Salomão, duas poupas e a intimidade do infinito

A beleza começa por nos interromper. Estávamos a fazer qualquer coisa — fechávamos uma janela, procurávamos uma palavra, atravessávamos os dias com a distraída competência de quem julga saber para onde vai — e, de repente, um rosto obriga-nos a parar. Nada mudou na disposição do mundo. A mesa continua no seu lugar, o vento não deixou de agitar os ramos, alguém pede que lhe passemos o pão. E, contudo, tudo quanto existe parece ter adquirido uma profundidade que até então nos escapara.
Talvez seja isso a beleza: a intuição de que o visível não acaba naquilo que vemos. Não uma demonstração da existência de outro mundo, mas a suspeita, quase física, de que ele não cabe inteiramente em si. Há qualquer coisa num rosto amado que os seus olhos, a sua boca e a inclinação dos seus ombros mostram sem conseguirem esgotar. Podemos aproximar-nos. Podemos tocar-lhe. O mistério, esse, não recua: torna-se mais próximo.
Conta-se que Salomão tinha uma poupa amestrada chamada Yafur e que a rainha de Sabá, também conhecida como Belkis ou Makeda, possuía outra, de nome Anfu. As histórias antigas não costumam desperdiçar muito tempo a explicar de que maneira os pássaros aprenderam a falar. Preocupação nossa, essa de exigir documentos ao prodígio e, depois, não saber o que fazer com aquilo que nos acontece.
Quando soube que a rainha viria visitá-lo, Salomão enviou Yafur às terras de Sabá. Queria conhecer antecipadamente a mulher cuja chegada começava já a alterar o tamanho dos seus dias. Há esperas assim: ainda nada aconteceu e já não cabemos na vida que tínhamos.
A poupa atravessou desertos, jardins e aposentos onde as violetas pareciam ter aprendido a guardar música. Encontrou Anfu no palácio e puseram-se ambas a falar dos seus senhores. Uma descrevia os olhos da rainha, tão grandes que até de perfil se viam; a outra, as pausas do rei, tão fundas que nelas parecia caber a sombra inteira de uma gruta. Falaram da pele escura de Makeda, das suas mãos, do modo como a água parecia orar quando ela passava. Falaram da voz de Salomão e do silêncio que ficava depois. Até que, num duplo suspiro, perceberam que já não falavam apenas dos outros.
Yafur regressou a Jerusalém com notícias da árvore da canela, borboletas de seis cores e uma mulher cuja beleza tornava insuficiente a enumeração das suas feições. Salomão escutava. Teria feito perguntas sobre as riquezas do reino, os caminhos da caravana, os presentes que devia preparar. Mas o pensamento voltava-lhe àqueles olhos que se viam de perfil. É difícil governar um reino quando uma descrição nos desarruma o coração.
Dois dias antes da chegada da rainha, as poupas encontraram-se num bosque dos arredores de Jerusalém. A Judeia erguia os seus cíclames e os asfódelos recebiam a luz com aquela indiferença das flores perante as nossas urgências. Desta vez, as duas mensageiras pouco tinham a dizer. Haviam entrevisto a alegria do encontro; começavam agora a conhecer o peso da separação.
— Se o vento ficasse sempre no mesmo lugar, o ar nunca se renovaria — disse Yafur.
Anfu demorou a responder.
— Se o amor pudesse possuir tudo aquilo que deseja, talvez deixasse de procurar.
Era uma maneira delicada de não dizerem o que lhes doía. Também os pássaros terão o seu pudor.
Entretanto, Sarahil, a velha ama da rainha, preparava Makeda para o encontro. Era tão velha que amamentara o avô dela — exagero perfeitamente razoável numa história onde duas poupas conhecem melhor o coração humano do que muitos conselheiros reais. Vestiu-a com sete túnicas: a primeira azul como o mar; a segunda da cor dos alperces maduros; a terceira semelhante ao interior de uma romã aberta. Seguiram-se o amarelo das calêndulas, o laranja do crepúsculo, o verde. A última era vermelha e tão leve que parecia ter sido tecida com aquele ar que fica entre duas pessoas antes de se tocarem.
Assim entrou a rainha de Sabá na presença de Salomão. O rei, habituado a receber tributos, descobriu que havia uma forma de riqueza diante da qual só podia depor as mãos. A beleza tem o inconveniente poder de nos suspender as competências. Aquilo que sabíamos dizer torna-se desnecessário; aquilo que desejamos dizer ainda não encontrou palavras. Não é apenas o agrado dos sentidos. É o pressentimento de uma presença que nos excede e, ao mesmo tempo, nos convoca. Diante de Makeda, Salomão não desejava abandonar a terra para subir ao céu. Desejava que aquela mulher se aproximasse. Talvez a transcendência começasse precisamente aí: não na distância que separa o divino da carne, mas na profundidade inesperada que a carne pode abrir.
