Como a burrice explica parte da derrota de Trump para democratas nos EUA

O fenômeno da burrice como aliada da democracia no mundo moderno é bem estudada pela ciência política.
Em 2020, o cientista político Daniel Treisman, pesquisador de Harvard e atualmente professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), mostrou que, desde 1800, cerca de 70% dos processos de redemocratização que puseram fim a regimes autoritários ao redor do mundo podem ser explicados por decisões erradas ou mal calculadas dos ditadores ou autocratas.
No trabalho "Democracia por engano: como os erros de autocratas desencadeiam transições para um governo mais livre", publicado na Revista de Ciência Política Americana da Cambridge University, ele sustenta que, embora a explicação mais comum a entrar para a história seja a de que os governantes optaram por ceder o poder voluntariamente para evitar revoluções, garantir esforços de guerra ou limitar violência entre facções políticas, "em mais de dois terços dos casos, as evidências sugerem que a democratização ocorreu não porque os governantes a escolheram, mas porque, ao tentar evitá-la, cometeram erros que enfraqueceram seu controle sobre o poder".
"A democracia parece ter se difundido, na maioria das vezes, devido a equívocos dos governantes que acabaram por desencadear fatores anteriormente latentes", conclui Treisman, no artigo acadêmico. Como exemplo, ele cita o fim da ditadura militar na Argentina, precipitado pela desastrosa Guerra das Malvinas, em 1982, na qual a junta militar tentava projetar força e união nacional e obteve derrota, vergonha e queda do poder.
Ao ver o fenômeno do "dummymandering", resolvi procurar Treisman para entender se a teoria dele se aplicava apenas a transições democráticas ou se a burrice de governantes com arroubos autoritários também ajudavam a proteger regimes democráticos do risco de corrosão. "Sim, (a burrice importa) tanto na proteção da democracia quanto no enfraquecimento da autocracia, os erros daqueles que têm más intenções podem levar a bons resultados", afirmou Treisman.
E é o que aconteceu nos EUA em 2026. "Como o ganho de cadeiras pelos democratas superou o número de assentos adicionais que podem ser atribuídos à manipulação distrital republicana, a iniciativa ligada a Trump acabou sendo contraproducente e os receios de que a manipulação dos distritos pelos republicanos fosse capaz de alterar o resultado da eleição em nível nacional não se confirmaram", analisou. Os democratas, aliás, podem acabar obtendo seu melhor resultado em décadas na Câmara, com a chance de ocuparem até 268 cadeiras.
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