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Thursday, October 8, 2026

“Há crianças analfabetas do ponto de vista motor"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Estamos a criar crianças que se mexem cada vez menos e trocam a atividade física por ecrãs, e os intervalos das aulas são cada vez mais curtos e muito desinteressantes. O facto de os pais serem muito sedentários torna os filhos menos interessados no desporto? E a pergunta que desvenda bastante quem é o convidado que está conosco: brincar na rua está em vias de extinção? Estas são algumas questões que vamos fazer a Carlos Neto, professor jubilado da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e um defensor feroz do direito a brincar e à atividade física dos mais novos. Bem-vindos ao "Ciência de Campeões". Eu sou o Paulo Farinha.

E eu sou a Cláudia Pinto. O "Ciência de Campeões" é um programa da Rádio Observador, também disponível nas plataformas de podcast, que convida especialistas que nos ajudam a perceber de que forma a investigação científica ajuda a formação de atletas, dos amadores a profissionais. Carlos Neto, temos mesmo de libertar as crianças?

É claro que sim. As crianças vivem prisioneiras no tempo e no espaço, porque não têm a liberdade de andar na rua, de contato com a natureza, de se confrontarem com o risco. Portanto, significa que estamos a viver um período de transição muito doloroso para aquilo que é um desenvolvimento normal.

Carlos Neto, 75 anos, professor catedrático jubilado e investigador da Faculdade de Motricidade Humana, autor do livro "Libertem as Crianças: a urgência de brincar e ser ativo", da editora Contraponto, e uma das maiores referências no estudo da importância de brincar e do jogo para os mais novos. E já agora, coautor de um novo livro do qual falaremos ainda nesta entrevista. Carlos Neto, tem sido uma das principais vozes na luta dos direitos das crianças, da importância da motricidade infantil e da brincadeira ao ar livre. A realidade tem piorado nas últimas décadas e temos cada vez mais crianças sem tempo para a infância?

As crianças hoje não têm tempo a ser crianças, porque têm um quadro muito doloroso de poderem ser livres, de poderem ter a capacidade de brincarem de forma autônoma, de terem possibilidade de poderem distanciar-se de forma adequada para ganharem liberdade e autonomia. Vivem prisioneiras de uma ameaça de falta de tempo e falta de espaço. Falta de tempo porque os pais têm também uma condição laboral complexa, difícil. E esta harmonização entre o tempo de trabalho, o tempo que eles passam na escola, que é excessivo, com muitas agendas, com o tempo muito organizado, com o modelo de ensino muito tradicional. É claro que falta depois o tempo para ser livre, para brincar livre. Depois têm também agendas estruturadas de atividades extracurriculares. Quer dizer que a geração de ouro dos anos 50, 60 e 70, em que todos nós brincávamos na rua, tínhamos a oportunidade de não ser supervisionados pelos pais, isso dava-lhes garantias de ter os joelhos esfolados, de ter amigos que se encontravam a cada momento, a cada instante. Ter um corpo ativo e um corpo que brincava suando. Hoje as crianças já não suam.

Já não transpiram.

Não transpiram. Portanto, vivemos um momento de transição muito preocupante, que é incerto e é, acima de tudo, um tempo que, com a introdução das novas tecnologias, nós não sabemos para onde é que vamos caminhar.

Já falamos aqui da importância de esfolar os joelhos, subir às árvores e de brincar com a natureza. Hoje em dia, eu sou da geração de ouro, o Paulo também, que o professor acabou de referir. Os ecrãs hoje são o inimigo número um do sedentarismo ou o problema é bem mais complexo?

O problema é muito complexo, porque o mundo digital, as novas tecnologias, vieram trazer estilos de vida muito sedentários. O tempo que o corpo não se mexe paga-se caro. E significa que as crianças passam muito tempo sentadas na escola, no banco do automóvel, em casa. E passaram a ter uma referência diferente daquela que nós tivemos como pais e nas nossas áreas profissionais. O problema não está em proibir as crianças de utilização das telas, porque isso tem que ser visto na sua complexidade, em função da idade, do estrato social, de um conjunto de fatores que podem entrar na decisão se deve ou não deve utilizar esses instrumentos. O problema não está em proibir. O problema está em saber aquilo que elas não fazem porque estão perante uma espécie de ópio, que lhes cria dependência, vício.

É o novo ópio do povo.

