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Wednesday, October 21, 2026

Muçulmanos se dividem entre causa palestina e antipetismo para decidir voto no 2º turno

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"Um homem disse ao Profeta: ‘Aconselha-me’. O Profeta respondeu: ‘Não te enfureças’. O homem repetiu o pedido várias vezes, e em todas elas o Profeta respondeu: ‘Não te enfureças’."

O hádice —um registro das palavras do profeta Maomé, ou Muhammad, no Islã— estampa uma das paredes da Mesquita Brasil, a mais antiga do país e situada no Cambuci, no centro de São Paulo. A frase fica logo em frente à sala de oração.

É um lembrete, na fé professada pelos muçulmanos, de que um dos principais conselhos do Profeta é não deixar a ira interferir em qualquer tomada de decisão. Nos sermões do sheik Mohamad Al Bukao, que lidera a Mesquita Brasil, também parece ser esse o norte diante das polarizadas eleições de 2026.

De postura serena, o líder religioso se recusa a orientar os votos dos fiéis. Não fala se é Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) quem deve receber o voto da comunidade muçulmana no país –composta por pouco mais de 41 mil brasileiros, segundo o Censo de 2022 do IBGE, embora a Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) estime em até 1,5 milhão.

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Em vez disso, ele relembra os fiéis dos valores que embasam a religião e pede que, no próximo domingo (25), os levem em consideração.

"As pessoas têm a liberdade de escolher candidatos, mas tem que ser com consciência, baseada naquilo que a nossa religião acredita. Temos de apoiar quem está do lado da justiça, da verdade, dos valores humanos", afirmou ele à Folha durante visita à mesquita.

"A divergência de opiniões é saudável, faz parte da vida democrática, mas quando a raiva atinge nossos corações, fica difícil. O amor pelo Brasil tem que unir todo mundo. Isso é ser patriota. Temos que colocar o Brasil e os interesses dos brasileiros em primeiro lugar, e também pensar que o país sustenta outros lugares do mundo. Ele é o pulmão do planeta."

A postura se assemelha à da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que, após boato sobre Nossa Senhora Aparecida, adotou neutralidade entre candidatos e defendeu dignidade humana, bem comum, justiça social e democracia na escolha do presidente.

Para boa parte dos muçulmanos, porém, a "guerra santa" é outra. Fiéis fundamentam o voto no segundo turno também pela postura de Lula e de Flávio Bolsonaro sobre a Palestina, de maioria islâmica. Os dois postulantes ao Palácio do Planalto encampam lados opostos sobre o conflito entre Israel e Hamas, em curso desde outubro de 2023.

No discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) neste ano, Lula afirmou que "gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo [Binyamin] Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza".

O uso do termo "genocídio" pontuou mais um capítulo na já tensa relação diplomática entre Brasil e Israel. Lula chegou a ser declarado "persona non grata" em 2024, quando comparou ações militares israelenses na Faixa de Gaza à perseguição de judeus no Holocausto.

Os dois governos ainda tiveram atritos diplomáticos. Israel não tem um embaixador no Brasil depois que o Itamaraty não concedeu o agrément (autorização diplomática) à indicação de Gali Dagan, ex-embaixador na Colômbia.

Flávio Bolsonaro, por outro lado, fez declarações públicas de apoio a Israel desde a pré-candidatura à Presidência. Em janeiro deste ano, chamou o presidente Lula de antissemita em evento em Jerusalém e, em junho, afirmou que, se eleito, o Brasil "deixará de ser um vetor de instabilidade para se tornar um vetor de paz e de aliança entre Israel e as nações amigas" da América do Sul.

Ele ainda afirmou que, caso chegue ao governo federal, transferirá a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, repetindo uma promessa não cumprida pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ele também próximo ao governo israelense. A maioria dos países mantém representação em Tel Aviv, já que Jerusalém é território em disputa no conflito israelo-palestino.

A transferência da embaixada, para estudiosos de relações internacionais, seria uma ruptura com a atual política externa brasileira, da qual Flávio é crítico. Segundo o candidato, Lula "prefere o abraço do Irã", país islâmico, a manter uma boa relação diplomática com Israel.

Após o primeiro turno, no qual o senador marcou 47,03% dos votos válidos ante 45,16% de Lula, Netanyahu declarou que "fomos a um pequeno país chamado Brasil para a posse do presidente [Jair] Bolsonaro. Quem sabe? Talvez façamos isso novamente".

Para parte do eleitorado muçulmano, o tema é tão importante quanto as pautas domésticas. "Em 2018 e em 2022, eu conseguia constatar com clareza que a comunidade islâmica no Brasil estava muito polarizada. Já hoje, nessa eleição, a causa palestina é mais decisiva no voto", afirma Francirosy Campos Barbosa, antropóloga livre-docente na USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora de grupos de estudos sobre o islamismo.

Ela afirma que a comunidade não opera em bloco, mas que, pelas pesquisas qualitativas que conduzem, percebe um alinhamento significativo dos muçulmanos à posição defendida por Lula na política externa. Entre eles, a ideia é ser anti-Flávio para ser anti-Israel.

"Votar em Lula, para os muçulmanos, não tem a implicação de ser de esquerda. Passa por uma questão identitária", afirma Barbosa, ela própria muçulmana e coordenadora de relatórios sobre islamofobia no Brasil junto à USP. "Mas entre os que não votam nele e preferem Flávio, a justificativa recai mais no antipetismo do que no discurso de costumes e conservadorismo."

É o caso de Syham S., 40, que escolheu o senador para a Presidência. Ela pediu a ocultação do sobrenome para evitar eventuais retaliações. Libanesa radicada no Brasil há 14 anos, a decisão sobre o voto, para ela, não passa pelos conflitos no Oriente Médio, mas pelo que ela espera de mudança no país, sobretudo na área de segurança pública.

"Eu morei no Líbano e nós, lá, sabemos onde é a zona de guerra. Aqui no Brasil, você não sabe onde o criminoso está. A qualquer momento você pode ser assaltada, estuprada, baleada. Não morro de amores por Flávio, mas eu quero uma nova opção para ver se a nossa vida aqui vai melhorar", afirma ela, microempresária dona de um salão de beleza.

O Líbano foi arrastado para o conflito após o Hezbollah, grupo extremista do país, declarar apoio ao Hamas e atacar Israel com mísseis e drones no início do ano. Os israelenses responderam com bombardeios em Beirute e no sul libanês, além de incursões terrestres em áreas de fronteira.

"A causa palestina não entra na minha decisão. Hoje eu moro no Brasil e não posso deixar de pensar no país que me abriu um caminho novo. Se os próprios países árabes não estão ajudando os árabes, não vai ser o meu voto que vai fazer diferença. Se eu votar no Lula ou no Flávio, a guerra não vai parar."

Na Mesquita Brasil, o sheik Mohamad afirma ser procurado por fiéis que querem desabafar sobre o contexto eleitoral. A causa palestina, diz ele, fisga os muçulmanos no Brasil pela empatia; as pautas de Flávio, pela defesa da família e da fé, dois valores também fortes no Islã.

"Dentro desse contexto democrático, que as pessoas se veem dos dois lados, cada um tem a sua opinião. O que a gente fica às vezes preocupado é com o uso político da religião. Quando a religião é praticada, os valores dessa fé produzem uma conversa. Quando a religião é usada para propósitos políticos ou para ganhar eleições, isso é muito perigoso, porque tende a manipular", diz ele.

Questionado sobre como vê a aproximação do clã Bolsonaro à religião evangélica, ele diz confiar na liberdade religiosa assegurada pela Constituição. "Esperamos que isso não seja afetado", afirma.

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