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Sunday, October 25, 2026

O Norte não é para todos

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Nasci no Porto, e isso vem com um defeito de fabrico que nunca consegui corrigir: desconfio de tudo o que me chega polido de Lisboa, sobretudo quando a conversa é sobre o que “funciona bem no país”. Porque o país, convém lembrar a quem vive dentro da via do IC19, não acaba no Marquês. E há um sítio onde, todos os verões, a palavra “urgência” ainda significa o que devia significar: um lugar aberto, com gente lá dentro a tratar de quem precisa. Esse sítio chama-se, grosso modo, Norte.

Não é golpe de sorte. É teimosia organizada. Enquanto na região de Lisboa se tornou ritual de verão anunciar o encerramento rotativo de urgências pediátricas, obstétricas ou de outras especialidades, como quem avisa que a piscina municipal fecha em agosto para manutenção, no Porto e na região continua tudo, de forma nada milagrosa, a abrir. Não porque falte gente formada — falta em todo o lado, a geografia dos médicos não é diferente da dos portugueses em geral, todos preferem o litoral e preferencialmente a capital. A diferença é que aqui alguém se deu ao trabalho de antecipar o problema em vez de o gerir em cima do joelho, com normas de contingência publicadas num sábado à noite.

Essa antecipação tem nome, mesmo que não saia em comunicado: hospitais do Norte foram, ano após ano, construindo relação direta com os seus próprios quadros, em vez de tratarem o médico como um número de carreira que se substitui por outro igual. Reforços negociados a tempo, flexibilização de escalas pensadas com meses de antecedência, implementação do movimento de quadros por diferentes hospitais e direções clínicas que atendem o telefone ao profissional em vez de o mandarem para um gabinete em Lisboa que nunca liga de volta. É uma gestão efetiva de proximidade, no sentido mais literal da palavra, porque aqui a distância entre quem decide e quem trabalha costuma caber num único edifício.

Chamem-lhe o que quiserem, mas isto tem o ADN do Porto escrito por todo o lado. É a mesma lógica mercantil e liberal que fez desta cidade o que ela é: resolver primeiro, pedir licença depois. A agilidade mental em permanente funcionamento. A tradição associativa, o hábito de cada instituição se “desenrascar” com o que tem à mão sem esperar que a capital debite instruções, o pragmatismo de quem sabe que ninguém vai fazer o trabalho por nós — isso não nasceu com o SNS, nasceu muito antes, no comércio, nas confrarias, na forma como esta cidade e região sempre cuidou dos seus. Transportar essa mentalidade para dentro de um hospital público não devia ser exceção. Devia ser o manual.

E, no entanto, não nos iludamos a aplaudir de pé: o Norte não escapa ao vício nacional de nomear conselhos de administração hospitalares por amizade ou cor partidária primeiro e competência muito depois, quando há sorte podemos ter todas juntas. Algo raro, muito raro. O que aqui se conseguiu foi conseguido muitas vezes apesar da tutela política, não por causa dela — à custa de médicos que são sobretudo grandes gestores hospitalares, diretores clínicos e enfermeiros-chefes que decidiram fazer bem feito por teimosia própria, não por orientação superior. Imaginem, só por um instante, o que se conseguiria se a régua para escolher quem gere milhões de euros e a saúde de milhares de doentes fosse exclusivamente o seu percurso académico e profissional? Não é imaginação de ficção científica. É o nível mínimo de exigência que qualquer gestor privado teria de cumprir para não ser despedido imediatamente no primeiro trimestre.

Infelizmente neste país a desresponsabilização anda muitas vezes de mão dada com quem gere a coisa pública.

Lisboa tem o poder, a visibilidade e o hábito antigo de falar em nome do país inteiro sem perguntar ao resto do país se concorda. O Norte tem outra coisa, mais incómoda para quem gosta de centralizar: tem a prova de que dá para fazer diferente, e que fazer diferente nem sequer exige milagre, exige só pôr as pessoas certas a decidir pelas razões certas. Enquanto isso não acontecer de forma sistemática, de lés a lés, continuaremos a ver o mesmo retrato todos os verões: um país onde quem nasce perto do hospital certo tem sorte, e quem não nasce, aprende à força a palavra “transferido”. O Norte não é para todos. Devia ser. E a única coisa que falta para que seja é perceberem que cada ação impacta verdadeiramente na vida do próximo.

Que me perdoem todos os meus bons amigos de Lisboa, mas iniciei o artigo com um disclaimer, “Nasci no Porto, e isso vem com um defeito de fabrico…”.

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