O novo ópio do povo, como diz o Des Bourget num livro, "Os Cretinos Digitais", que eu tive o prazer de fazer o prefácio na terceira edição portuguesa. É ópio do povo porque os ecrãs são muito avassaladores na maneira como capturam a atenção mental, emocional, física das crianças E essas narrativas muito poderosas do ponto de vista simbólico, retira-lhes a necessidade de se mexerem, de serem ativas. Portanto, proibir não é educar, mas educar proibindo também é uma ideia que se tem que fazer, porque tem que haver limites.

O professor concorda com a medida, que entrará em vigor neste ano letivo, da proibição de telemóveis alargada até o nono ano?

Do meu ponto de vista, temos uma visão mais opinativa do que científica. Não é só Portugal, todos os países que já tiveram essa decisão, como é o caso da Suécia, da Noruega.

Acha que não há evidência científica ainda que corrobore?

Não há suficiente, porque uma coisa é quando falamos em as crianças até aos três anos estarem a olhar para uma tela na televisão ou num iPad, um filme, com supervisão ou sem supervisão. Outra coisa é o primeiro ciclo, segundo ciclo, com idades dos cinco até aos 12 anos. E, portanto, aí, de facto, há que distinguir o que é um telemóvel de um smartphone, porque são coisas diferentes. O problema do acesso às redes sociais é, de facto, um grande perigo. Porque há muitas situações que podem ser muito negativas para a formação moral, ética e também podemos dizer, uma formação do conhecimento e dos saberes. E depois, a partir dos 16 anos, haver então autonomia e liberdade. Mas aqui coloca-se uma questão entre aquilo que é as regras que deveriam existir na escola e as regras que deviam existir na família. Tem que haver aqui uma harmonia, tem que haver aqui uma forma de haver equilíbrio naquilo que é o diálogo, a empatia, trabalhando com as crianças regras, sentando-nos para combinar aquilo que devemos fazer em tempo de aulas, em tempo de ócio e em tempo de férias. O que é que devemos fazer? Porque tem que haver equilíbrio entre um corpo que se mexe, um corpo que se move e um corpo que tem que ter acesso à informação. Nós hoje temos muita informação, mas não sei se temos conhecimento. Vivemos na superficialidade e não na profundidade. Este mundo da inteligência artificial vem colocar um verdadeiro drama à humanidade e por isso temos que optar entre um modelo, um paradigma mais centrado na construção hipotética de uma torre de Babel. Torre de Babel, e por outro lado, uma dimensão mais humanista, mais holística, que defenda os valores, a ética, a visão mais humana de viver, a esperança de trabalharmos juntos, de construir um mundo novo, que terá que ser feito de uma forma inteligente.

Professor, mas na prática, falamos das famílias, deste dia a dia, deste frenesi constante, casa, trabalho, escola dos miúdos, atividades dos miúdos, depois levam os miúdos ao judo, depois levam os miúdos à explicação, depois levam os miúdos ao piano, e muitas vezes são este levar os miúdos, não vão eles. Sentados no banco de trás do carro. E depois, toda esta correria leva, naturalmente, e este naturalmente pode ser discutível, a que o telemóvel seja um acessório para preencher os buracos, estes intervalos, nomeadamente à mesa das refeições, para garantir que acalmam um pouco, que dão algum descanso aos pais, é um argumento que eu oiço muitas vezes. Como é que na prática essa construção e essa reflexão que temos que fazer sobre a utilização dessas tecnologias versus uma vida ativa e mexerem-se e a motricidade natural que tem que ser estimulada, isto para uma família normal, comum, como é que se conjugam esses dois mundos? É preciso haver aí alguma intervenção que venha para lá das famílias, não?

Essa questão é bem colocada e é muito pertinente. O que eu acho é que nós necessitamos de novos modelos, de organizar a existência da escola. Por outro lado, do trabalho dos pais e por outro, também, a vida na comunidade. Nós temos que olhar hoje para, provavelmente, uma mudança no modelo de funcionamento da escola.

O professor disse numa entrevista à RTP que vivemos num contexto de hipocondria digital.

Sim.

E que temos crianças analfabetas do ponto de vista motor.

Exato.

É aí que vem também essa mudança que é preciso fazer? É também por causa disso que tem que se fazer essa mudança na escola?

