Ibaneis pilotou operação BRB-Master, e Vorcaro fala em propina de R$ 80 mi

As entregas ocorreram na casa de Vorcaro em Brasília, entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Em dezembro de 2024, o motorista avisou ao banqueiro que Léo tinha ligado para buscar "todas as encomendas".
A defesa de Ibaneis afirmou que não vai falar sobre uma "delação que não foi aceita por não ter um fiapo de prova". Os fatos "demonstram a verdade daquilo que o governador diz desde o início: ele dava plena liberdade para o presidente do BRB fazer o que julgasse necessário", afirma o advogado do ex-govenardor, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Segundo ele, Ibaneis não tinha participação nas decisões do banco público.
Procurado, Valverde não respondeu.
O que diz a delação
Na sua proposta de delação premiada, Daniel Vorcaro disse que Ibaneis exigiu propina para concretizar o negócio logo depois do primeiro encontro entre os dois.
Segundo o relato, o acerto foi feito na casa de Vorcaro em Brasília em setembro de 2024, em uma conversa entre ele e Valverde. O acordo previa o pagamento de R$ 400 milhões após a fusão dos bancos.
Metade do valor seria pago em dinheiro em espécie e metade num contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo governador. Ibaneis também ficaria com 5% do novo banco, por meio de uma empresa de fachada, diz Vorcaro.
Em outubro de 2024, Valverde enviou a Vorcaro uma proposta, um documento de CNPJ e os dados bancários de uma empresa de que ele próprio é administrador, segundo a Receita Federal.
"Segue as empresas!", escreveu. No dia seguinte, ativou as mensagens temporárias na conversa.
O banqueiro afirma ter adiantado cerca de R$ 80 milhões em espécie, entregues em Brasília pelo seu motorista a Valverde. Vorcaro diz na proposta de delação que as provas dos repasses estavam em mensagens em seu celular.
O contrato com o escritório, segundo ele, nunca chegou a ser pago, porque o BC (Banco Central) vetou a operação em setembro de 2025.
Contatos em 2024
O contato entre o governador e Daniel Vorcaro começou em 18 de setembro de 2024, num almoço na casa de Vorcaro em Brasília. No dia seguinte, Ibaneis escreveu a Vorcaro pela primeira vez, agradecendo pelo "excelente almoço".
O encontro foi organizado por Thiago Claudino, ex-assessor do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Claudino mandou ao banqueiro a lista de quem iria ao almoço.
Além de Ibaneis, estavam lá o filho dele, Caio Rocha, o secretário de Economia do DF, Ney Ferraz, e William Guimarães, a quem Claudino se referiu como "sócio do gov". Também estava Leonardo Valverde, descrito como "braço direito do gov".
Uma semana depois, o governador voltou à casa de Vorcaro para um jantar com o mesmo grupo. Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília, compareceu também ao jantar, a convite do governador.
Costa e Vorcaro já se conheciam. Antônio Rueda, presidente do União Brasil, tinha intermediado um encontro entre eles em julho de 2024. Desde então, os executivos vinham trocando mensagens sobre o aumento de capital do BRB, do qual o Master planejava participar.
A ideia era que o Master ajudasse o BRB a se capitalizar e, em troca, fizesse negócios de venda de ativos para o banco, especialmente carteiras de crédito consignado. Essas operações começaram já no segundo semestre.
No dia do jantar com Vorcaro e Paulo Henrique, Ibaneis autorizou o BRB a seguir com um aumento de capital de R$ 500 milhões. Seria o primeiro passo, segundo o governador, para vender o banco público ao Master.
Essa, ao menos, é a versão do encontro relatada por fontes ouvidas pelo UOL, que Vorcaro também reforça em sua tentativa de delação premiada.
Em outubro, o valor subiu para R$ 750 milhões, com aval do governador. Fundos ligados ao Master entraram no capital do BRB, e o banco público passou a comprar carteiras de crédito do Master, num total de R$ 9,5 bilhões até fevereiro de 2025.
O Master enfrentava uma crise de liquidez. No fim de 2024, o BC tentou uma solução de mercado, e o BTG Pactual ofereceu R$ 1 pelo banco, mas os bancos integrantes do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) resistiam à ideia.
