Prescrição Social: construir saúde em comunidade

Há evidências de que a Prescrição Social pode estar associada a uma menor utilização dos cuidados de saúde primários e dos serviços de urgência. Além de ajudar a melhorar a qualidade de vida dos utentes, a Prescrição Social pode ser, também, uma forma de reduzir a pressão sobre o SNS?
Sim. O que muitas vezes acontece quando as pessoas se sentem sós ou têm problemas de saúde mental, é a falta de comunicação, de interação e de ligação àquilo que é a vida na sua comunidade. Com a prescrição social, a pessoa vai certamente estar envolvida em atividades comunitárias, conhecer pessoas, ter um sentimento de propósito que provavelmente não havia antes.
Onde é que isto ajuda o Serviço Nacional de Saúde? É que estas pessoas que estão em situação de solidão, muitas vezes, recorrem às infraestruturas hospitalares, ao seu médico de família, às urgências, para tratar de episódios que poderiam ter sido prevenidos se houvesse uma melhor conexão social.
No médio e longo prazo, à medida que vai sendo disseminada, acredita-se que a prescrição social possa ter um impacto muito positivo naquilo que é a pressão e a quantidade de pessoas que o SNS hoje recebe.
Um estudo da University College London, divulgado pela National Academy for Social Prescribing do Reino Unido, estima que cada libra investida em Prescrição Social gera um retorno social de 9 libras. Se sabemos que determinadas respostas comunitárias funcionam, porque não estamos a investir mais nelas?
Acho que há duas razões e uma é consequência da outra. A principal razão é o desconhecimento das várias partes interessadas. Há um desconhecimento, desde logo, da classe médica, do que é a prescrição social, das administrações hospitalares, de muitos assistentes sociais, e da população a quem pode ser feita esta prescrição social.
Como existe este desconhecimento, também não há uma infraestrutura criada para a prática de prescrição social – isto, principalmente, se compararmos com a infraestrutura que existe para a prescrição médica, que é um sistema que funciona muito bem, que tem muitos recursos, muito incentivo, portanto, é uma resposta muito mais fácil e preparada.
No caso da prescrição social, o médico tem de conhecer os projetos, convencer o paciente, falar com o assistente social, etc. Como não existe tanta preparação, o médico tem de fazer este caminho sozinho – e há médicos que já o fazem, por iniciativa própria e porque acreditam muito no poder da prescrição social e da rede de apoio comunitário. Mas a verdade é que o médico tem de ter essa vontade, e se atende 20 e tal pessoas por dia, fica mais difícil ter um acompanhamento personalizado.
Além disso, os projetos também não estão preparados para ser alvo de prescrição social, a Segurança Social também não conhece bem a prática, por isso diria que há tudo por fazer.
Apesar de já existirem projetos de Prescrição Social em Portugal, esta abordagem ainda é pouco conhecida. Em que ponto é que estamos? Existem diferenças significativas entre regiões na capacidade de disponibilizar este tipo de respostas?
Acho que estamos ainda no começo. Existem algumas experiências piloto em Portugal: temos algumas na região de Lisboa, uma na região Centro, e depois há algumas na Área Metropolitana do Porto. Mas eu diria que não existem diferenças significativas entre regiões, porque na verdade não há nenhuma região com esta prática implementada. Todo o país precisa – e eu sei que não se pode desenvolver o país todo ao mesmo tempo, é uma coisa que é gradual – mas não há nenhuma que tenha uma prática desenvolvida.
Quais são os maiores desafios à expansão da Prescrição Social em Portugal?
Há desafios tanto do lado da procura, como do lado da oferta. Do lado da procura, primeiro vai ter de se dar a conhecer o que é prescrição social. Depois, tem de se convencer e explicar quais são os efeitos e benefícios, implementar, registar e medir o impacto que a prescrição social tem nas pessoas em Portugal. E depois é preciso disseminar esses resultados dos primeiros anos de experiência e acreditamos que com a disseminação desses resultados vai ser mais fácil no médio/longo prazo haver uma adoção nacional desta prática da prescrição social.
Ao mesmo tempo, temos de desenvolver o outro lado: a oferta. Ou seja, têm de ser organizações sociais e culturais que estejam dentro de um sistema de prescrição, que estejam preparadas para receber pessoas que são indicadas pelos médicos. Os projetos têm de ter uma certa dimensão para a prescrição social.
Depois, também tem de se desenvolver dentro da estrutura da Segurança Social uma capacitação para os assistentes sociais. Ou seja, o assistente social também tem de saber que existe uma oferta de prescrição social na região onde opera para poder encaminhar os pacientes que são identificados pelo médico para esses projetos. Em inglês este termo existe, é o link worker, ou seja é o trabalhador que faz a ligação entre o médico e o projeto que vai incidir sobre aquele paciente.
E depois a classe médica também tem de estar mais informada sobre o benefício da prescrição social. Posso confessar que nenhum dos médicos com quem a Fundação Ageas falou mostrou qualquer resistência à ideia da prescrição social e os que a conheciam estavam muito dispostos a testar. A questão é que não havendo o sistema preparado, não havendo projetos preparados, não conseguem começar.
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