Furto de R$ 29 milhões em vinhos põe mercado de luxo em alerta na Itália
Importadores, distribuidores e restaurantes que trabalham com os vinhos da Marchesi Antinori em diferentes países receberam nesta semana um aviso incomum da vinícola italiana. Segundo o Financial Times, a empresa pede que desconfiem de ofertas de Solaia, Tignanello e Guado al Tasso feitas fora dos canais oficiais, principalmente quando o preço parecer vantajoso demais.
O motivo é o desaparecimento de cerca de 30 mil garrafas desses três rótulos do armazém da companhia em Cortona, na província de Arezzo, que funciona como centro logístico do grupo. O lote, avaliado em aproximadamente 5 milhões de euros (R$ 29,3 milhões), estava pronto para ser despachado a clientes internacionais. Em entrevista ao Corriere della Sera, o CEO Renzo Cotarella disse acreditar que a Itália nunca registrou um roubo de vinho com volume e valor semelhantes.
Dois caminhões e um fim de semana
A ação aconteceu na noite de sábado e envolveu ao menos sete pessoas, que desativaram o alarme e usaram dois caminhões para retirar a carga. Como o armazém fica fechado aos domingos, a ausência das caixas só foi notada na segunda-feira de manhã, com a chegada dos funcionários.
As imagens das câmeras de segurança estão com os carabinieri da unidade de Cortona, responsáveis pelo inquérito, que ainda não tem suspeitos presos. Cotarella classificou o grupo como muito bem preparado e não descarta que seja o mesmo que atacou outras vinícolas do país nos últimos meses.
Peso maior sobre o Solaia

Solaia, lançado em 1978; cerca de 10 mil garrafas da safra 2023 estavam entre as levadas do armazém em Cortona (Reprodução/Instagram)
Todas as garrafas levadas são da safra 2023, segundo a agência ANSA, e cerca de 10 mil delas são de Solaia. Para a Antinori, esse é o ponto mais sensível do prejuízo. Ao Il Sole 24 Ore, Cotarella explicou que o Solaia tem tiragem anual pequena, enquanto o Tignanello chega a uma média de 350 mil garrafas por ano, o que dilui o impacto sobre o rótulo mais famoso da casa.
Os dois vinhos vêm de vinhedos vizinhos no Chianti Classico e ajudaram a definir o que o mercado passou a chamar de supertoscanos. O Tignanello, cuja primeira safra, de 1971, chegou ao mercado em 1974, combinou o Sangiovese com uvas francesas e envelhecimento em barricas, contrariando as regras da denominação na época. O Solaia veio em 1978, com predominância de Cabernet Sauvignon. O Guado al Tasso é produzido em Bolgheri, no litoral toscano, em uma propriedade herdada pela mãe do marquês Piero Antinori. No varejo, garrafas desses rótulos costumam custar entre 150 e 500 euros (de R$ 880 a R$ 2,9 mil).
Rastreabilidade contra a revenda
A vinícola, que tem origem em 1385, faturou cerca de 263 milhões de euros (R$ 1,54 bilhão) no último ano e vende para 170 países. Para dificultar a circulação do lote, a empresa conta com o sistema de rastreabilidade que permite identificar cada garrafa.
A preocupação com a integridade dos rótulos não é recente para a família. Em 2019, a polícia italiana apreendeu 11 mil garrafas falsas de Tignanello, cheias de vinho de qualidade inferior e destinadas à Itália, à Alemanha e à Bélgica. Desde a safra 2013, a marca grava o logotipo em relevo no vidro e, a partir de 2016, passou a aplicar um pequeno selo de autenticidade.
Vinícolas na mira
O ataque em Cortona é o maior de uma série de furtos a produtores italianos em 2026. Em setembro, quatro homens passaram quase três horas no armazém da Conterno Fantino, no Piemonte, e saíram com 3 mil garrafas de Barolo carregadas com a empilhadeira do local.
A Banfi, de Montalcino, também perdeu 3 mil garrafas de seus espumantes Alta Langa, guardadas em um depósito na mesma região. Até pouco tempo, os casos mais comuns envolviam restaurantes com adegas de prestígio, como o Affinatore, em Milão, de onde dois homens disfarçados de operários levaram garrafas de Romanée-Conti avaliadas em 280 mil euros (R$ 1,64 milhão).
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