Não se justifica o intervalo escolar. O que é isso do intervalo escolar? O que é isso de ir para o recreio? Onde é que se aprende, na sala de aula ou no recreio? A questão do telemóvel também se coloca nesta perspetiva.

Por que diz que não se justifica o intervalo escolar? Os intervalos deviam ser melhores?

Estão muito formatados, é isso?

Não, o problema é o modelo escolar. Quem é que diz que a criança quando está no espaço exterior não aprende? Quando está a subir numa árvore, quando está a fazer o pino ou a cambalhota, o pino à parede, ou quando está a jogar às escondidas. Jogar às escondidas é uma aprendizagem absolutamente fascinante. Ela afasta-se, esconde-se e a seguir Que procura não ser descoberta. O jogar às lutas, por exemplo, é uma forma de aprendizagem fantástica. A observação da natureza, escutar a natureza, perceber o silêncio, são tudo formas profundas de aprendizagem. Nós esquecemos o corpo. Na escola não entra só o cérebro, entra o corpo todo.

Então e como é que devíamos mudar isso? Intervalos maiores, por exemplo?

Não, não há intervalos nem há tempo de aulas.

É tudo conjugado.

Há tempo! Há tempo de estarmos juntos, de construirmos projetos, construirmos dinâmicas, fora ou dentro, no exterior ou no interior. No interior, sala de aula, no exterior, recreio. Acabar com essas duas expressões. Temos que ter uma escola nova, uma escola diferente, democrática, participativa, cooperativa, uma escola onde professores e alunos aprendem por projetos, aprendem por iniciativas reais na ligação com a comunidade. A escola tem que se abrir à comunidade. E também tem que os pais ter aqui um papel absolutamente fundamental. Portanto, temos que reinventar uma nova escola pro futuro e ter em atenção que o corpo não pode ser esquecido, o corpo não pode estar ausente. É o arquiteto do cérebro. Através de quê? Sentimentos, emoções e comportamentos ativos.

Mas há escolas que já-

Para a criança não pode estar sentada todo dia. As crianças passam 40 horas, em média, na escola. Isto é uma tragédia. Tragédia pra construção de uma personalidade, de um corpo inteligente, que saiba fazer perguntas, que saiba pensar e não apenas o rendimento imediato.

E a Cláudia ia lançar essa questão, não é, Cláudia? De haver modelos escolares que...

Há escolas que têm esses modelos, mas são casos muito particulares e não é uma coisa generalizada.

Já!

Em que há o contacto com a natureza e há uma forma de educar diferente, mas é muito pontual, é isso?

Nós já temos boas experiências pedagógicas em Portugal. E não só em Portugal. Veja-se, por exemplo, nos países escandinavos, as crianças passam uma grande parte do tempo no exterior, passam uma grande parte do tempo no contacto com a natureza, porque é preciso reconectá-las com o mundo natural. E é preciso haver aqui equilíbrio entre o mundo digital e, por outro lado, o mundo natural, porque é isso que permite que eu possa construir uma base sólida de conhecimentos. Há hoje crianças que não sabem correr, não sabem saltar, não sabem subir numa árvore, não sabem driblar uma bola, são analfabetos do ponto de vista motor.

Eu tenho duas filhas e quando uma delas era mais pequena, não me recordo qual, numa reunião de pais no início do ano letivo, enquanto mostravam as instalações e o programa escolar, creio que foi no primeiro ano, a dada altura, no grupo de pais, uma das mães perguntou, para além de uma série de falências que a escola tinha: "E galochas?" E aquilo foi uma risota, porque as pessoas acharam: "Mas que raio de pergunta, como assim galochas?" E aquilo levou depois a uma reflexão, justamente, por que aquela pergunta. Mas e galochas? Temos poucas galochas e impermeáveis dentro das salas para que eles venham cá pra fora.

Já há muitas escolas que têm galochas pras crianças andarem no meio da lama, no meio das poças d'água, no meio da chuva. Andar à chuva é uma descoberta absolutamente sensacional pras crianças. E sentir o seu corpo em contacto com os fenômenos da natureza. É um verdadeiro manual de aprendizagem observar esses fenômenos: o vento, a chuva, a lama, ter materiais soltos no espaço exterior. Agora nós temos, na maior parte dos casos, sintéticos. Espaços feitos e equipamentos por catálogo, plastificados. Ora, isso é contrário.

Isso também cruza com questões de segurança e em caso de queda para se...

