Como ‘Desmascarando um Monstro: Aileen Wuornos’ usa IA para trazer uma serial killer de volta à vida

Início » TV » Como ‘Desmascarando um Monstro: Aileen Wuornos’ usa IA para trazer uma serial killer de volta à vida
Nova série do ID, já disponível na HBO Max, utiliza “efeitos visuais generativos avançados” para criar reconstituições ultrarrealistas
Elisabeth Garber-Paul
À primeira vista, Desmascarando um Monstro: Aileen Wuornos, novo documentário de true crime do ID, parece oferecer um olhar familiar sobre a serial killer mais famosa dos Estados Unidos. Quando o primeiro episódio começa, ouvimos um depoimento de arquivo de Wuornos, executada em 2001, afirmando que precisa contar a verdade sobre os sete assassinatos dos quais foi acusada. Um detetive de homicídios que trabalhou no caso relembra como entrou em contato com a assassina, enquanto uma amiga de Wuornos fala sobre a incredulidade que sentiu ao descobrir seus crimes. Sobre os trechos de áudio, as imagens alternam entre registros do julgamento, entrevistas atuais e reconstituições encenadas.
Mas essas reconstituições não são feitas por atores. Em vez disso, como informa um aviso no início da série sobre o uso de “efeitos visuais generativos avançados”, elas apresentam versões digitalizadas e aprimoradas por Inteligência Artificial de cenas recriadas da vida de Wuornos. Quando a produção mostra Wuornos apontando uma arma em direção à câmera para ilustrar o que uma de suas vítimas teria visto nos últimos momentos de vida, aquela é a verdadeira Aileen Wuornos. Quase.
Desmascarando um Monstro, que estreou no ID e agora está disponível na HBO Max, é o primeiro documentário a utilizar esse tipo de tecnologia de efeitos visuais com auxílio de IA — o que Stephen Dost, vice-presidente da Arrow Media, empresa que desenvolveu o processo, chama de “máscara digital” — para aplicar uma camada mais realista sobre cenas reconstituídas por atores. O conteúdo de true crime mudou ao longo da última década, explica Jason Sarlanis, presidente da Investigation Discovery, que ajudou a produzir a série. Os espectadores já não se contentam com entrevistas com especialistas e reconstituições encenadas que resumem a trajetória de uma história em 44 minutos. “O que mudou para nós, em termos de como pesquisamos e desenvolvemos essas histórias, tem a ver com o acesso a materiais e a pessoas próximas ao caso”, afirma. “Ouvir suas perspectivas sem filtros e, depois, complementar isso com o máximo possível de materiais reais de arquivo.”
A IA, porém, ofereceu uma maneira de proporcionar ao público a sensação de estar vendo imagens de arquivo mesmo quando elas não existiam. Segundo Sarlanis, os espectadores do ID reclamam constantemente que as reconstituições os afastam das produções. “Eles simplesmente não têm interesse”, diz. “Querem algo visualmente autêntico tanto quanto possível. Essas próteses digitais nos permitiram transportar o espectador para aquele lugar da maneira mais fluida e autêntica que conseguimos alcançar em reconstituições — algo que antes não era possível.”
A ideia para a série, explica Sarlanis, surgiu durante uma conversa informal, regada a bebidas, há cerca de três anos. Ele conversava com Dost, cuja Arrow Media produz frequentemente séries de true crime para o ID, sobre uma produção que havia visto recentemente: a comédia britânica Deep Fake Neighbor Wars, que usava uma tecnologia rudimentar de IA para sobrepor rostos de celebridades aos de imitadores que encenavam situações. A tecnologia não funcionava perfeitamente, mas eles perceberam que, em alguns anos, poderia se tornar praticamente imperceptível. “Aquilo acendeu uma lâmpada na nossa cabeça”, diz Sarlanis. “Poderíamos usar uma tecnologia semelhante, aplicada de uma maneira muito mais cuidadosa e cheia de nuances, nas reconstituições — que são uma parte tão importante da história dos documentários — e abrir caminho para um método completamente novo de contar histórias.”
Dost concordou que valia a pena explorar a tecnologia e começou a pensar em qual história gostaria de contar com ela. “Porque é preciso ter uma boa justificativa”, afirma. “A tecnologia pela tecnologia não é interessante.” Veterano do gênero true crime — começou a carreira em meados dos anos 1990, como estagiário na Court TV —, ele sempre voltava a pensar em Wuornos. “Tudo o que ela havia passado — desde ser abandonada pela mãe ainda criança até sofrer uma agressão aos 14 anos e abrir mão de um filho —, todas aquelas coisas horríveis que aconteceram com ela, era possível enxergar em seu rosto”, diz. “O rosto dela contava uma história.”
Dost e Sarlanis sabem do estigma que o uso da IA pode trazer ao projeto. Segundo eles, uma das razões pelas quais a produção levou três anos foi a necessidade de refletir sobre as implicações de incluir esse tipo de tecnologia na série. “Esta foi uma produção humana”, afirma Dost. “Tínhamos mais de 70 pessoas. Contamos com os melhores roteiristas e entrevistadores. Apesar da inovação nos efeitos visuais, é um documentário muito tradicional. Acho que entender o que a IA pode fazer — e, mais importante, o que não pode — é a maneira certa de usá-la.”
