ciclo do Partido Socialista. Não fez uma consolidação à direita, não fez qualquer tipo de acordo à direita". Bem, estas condições, todas elas vão continuar a acontecer Se são estas as condições de Pedro Passos Coelho, significa que daqui a algum tempo Pedro Passos Coelho vai ser candidato a primeiro-ministro para então, agora indo à sua pergunta, ter um projeto alternativo àquele que ele acha que está sobre a mesa, que é o projeto do bloco central. Ou seja, no fundo, o Pedro Passos Coelho acha que o atual governo liderado por Luís Montenegro é um governo que continua as políticas do Partido Socialista, portanto, é um governo estilo bloco central. Não está lá o Partido Socialista, mas também não é necessário estar, porque estaria, na leitura de Pedro Passos Coelho, a fazer aquilo que o Partido Socialista já tinha feito no passado. Portanto, o que Pedro Passos Coelho vem dizer é que tem um projeto alternativo diferente desse. Ou seja, tem um projeto alternativo que é o projeto de coligação, de aliança, de acordo, o que seja, com partidos à direita, Iniciativa Liberal e o Chega. Isso ficou também muito claro ontem. Isto é importante para o PSD, porque naturalmente Luís Montenegro vai ter agora um problema ainda mais sério do que aquele que tinha com Pedro Passos Coelho. É também um problema para o PS, porque o PS tem estado a agir com a responsabilidade que tem sido reconhecida, tem estado a agir no pressuposto de que o PSD está dentro de uma linha de governabilidade que passa também pelo Partido Socialista, quando o Partido Socialista for governo. Ora, se aquilo que Pedro Passos Coelho vem dizer é que se Luís Montenegro falhar, ele avança, o Partido Socialista não vai ter Luís Montenegro depois para fazer acordos.
Terá um interlocutor que olha para a distribuição parlamentar de uma outra forma.
E uma vez sendo possível, derrubará o Partido Socialista, se o Partido Socialista estiver no governo ou não permitirá que o Partido Socialista for para o governo.
Ou seja, uma aliança à direita. Miguel Correia, bem-vindo também. O Chega estaria disponível para um entendimento parlamentar que juntasse AD e Iniciativa Liberal?
Muito bom dia a todos, bom dia também a quem nos ouve. Acho que o Chega está sempre disponível e estará sempre disponível para uma solução que verdadeiramente queira transformar Portugal. O Chega durante estes últimos anos tem procurado firmar este discurso e, portanto, tem naturalmente que ser consequente. A entrevista de ontem de Pedro Passos Coelho é uma entrevista que está assente numa lógica, é muito simples, foi muito agradável de ouvir e sobretudo acho que foi muito claro tudo que Pedro Passos Coelho disse. E que Portugal, em 2024, quando tivemos eleições, deu um sinal claro que estava farto e queria uma mudança de um ciclo muito grande de socialismo. E deu uma clara maioria ao espaço neosocialista em Portugal. O que o Luís Montenegro optou por fazer? Optou por não dialogar, optou por ficar ao serviço do que eram os interesses do Partido Socialista, em primeiro lugar, mas também os interesses de uma espécie de bloco central, que nem teve nenhuma intenção de dialogar com o espaço neosocialista. Ficou refém e iniciou o que Pedro Passos Coelho classificou e muito bem, que foi um ciclo eleitoralista de um ano, numa estratégia tática de governar o país para umas eleições rápidas, que se materializou em mais uma pequena vitória e que nos trouxe até hoje a mais um ano sem reformas, sem fazer evoluir o país.
Miguel Correia, mas Passos Coelho também responsabilizou os partidos à direita da oposição, o Chega e a Iniciativa Liberal, por não ser ou não ter sido possível até agora alcançar esse acordo. O Chega tem responsabilidades na falha desse entendimento parlamentar com o governo?