Sim, mas o problema da segurança é o medo da insegurança. Significa que as crianças que se confrontam com mais riscos, têm mais segurança. As crianças que não se confrontam com o risco, são mais propensas para o acidente. É preciso compreender que o desenvolvimento humano implica riscos. E os adultos estão a ter uma praga que se instalou, que é uma superproteção patológica, eu diria mesmo narcisista. Parece que houve um apagão nas suas memórias de infância. Quer dizer que o medo instalou-se na sociedade em geral. Não é só na família, é também na escola, é em todo lado. As crianças têm, de uma forma muito alargada, um envolvimento cheio de medo. A cidade é um local de passagem, não é de vivência. As crianças deveriam ter acesso à rua, deveriam ter acesso à cidade onde moram, onde vivem, ter amigos, a rua ser algo que fosse feito em tom de festa, de encontro, de procura de aventura. Quer dizer que nós temos que mudar tudo. Está tudo por mudar.

Tudo isso vai ter repercussão no futuro? Ou seja, estas crianças depois vão ser adultos também, que possivelmente vão replicar o modelo nas suas famílias e aos seus filhos. Sendo este um tema tão complexo, defende a mudança de políticas públicas nesta área?

É claro que sim. Nós não temos um planejamento urbano capaz de pensar nas necessidades e nos direitos que assistem as crianças Para uma criança, a rua também é dela. Significa que o acesso ao espaço exterior deveria ser considerado como uma prioridade. Por isso nós necessitamos de cidades caminháveis, cidades que tenham uma cultura mais naturalista, que haja uma natureza mais explícita, no sentido de as crianças poderem fazer atividade física, poderem fazer atividade lúdica, poderem observar os fenômenos da natureza, de poderem com os seus próprios amigos encontrar espaços estranhos, espaços imprevisíveis, lidar com o incerto, e acabar com esta visão de que a rua é um local de passagem, é o local onde o automóvel ganhou a guerra, onde o automóvel está estacionado e roubou o espaço aos cidadãos. É preciso reinventar cidades ativas, cidades que possam ser capazes de criar uma nova cultura, uma nova sociedade e a par de uma habitação e de uma política habitacional, que tem que ser encontrada um melhor equilíbrio. Porque repare, onde é que estão as escolas? Perto de casa, longe de casa? Como é que o espaço exterior está construído? Os passeios, as ciclovias. Nós temos que começar a andar mais a pé, temos que começar a andar mais de bicicleta, como se faz nos países da Norte Europa. Nós temos que ter aqui outra política. Temos que convidar numa dimensão multidisciplinar, numa dimensão, portanto, mais holística, a utilização do espaço como um problema político sério, no sentido de termos mais qualidade de vida.

E é aí que o urbanismo tem um papel muito-

Tem um papel fundamental na criação de estilos de vida ativos.

Professor, falando em estilos de vida ativos, eu gostava de introduzir um tema que é particularmente importante nestas conversas, que é o papel dos clubes, associações, instituições locais e outras maiores, mas com uma intensa atividade junto da sua comunidade de prática de esporte. Os pequenos e grandes, mas neste caso falamos dos pequenos clubes desportivos, têm aqui também um papel superdeterminante para ajudar a construir uma sociedade mais ativa e mais dinâmica. Isto não é novo, há instituições centenárias no nosso país. Como é que estas políticas públicas podem também agregar estas instituições, que são privadas, para que sejam aliados desta mudança de paradigma?

Eu acho que a pergunta que me faz é muito importante. Nós temos que ter um modelo mais sistêmico entre a macroestrutura e a microestrutura, entre quem toma decisões ao nível nacional, ao nível regional e ao nível local. E por isso as juntas de freguesia, as pequenas associações com fins interessantes para a vida das populações. Estou a falar das juntas de freguesia, mas também dos pequenos clubes, das pequenas associações.

Clubes, associações desportivas.

Associações desportivas.

Que às vezes fazem autênticos milagres com pouco dinheiro.

Claro. São fundamentais para criar esse novo modelo, criar essa possibilidade de as crianças, jovens, adultos, idosos, terem a possibilidade de poderem ter polos de atração para terem um corpo mais ativo, combater o sedentarismo e terem uma literacia motora social e também mental, porque estamos aqui a falar de saúde pública. É preciso pensar a saúde pública nestes termos, no sentido de tratar o corpo são para que tenha saúde.

