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Sunday, September 13, 2026

CE: Empresa cerca área de praia em litígio e revolta comunidade tradicional

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A JE Pescados —nome fantasia da Goldoz Produção e Comercialização de Camarões Ltda.— sustenta ser proprietária da área de 279 hectares (com 35 de uso para carcinicultura) e que parte do terreno foi ocupada "de forma totalmente ilegal" nos últimos anos, inclusive com a edificação de casas de veraneio e pousadas. A empresa assegura ainda que a cerca não impede o acesso a áreas públicas (veja mais abaixo).

Área da cerca, segunda a empresa, com mais de 1,3 km de largura
Área da cerca, segunda a empresa, com mais de 1,3 km de largura Imagem: Goldoz/Divulgação

Sobre a comunidade

De acordo com um relatório social da Defensoria Pública do Estado, a comunidade das Placas existe há cerca de 40 anos. No local, foram identificadas 47 famílias em situação de vulnerabilidade social, incluindo 13 de pescadores e seis de marisqueiras, além de pequenos comerciantes e prestadores de serviços voltados ao turismo.

O contingente de moradores pode ser superior, uma vez que pessoas ausentes durante as entrevistas podem não ter sido contabilizadas.

"Trata-se de uma comunidade tradicional, cuja sobrevivência está diretamente ligada ao território e aos recursos naturais", diz a defensora pública Beth Chagas.

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Ela explica que o órgão acompanha o conflito desde 2024 e diz que essa foi terceira tentativa da empresa em cercar a área em pouco mais de dois anos. "Mas há divergências entre a área reconhecida, licenciada e efetivamente ocupada para carcinicultura."

Em meio a isso, a comunidade entende que a cerca aprofundou um problema fundiário.

"Somos uma comunidade pequena, que não tem perfil de turismo de massa. Mas ela é sede para pescadores artesanais de toda a região. São poucas famílias que residem lá, mas durante as 24 horas do dia há pessoas entrando e saindo", explica Lidiane Silva, líder da Associação Comunitária dos Moradores da Praia das Placas.

Cerca montada pela empresa em área da JE Pescados
Cerca montada pela empresa em área da JE Pescados Imagem: Arquivo pessoal

Segundo a liderança, a cerca prejudicou a mobilidade local. "São pessoas que passam para ir pescar, às vezes de bicicleta, a pé ou de moto. O prejuízo é gigante não só para as famílias da nossa comunidade, mas para todas as que utilizam aquele território", argumenta.

Uma das informações questionadas é que área veio por ação de usucapião. A defensora Beth Chagas diz que pediu à Corregedoria-Geral da Justiça do Ceará uma investigação, ainda em 2025, para apurar a regularidade da cadeia dominial do imóvel.

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O que se questiona é a validade de origem do próprio título, a sentença. A Constituição Federal veda a usucapião de terras públicas, entre elas terrenos de marinha, áreas de mar e manguezais. A própria SPU [Secretaria de Patrimônio da União] classifica esse terreno presumido como da Marinha.
Beth Chagas

Cronograma de decisões

O caso tramita na Justiça por iniciativa da JE Pescados, que alega invasão e pede a reintegração de posse. No curso do processo, a empresa solicitou autorização para cercar o trecho ainda desocupado.

Placa informa autorização para cerca em área privada
Placa informa autorização para cerca em área privada Imagem: Arquivo pessoal

A primeira decisão, proferida pela 1ª Vara Cível de Aracati em 11 de fevereiro de 2026, proibiu novas construções no local, mas negou o pedido para cercar a área e remover moradores, sob a justificativa de que a empresa não comprovou a posse efetiva da terra.

Contudo, uma decisão do desembargador José Ricardo Vidal Patrocínio, do TJ-CE (Tribunal de Justiça do Ceará), datada de 26 de julho, autorizou a cerca das chamadas áreas vagas.

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Os moradores sustentam que a estrutura impede o livre acesso à praia e ao manguezal para a pesca e a catação de mariscos. Por essa razão, questionam a decisão do TJ-CE. Uma audiência sobre o caso está marcada para quarta-feira. "Nós vamos fazer um ato em Fortaleza nesse dia", afirma Lidiane Silva.

A principal contestação da comunidade é a ausência de um laudo técnico, mapa ou memorial descritivo que delimite o tamanho exato da cerca ou especifique quais seriam as "áreas desocupadas".

Para o advogado Péricles Moreira, do Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito, o conflito se intensificou em 2024, a decisão foi incorreta. "Ela não delimitou exatamente o que seria essa área de cerca, apenas citou área vazia", diz.

Compreendemos que não há como fazer o cercamento daquilo que não se sabe exatamente o que é. Além disso, cercar uma área de mangue é expressamente vedado pela legislação ambiental e por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Péricles Moreira

Barcos no mar de Icapuí (CE)
Barcos no mar de Icapuí (CE) Imagem: Roberto de Oliveira/Folhapress

O que diz a empresa

A empresa informou, por meio dos escritórios Rogério Feitosa Mota Advogados Associados e Falcão Andrade e Nardini Advogados, que desde 2017 a área passou a ser alvo de uma expansão irregular das ocupações. A situação se agravou em 2019, o que levou-a a entrar com um pedido de reintegração de posse.

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A defesa afirma que a empresa está licenciada pela Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente) e exerce suas atividades há mais de duas décadas na cidade.

Segundo a empresa, a área em litígio foi ocupada nos últimos anos por várias pessoas, algumas não moradoras, que ergueram casas de veraneio e até pousadas no local. Cita que inspeção da Justiça comprou isso, e fotos enviadas à reportagem mostram essas construções de alto padrão —que teriam sido feitas sem alvará.

Área a direita, que a FE Pescados diz ser dona, foi ocupada e teve diversas construções
Área a direita, que a FE Pescados diz ser dona, foi ocupada e teve diversas construções Imagem: Goldoz/Divulgação

"Algumas dessas construções têm placas de 'vende-se' e telefones de contato de outros Estados. Entre os ocupantes, réus na ação de reintegração, foram identificados, entre outros, empresários, médicos, serventuários da Justiça e policiais, além de pessoas que exercem atividades que não guardam relação com a pesca, possuem outros domicílios e, em alguns casos, residem em outros Estados."

Além disso, a empresa cita que a ideia da cerca é somente preservar a parte da área ainda não invadida, "pois alguns ocupantes mantêm criações de animais de grande e médio porte , que não fazem parte do ecossistema do mangue."

"A cerca impede que o gado e os caprinos cheguem àquele ecossistema e contribui para evitar a contaminação por coliformes fecais desses animais, que não pertencem a esse ecossistema", completa.

A empresa não se opõe a que pescadores e marisqueiros que efetivamente dependem do mangue para sua subsistência o utilizem. Contudo, como o mangue se encontra dentro de sua propriedade, eventuais impactos decorrentes de atos de terceiros podem ser atribuídos à própria empresa pelos órgãos competentes.
JE Pescados

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Sobre o terreno na praia da Placa, cita que ele está registrado em duas matrículas no Cartório de Imóveis de Icapuí e confirma que "a matrícula original do terreno decorre de ação de usucapião", mas ela foi "ajuizada há mais de três décadas", quando a empresa tinha outros donos —os atuais compraram em 2022.

Já sobre os danos ambientais da atividade, garante que "cumpre todas as normas necessárias para estar de acordo com a legislação ambiental e, por isso, possui licença ambiental válida até 2029, expedida pela Semace."

Reportagem

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