Sarahil percebeu o olhar do rei e ajudou a rainha a despir as túnicas, uma a uma. Do peitoril de uma janela, Yafur e Anfu acompanharam a queda dos tecidos. O brocado fez um ruído breve; o algodão pousou mais devagar; a seda quase não se ouviu. Parecia que a luz retirava pétalas a uma flor.
Mas a nudez não terminou o mistério. Seria cómodo que assim fosse: afastar os véus, alcançar finalmente a verdade, dar por concluída a procura. O corpo amado, porém, não é um enigma cuja solução se esconda debaixo da roupa. A pele revela uma presença, não a esgota. Quanto mais perto estamos, mais evidente se torna que o outro não nos pertence — nem sequer quando se entrega.
Quando a jovem rainha de Sabá ficou nua, e o rei viu seus mamilos tensos, o umbigo perfeito e os ombros luminosos, e a região onde a sombra se perdia na sombra, decidiu imitar o seu pai David diante da Arca da Aliança.
— O teu corpo é a casa dos mistérios do meu Deus — conseguiu dizer.
Uma mão apontava para o céu, a outra para a terra. Rodopiava em redor da rainha, esquecendo a gravidade do cargo e a compostura que os homens importantes costumam confundir com sabedoria. Makeda sorriu. Talvez tenha sido nesse momento, e não quando caiu a última túnica, que a distância entre ambos começou verdadeiramente a desaparecer.
Porque a comunhão dos corpos não começa na posse, mas quando o desejo aprende a acolher a liberdade que tem diante de si. Quando as mãos deixam de querer confirmar um domínio e se tornam capazes de perguntar. Quando o outro é capaz de se aproximar sem ter de desaparecer dentro da nossa vontade ou da nossa suspeita.
Nessa noite, os suspiros venceriam as palavras. E o silêncio de depois seria mais fundo do que o silêncio de antes. Não porque lhes faltasse alguma coisa a dizer, mas porque a presença já não precisava de se justificar. Na entrega dos amantes, o corpo deixa de ser o limite onde cada um acaba e torna-se o lugar onde cada um pode receber o outro. Continuam a ser dois: duas respirações, duas memórias, duas vidas que nenhuma intimidade consegue tornar inteiramente transparentes. E é precisamente essa diferença que torna possível a comunhão. Não se encontram para abolir a distância, mas para a atravessar sem a ferir.
Talvez não haja experiência mais profunda do divino do que esta: ser acolhido na nossa fragilidade sem que ela seja usada contra nós. Descobrir que podemos dar-nos sem sermos consumidos, receber sem aprisionar, tocar sem reduzir o que tocamos à medida das nossas mãos. O infinito deixa então de ser uma grandeza remota. Cabe no cuidado com que um corpo se aproxima de outro.
Não é preciso que a carne deixe de ser carne. Pelo contrário: é a sua finitude — o calor que se perde, a pele que envelhece, o coração que um dia há de parar — que torna tão funda a promessa do encontro. Os amantes não vencem a morte. Mas, por instantes, vivem de uma maneira que recusa entregar-lhe tudo.
A beleza fora a primeira intuição. A comunhão dava-lhe agora espessura, respiração, demora. Aquilo que Salomão pressentira ao olhar para Makeda tornava-se experiência: havia mais naquela presença do que ele poderia possuir, e esse excesso não o privava de nada. Era o que tornava inesgotável a alegria de a receber.
Depois, a rainha regressou a Sabá.
As histórias de amor não ficam dispensadas das caravanas, das fronteiras e dos deveres. Makeda pediu às borboletas que lhe roçassem a testa enquanto dormia, para que os sonhos conservassem alguma coisa das cores daqueles dias. Não lhe devolveriam Jerusalém. Mas talvez a memória também precisasse de um corpo, por mais leve que fosse, para continuar a visitá-la.
Yafur e Anfu viveram muitos anos. Guardaram a recordação de que o seu encontro fora o princípio de outro maior e, quem sabe, a certeza discreta de que nenhuma separação consegue tornar inexistente aquilo que verdadeiramente aconteceu.
À hora da sesta, as borboletas aproximavam-se da rainha. Uma asa tocava-lhe a testa, outra estremecia junto ao cabelo. Makeda sorria sem acordar.
E o infinito, que nunca aprendera a desprezar as coisas pequenas, demorava-se ali.
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