Não, e não tem por um motivo muito simples. Quem lidera o governo é que tem a obrigação de ser capaz de construir uma maioria para conseguir governar. Não é a oposição que vai construir maiorias. Não é o Chega que vai ter com o governo e dizer: "Por favor, vamos fazer um acordo." O PSD, dentro de uma arrogância, em primeiro lugar, estratégica, de quem quer governar sozinho, por motivos que se assemelham aos de António Costa, mas também aos de José Sócrates, é uma arrogância que mistura não só a estratégia de António Costa, mas também muita da atuação de José Sócrates, é que prefere estar sozinho, prefere não ter parceiros que o obriguem a um escrutínio, prefere continuar a ser o mesmo partido com os vícios dos últimos 50 anos.
Mesmo que o Chega tenha contribuído para a aprovação de medidas do governo, lei da nacionalidade, agora recentemente a questão da lei das rendas, tem havido entendimentos, aproximações pelo menos.
Claro que sim, esse é o sinal de que o Chega está disponível. Quando há medidas que são discutidas, que são negociadas, o Chega está disponível para aprovar. O Chega não aprova só o que entende que está certo. O Chega entende que em muitas matérias é fundamental haver cedências de parte a parte, porque isso é que é a capacidade de negociar. E repare, se nós tivermos eleições, o Chega irá sempre defender as suas ideias. Depois dessas eleições, e se derem o resultado que hoje as sondagens demonstram, do Chega ser o partido mais votado, o Chega vai fazer também sempre esse caminho de falar com o espaço neosocialista, de acolher as suas ideias e propostas e de procurar criar uma solução firme de governo, obviamente, onde tem que haver cedências de parte a parte, porque só assim é que é possível fazer acordos.
Pedro Lomba, ouvimos aqui Vitalino Canas muito seguro de que Pedro Passos Coelho vai avançar para a liderança do PSD. Também tirou essa conclusão da entrevista?
Ele não disse isso com essa clareza, mesmo que eu perceba que há sempre liberdades interpretativas que nós temos quando comentamos estas entrevistas. Eu julgo que a entrevista é muito clara sobre a condição dele.
Para que ele faça mais do que dar entrevistas e do que, como alguém dizia há pouco, andar por aí, é se o PSD não estiver a responder a esta proposta ou a estas preocupações que ele tem manifestado.
Mas haverá razões para pensar que depois desta entrevista o governo mude de alguma forma o ritmo de reformas de Passos Coelho falava?
Esta não é a primeira vez que Passos Coelho diz estas coisas, já o tinha dito em março, noutras ocasiões já o tinha dito e, portanto, o governo não vai mudar porque Pedro Passos Coelho fala. Julgo que é muito claro que isto não vai acontecer. Agora, há aqui um gatilho que não depende de Pedro Passos Coelho, depende do desgaste do governo, depende da iniciativa do governo. Este ponto é um ponto importante. Quer dizer, o governo tem ou não tem iniciativa? Ele menciona ontem o tema da imigração como um tema relativamente ao qual o governo terá chegado tarde. E ao chegar tarde, sujeitou-se à crítica de ter atuado a pedido do Chega, quando o problema imigratório está aí há muitos anos e não é preciso nem estar no Chega, nem ter sido membro do Chega para ter um ponto de vista muito crítico sobre o que se passou nos últimos anos em Portugal. E portanto, ele é muito claro sobre a condição, sobre a necessidade do PSD ter iniciativa, sair da armadilha em que se colocou. Dir-me-á: isto significa que ele acha que o PSD ainda vai corrigir o caminho errado que tem seguido nos últimos anos? Eu estou convencido que ele acha que não. Agora, uma candidatura é um tema muito mais complexo, depende de muitas coisas, algumas delas julgo que não as temos agora à frente, depende de calendários internos, de calendários nacionais, de uma série de outras questões e, portanto, não lhe consigo dizer se vai ser candidato.
Mas ficou claramente manifestada essa vontade por parte de Passos Coelho. Vitalino Canas, qual poderá ser o papel do Presidente da República em todo este cenário político, sabendo que António José Seguro, ainda na última semana, fez um apelo a entendimentos ao centro entre o PSD e PS?