Uma das diretrizes estabelecidas pela equipe foi exigir o consentimento de todas as pessoas cujas imagens digitais seriam utilizadas nas reconstituições — com exceção de Wuornos, uma figura pública. “Se vamos usar a tecnologia para representá-las como personagens, precisamos de autorização integral e por escrito”, diz Dost. “Não usamos a tecnologia sempre que havia qualquer dúvida.” Um desses casos foi o de Mike Joyner, investigador disfarçado que trabalhou no caso. A equipe o havia entrevistado alguns anos antes para outro projeto, mas ele já tinha morrido. “Quando gravamos aquela entrevista, nem sequer pensávamos em usar essa tecnologia”, afirma Dost. Em 1991, Joyner se passou por criminoso e puxou conversa com Wuornos no Last Resort, bar frequentado por motociclistas na Flórida, onde a serial killer acabou sendo presa. Os produtores sabiam que queriam incluir a longa conversa entre os dois. Mas, em vez de sobrepor o rosto real de Joyner ao de um ator, optaram por escalar alguém que se parecesse com ele, já que o investigador não estava vivo para dar seu consentimento.
“Originalmente, pretendíamos aplicar esse processo apenas a Aileen. Depois, percebemos que seria interessante ver os outros personagens [com a tecnologia], então voltamos a procurá-los, porque precisariam assinar uma autorização revisada”, explica Dost. “Mas todos concordaram prontamente.”
Além disso, Dost afirma que a IA não foi utilizada na escrita de nenhuma parte da série. Os roteiros foram desenvolvidos a partir de apurações próprias, incluindo documentos judiciais, transcrições de investigações e entrevistas com detetives, testemunhas e até Laurie Valdez, uma antiga amiga de Wuornos que nunca havia conversado com a imprensa. “Nada foi inventado”, diz Dost. “Tudo aqui é baseado em uma transcrição, em algo que a pessoa entrevistada nos contou e de que se lembrava. Portanto, é o mais autêntico possível.”
Morag Peacock, atriz escocesa que serviu de base para as reconstituições de Wuornos, estudou horas de gravações para tentar reproduzir as emoções da serial killer — “suas peculiaridades, seus maneirismos, a maneira expressiva como usava os olhos”, explica. Mesmo depois que os efeitos visuais foram aplicados à sua atuação, ela ainda conseguia se reconhecer nas cenas. “Eu conseguia me identificar ali. Disse: ‘Sinto que são os meus olhos’. E Stephen respondeu: ‘São mesmo. Não fizemos nada para modificá-los’”, conta. “Não é uma imagem completamente fabricada. Sou eu com uma máscara por cima.” (Um dos elementos menos reconhecíveis é a voz de Peacock. Embora tenha falado com sotaque americano durante as filmagens, Sarlanis observa que a equipe “treinou um modelo com áudios reais de arquivo da voz de Aileen, que depois foi utilizado para ajustar a interpretação vocal da atriz — mas a atuação original é inteiramente de Morag”.)
Peacock afirma que ficou hesitante em aceitar o trabalho por causa do uso da nova tecnologia. “A IA pode ser algo muito perturbador, não é?”, diz. “É uma ferramenta que pode ser bem utilizada ou, como qualquer outra, pode ser abusada.” No geral, porém, ela ficou satisfeita com as cenas que viu, embora ainda não tivesse assistido à série inteira quando conversamos.
Sarlanis, por sua vez, não teme que o uso da IA ofusque a história que a produção pretende contar. “Seja como for, talvez isso funcione como um chamariz para atrair a atenção para a nova apuração e o acesso incrível que conseguimos”, afirma. “Em um mundo no qual o true crime é um dos gêneros mais procurados, há muitas opções para os espectadores. Se você não tem um elemento capaz de chamar a atenção para o seu projeto, ele pode acabar não sendo ouvido.”
Assim como Peacock, que enxergou a tecnologia “como uma fantasia acrescentada no fim”, Dost e Sarlanis insistem que os recursos de IA são simplesmente uma forma de maquiagem e próteses de alta tecnologia. “A IA não sabe atuar”, afirma Dost. “Ela consegue analisar Morag e identificar até mesmo pequenas microexpressões na maneira como ela interpreta uma fala. Assim, quando a máscara digital é aplicada, reproduz cada mínima emoção.”
Há uma razão para a equipe não ter simplesmente inserido comandos em um robô de IA e pedido que ele gerasse uma cena reconstituída completa. “Tudo precisa começar com algo humano”, diz Dost. Segundo ele, não é muito diferente da transformação elaborada pela qual Charlize Theron passou para interpretar Wuornos no filme biográfico Monster – Desejo Assassino, de 2003. “Por que ela quis se parecer com a verdadeira Aileen? Em parte, exatamente pelo mesmo motivo: o rosto dela contava uma história”, afirma. “E o que estamos fazendo é a versão de 2026 disso.”
+++LEIA MAIS: Sarah Paulson responde a críticas por comparação à Aileen Wuornos de Charlize Theron
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.