Enquanto isso, a negociação com o BRB avançava. No Natal, Paulo Henrique escreveu a Vorcaro sobre o "novo caminho" que o banqueiro tinha sugerido, uma "narrativa melhor - de aquisição". Em vez de os dois bancos se fundirem, o BRB passaria a comprar o Master.
O governador foi convencido de que seria uma ideia melhor, e Vorcaro e Paulo Henrique tentaram colocar de pé a operação.
Em janeiro de 2025, Ibaneis pediu uma reunião com Vorcaro. Os dois se encontraram para jantar em Zurique, na Suíça, com Paulo Henrique e Valverde, em um evento do grupo Lide, e negociaram a possibilidade de comprar o Master.
Em fevereiro, a direção do BRB formalizou o "Projeto Vértice", nome interno da compra do Master.
O negócio quase caiu no mesmo mês. Paulo Henrique contou a Vorcaro que o governador tinha ligado "querendo dar para trás" depois de ouvir que o BC via a operação com maus olhos.
Em março, segundo Paulo Henrique informa a Vorcaro, Ibaneis estava "impaciente com o prazo". No dia 20, o governador marcou um novo encontro com Vorcaro e Paulo Henrique. Oito dias depois, o BRB anunciou a compra de 58% do Master.
No dia do anúncio, Ibaneis ligou para Vorcaro. Em agosto, voltou a ligar três vezes na semana em que a CLDF (Câmara Legislativa do Distrito Federal) votou a operação. Ele também encaminhou ao banqueiro uma decisão liminar sobre o negócio e a edição do Diário Oficial com a lei aprovada.
Conversas com Paulo Henrique
Em outubro de 2024, o executivo contou a Vorcaro que Ibaneis "autorizou seguir com os R$ 750 milhões" do aumento de capital do banco público. No mesmo mês, disse que a "consolidação" dos dois bancos estaria pronta em três meses.
Em fevereiro de 2025, quando o negócio quase caiu, Paulo Henrique agradeceu a "intervenção" de Vorcaro, e o banqueiro respondeu que tinham feito "uma aliança" e que "se for pra cair vamos cair juntos".
O plano era que Paulo Henrique comandasse o novo conglomerado. Segundo a PF, o executivo escolheu seis apartamentos de alto padrão, avaliados em R$ 146,6 milhões, que o Master comprou.
Ele iria morar em um deles. A PF aponta que as transações imobiliárias eram uma forma de propina para o ex-chefe do BRB.
A carteira da Tirreno
Os problemas apareceram um mês depois do anúncio da compra. Em abril de 2025, a equipe do BRB foi ao Master conferir as carteiras de consignado que tinha comprado e não conseguiu acesso aos dados das operações originadas por associações.
Segundo Paulo Henrique, o Master alegou que a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) impedia a consulta. Em maio, o executivo avisou a Vorcaro que não faria novas compras sem os comprovantes de que os empréstimos estavam registrados na folha dos clientes.
As carteiras tinham sido vendidas ao Master pela Tirreno, uma promotora de crédito. Segundo a PF, parte delas não existia, porque nenhum cliente havia tomado aqueles empréstimos.
"Precisamos demonstrar que essas carteiras existem, Daniel", escreveu Paulo Henrique em 30 de junho, quando o caso já estava no BC. Vorcaro respondeu que "nada que fizermos ou entregarmos vai nos tirar desse corner".
O BRB passou a trocar as carteiras da Tirreno por outros ativos do Master. Em setembro, ainda faltavam R$ 2,1 bilhões. "O que me chateia, Daniel, é que tudo isso decorre da Tirreno", escreveu o executivo. "Nós compramos aquelas carteiras de boa fé."
Tentativa de salvar o negócio
Ibaneis acompanhou essa fase de perto, segundo as mensagens. Em julho, Paulo Henrique relatou que o governador estava "sem paciência" com a demora do BC.
Depois que o BC vetou a operação, em setembro, o executivo contou a Vorcaro que Ibaneis não se opunha a um plano B, um acordo operacional entre os bancos no lugar da compra. O governador também concordou com um novo aumento de capital do BRB, com imóveis do DF.
No fim de setembro, Paulo Henrique escreveu que "até o Gov" o estava cobrando por documentos do Master. Em novembro, o BC liquidou o banco, e Vorcaro foi preso.
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.