Até porque existe uma relação direta, naturalmente, entre atividade física e desenvolvimento cognitivo e o sucesso escolar de que temos também estado aqui a falar.

Claro, nós já dissemos que corpos ativos dão cérebros ativos.

Boa parte da sua investigação vai justamente nessa direção.

Foi essa relação, exatamente. Entre a parte mais motora, aquisição de habilidades, aquisição de competências físicas, no sentido de combater um certo sedentarismo, iliteracia motora e também haver mais saúde mental, saúde física e emocional. Por isso, diríamos que essas estruturas locais são fundamentais. Agora, é preciso também dizer o seguinte: é preciso que não sejam muito estruturadas.

Como assim?

Atividades, porque há crianças de cinco anos, sete anos, oito anos, que têm cinco ou seis atividades semanais organizadas. Não está mal, isso não mata ninguém, mas é exagerado, porque elas não têm tempo para brincar livre, não têm tempo para estar com elas próprias.

Serem elas a decidir o que é que querem fazer.

Serem elas a decidir o que querem fazer. Terem tempo não supervisionado, não estruturado. Também se aprende quando não se tem tempo pra fazer nada. É preciso que nós tenhamos a coragem de perceber o ganho, a beleza que é ter tempo pra não fazer nada.

Que é uma coisa que as crianças dizem imenso. Pelo menos eu tenho sobrinhos que passam a vida: "Não tenho nada para fazer" quando têm imensos tempos.

Porque repare, a educação também se faz com tédio e com frustração. As crianças hoje têm agendas excessivamente organizadas, têm agendas escolares Pré-desportivas ou desportivas.

Saem da escola, vão pra explicação, depois da explicação vão para a música e depois vão para a prática desportiva.

Exato.

E ao fim de semana às vezes têm jogos de futebol ou outras coisas, atividades ou umas sessões de ginástica.

Sim, as manhãs de fim de semana são, para muitos pais, para muitas famílias, são uma agenda super completa.

Por outro lado, os resultados do Eurobarómetro dedicado ao desporto e à atividade física de 2022 indicam que 73% dos portugueses não fazem qualquer atividade física regular, sistemática e intencional. Portugal continua a ser um campeão do sedentarismo.

De certo modo, sim. Se olhar para os países da Comunidade Europeia, por exemplo, Portugal está numa situação muito precocemente, muito débil. Por quê? Porque temos salários baixos, temos horários de trabalho intensos. É preciso olhar para essa dimensão global, com os status sociais muito diferenciados, com uma taxa de imigração que também leva a que as estatísticas depois apresentem um pouco esses resultados. Mas eu diria que temos um analfabetismo motor preocupante, que cria depois problemas muito complexos do ponto de vista da saúde pública e, por outro lado, da qualidade de vida. Portanto, diríamos que essa atividade física deveria ser planificada, de modo a que as autarquias locais, as comunidades locais e as políticas públicas centrais tivéssemos a possibilidade de alargar o modelo que permitisse que as populações fossem mais ativas em todas as idades.

Muitas vezes até há iniciativas gratuitas. Estamos aqui a falar das juntas de freguesia são um ótimo e fazem um trabalho ótimo nisso.

Já temos muitas municipalidades a fazer um trabalho excelente. Eu tenho trabalhado com muitas delas e já se fazem programas muito interessantes. Agora, existem mitos, existem tragédias de preconceitos, de coisas que as pessoas têm medo de fazer ou porque são perigosas ou porque se têm a convicção de que não resultam, porque existem perigos em tudo que é sítio. Uma caminhada, uma descoberta de um determinado ponto da cidade, uma infraestrutura. Por exemplo, nós ainda temos infraestruturas desportivas e de lazer muito pobres, que convidem, que seduzam os cidadãos à descoberta e a serem mais ativos. Nós temos que olhar não é só pro desporto de alta competição, nós temos que olhar pro desporto pra todos, pro desporto pra todas as idades, a começar pelas crianças que nascem, pela primeira infância, pela infância propriamente dita, pela adolescência. A adolescência é uma idade esquecida. Temos os skateparks, pouco mais. Portanto, significa que nós temos que ter uma oferta que procure convencer as pessoas a abrir a porta de casa e sair lá pra fora.

E à prática de atividade física.