É manifesto que esse não é o projeto político de Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho falou em vários setores, vários domínios onde entende que deveria haver reformas e essas reformas não estão a ser feitas e o governo não mostra elã para as vir a fazer. Ele falou da saúde, falou da educação, falou da habitação, falou do crescimento econômico. Também falou da imigração e segurança, mas noutro nível, noutro patamar. Ora, essas são áreas onde manifestamente o governo não mostra grande elã e não estou a ver que possa vir a mostrar. O Presidente da República creio que é manifestamente alguém que é favorável, aliás a sua candidatura baseou-se essencialmente nessa área política, é manifestamente favorável a entendimentos entre o centro-esquerda e o centro-direito do espectro político e deixando de fora o Chega.
E isso pode ser um obstáculo ao regresso de Passos Coelho, o posicionamento do Presidente da República?
Pode é vir a constituir uma situação em que o ciclo político muda e em que o Presidente da República pode desempenhar um papel essencial aí. Suponha, por exemplo, o seguinte cenário: que há eleições, Luís Montenegro perde essas eleições, o Partido Socialista é o partido com mais votos, e é lhe pedido que forme governo. Entretanto, o PSD entra em ebulição, como é normal quando perde eleições, e Luís Montenegro é substituído por Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho vem e traz um projeto político diferente, não viabiliza orçamentos do Partido Socialista, faz acordos com o Chega, apresenta um projeto político que é um projeto político de governo diferente. Qual é que poderá ser aí o papel do Presidente da República? É claro que é um papel importantíssimo. Nós sabemos que se fosse Marcelo Rebelo de Sousa, porventura, não deixaria que o ciclo político pudesse alterar-se sem haver eleições. Com este Presidente da República, não sabemos.
Pode haver outras soluções.
Pode haver outras soluções e portanto aí o Presidente da República terá certamente um papel muitíssimo mais importante, mas também não é possível nós anteciparmos o que ele fará, porque como nós também já conhecemos, não é um Presidente da República muito apreito a fazer cenários e a antecipar possibilidades.
Pelo menos publicamente.
Portanto, não vamos saber até que isso aconteça efetivamente, se vier a acontecer.
Se vier a acontecer, Miguel Correia, e se Pedro Passos Coelho volte de fato à vida política partidária ativa, isso poderá ser uma má notícia para o crescimento eleitoral do Chega?
Não. A participação de Pedro Passos Coelho na vida política é sempre uma boa notícia para o país. Pedro Passos Coelho tem demonstrado e demonstrou já uma grande capacidade de serviço ao país e, portanto, nunca será uma má notícia.
Mas se muitos votantes do Chega pensarem assim, o Chega pode ter menos votos em próximas eleições.
Sabe que eu acho que o facto de reconhecer que Pedro Passos Coelho foi um grande primeiro-ministro e é um grande ativo político para o país, não significa que as pessoas não entendam que apesar de Pedro Passos Coelho ter estas características, o PSD continua a ser o mesmo partido com os mesmos vícios de há 50 anos. E o que o Chega trouxe aqui ao espaço político foi essa diferença, e é nessa diferença, e é sobretudo nessa diferença, que os portugueses têm confiado e têm vindo a votar de uma forma crescente. Portanto, o facto de nós termos melhores agentes políticos nos outros partidos é bom para o país, e se é bom para o país, é bom para o Chega. Nós não temos medo do resultado eleitoral. Nós não achamos que somos donos dos votos. Nós em cada momento eleitoral, somos chamados a apresentar um projeto para o país. E estamos muito seguros que o nosso projeto para o país é o projeto que vai merecer a maioria da confiança dos portugueses, independentemente de quem está no PSD ou nos outros partidos.
Mesmo para concluir, Miguel, por favor.
E é muito importante que o PSD, se o PSD puder ter uma liderança séria, será muito melhor. Não estou a querer que Pedro Passos Coelho esteja à espera da tempestade perfeita. Não, Pedro Passos Coelho está à espera de ter a oportunidade de pôr o PSD, mas sobretudo Portugal, no rumo certo. E para isso, entendo que o Chega é essencial, e o Chega entende que um PSD com Pedro Passos Coelho parece-nos que estaria melhor para servir os interesses dos portugueses. E, portanto, é nisso que nós estamos apostados, em mudar Portugal.
Miguel Correia, Pedro Lomba, Vitalino Canas, muito obrigada por terem estado esta manhã conosco no "Explicador". Um bom dia e uma boa semana.
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