E à prática de atividade física e da atividade desportiva organizada, de competição ou sem ser de competição. Nós temos um clima fantástico. Somos um país seguro, somos considerados um dos países mais seguros, uma taxa turística das melhores que podemos encontrar, ao contrário do que acontece nos países nórdicos, por exemplo, em relação à temperatura, em relação à beleza do nosso país.

Sim, é possível correr na rua em Portugal 365 dias por ano. A não ser em dias de temporal.

Nós temos um país que pode ser um oásis.

Professor, estamos a aproximar-nos do final da nossa conversa, mas há uma questão que eu não gostava de passar, gostava de lhe fazer e com isso também rematar. O professor Carlos Neto já fez muitas coisas. Cinquenta anos a dar aulas e a investigar na Faculdade de Motricidade Humana, que começou quando ainda se chamava ISEF, Instituto Superior de Educação Física. Autor de estudos, fundador da Cooperativa de Ensino a Torre, orientador de projetos, licenciaturas, mestrados, doutoramentos, colaborador em projetos de intervenção comunitária, autor de conferências, seminários, palestrante, presença regular nos órgãos de comunicação social. Tem 75 anos, está a lançar um livro novo, está a preparar outro. O que é que falta fazer ainda nesta sua missão de alerta para estes temas?

O que falta fazer, e quero em primeiro lugar agradecer este convite que me fizeram pra estar aqui nesta entrevista, mas eu diria que o que me falta para ultrapassar a minha utopia, o romantismo e o idealismo, é convencer os cidadãos comuns de que devem brincar toda a vida. O brincar não é uma categoria que apenas se coloque na infância. O brincar é uma atitude mental. O brincar é um estado de espírito. Como dizia o Huizinga no nobre livro que escreveu há muitos anos, "Homo Ludens", em que dizia que o jogo é anterior à cultura. Significa que nós, independentemente da idade, sendo criança, jovem, idoso ou mesmo adulto, deve levar a vida a brincar, porque é brincando que a vida ganha sentido e ganha esperança. No momento em que estamos a viver, um momento de grande transição Digital, climática, educacional, ao nível da saúde, em que a inteligência artificial nos aparece como uma entidade que nos prega rasteiras todos os dias, que não sabemos por onde é que caminha, para onde é que vai. A essência do ser humano é o brincar. E o brincar, nessa perspectiva que estava a falar, de ser uma atitude mental, deve acompanhar-nos, em síntese.

Ao longo de toda a vida.

Ao longo de toda a vida. Não podemos levar a vida muito a sério. Temos que brincar com ela para ela ter sentido, para ela ter rumo, para que eu possa acordar todos os dias com a ideia de que tenho alegria, tenho sentido de humor e tenho capacidade de viver em conjunto, porque só vivendo em conjunto eu consigo construir um mundo novo, cheio de esperança. É esse o confronto que se passa hoje entre aquilo que eu diria a construção de uma Torre de Babel e, por outro lado, a famosa encíclica de Leão XIV, papa que nos diz que temos que ter um mundo mais humanizado, um mundo mais trabalhado em conjunto, para termos mais esperança no futuro. É evidente que, em primeiro lugar, brinca-se, depois joga-se e depois faz-se desporto. As crianças que não brincam e não têm experiências diversificadas com uma grande quantidade de atividades nas primeiras idades, dificilmente serão campeões. É preciso brincar muito nas primeiras idades para ganhar uma arquitetura fundamental, para que no futuro tenha êxito na música, nas artes e no desporto.

Daí aquela expressão que o professor costuma usar: brincar e jogar.

Brincar e jogar é a solução de todos os males para se ter campeões.

É uma excelente forma de terminarmos. Professor Carlos Neto, obrigado por ter vindo ao "Ciência de Campeões". Foi um gosto conversar consigo.

Quem quiser saber mais, além do outro livro, "Libertem as Crianças", podem aceder ao "Resta-nos Brincar". Foi um livro lançado em julho de 2026, com entrevistas de Ana Gil, Ana Teresa Brito e Frederico Lopes. É a sua voz mais recente, a voz do professor Carlos Neto. O podcast "Ciência de Campeões" está disponível nas plataformas habituais e no site do Observador, onde temos uma secção totalmente dedicada ao desporto na sociedade.

Esta entrevista faz parte do projeto Mais Do Que Desporto, uma iniciativa do Observador com o apoio do BNP Paribas.

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