Oposição apresenta ao Congresso paraguaio pedido de destituição do presidente
Deputados da oposição apresentaram ao Congresso do Paraguai um pedido de impeachment contra o presidente do país e seu vice, em razão da crise que envolve um dos maiores bancos paraguaios e que levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas.
Centenas de manifestantes voltaram a protestar em Assunção na noite de hoje, pedindo a devolução do seu dinheiro e o julgamento do presidente. Mais cedo, longas filas se formaram nas agências do Ueno Bank, por clientes querendo sacar seu dinheiro.
"É o dinheiro da nossa aposentadoria, que agora não sabemos se vamos receber", disse à AFP a médica Teresa Montiel, que levou para o protesto um cartaz com a frase: "Unidos somos mais fortes".
A crise começou ontem, depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por insuficiência de capital. Com isso, os serviços da instituição foram suspensos.
Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no banco. O escândalo levou à renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo.
O deputado Mauricio Espínola, dissidente da base governista, disse à AFP que o pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña conseguiu as assinaturas necessárias para ser discutido na Câmara dos Deputados.
A convocação para discutir o impeachment "será amanhã, quinta-feira, às 10h" (mesmo horário em Brasília), acrescentou.
Peña, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em 2025.
O texto da acusação apresentado à Câmara dos Deputados pede a abertura de um processo de impeachment "por mau desempenho de suas funções no exercício do cargo". Entre as acusações contra Peña está a de "conflito de interesses", além de questionamentos sobre o aumento do seu patrimônio.
O governo anunciou que vai devolver parte dos depósitos das pessoas afetadas.
- Maioria incerta -
Os deputados precisam reunir 53 votos, de um total de 80 parlamentares, para aprovar o pedido contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana. Caso isso aconteça, o Senado conduzirá o julgamento, que poderá destituir os governantes caso sejam alcançados 30 votos entre os 45 senadores.
O Partido Colorado, governante, tem maioria própria nas duas câmaras do Congresso, mas seu presidente, o ex-chefe de Estado Horacio Cartes, distanciou-se do governo.
A oposição acusa Peña de tomar "decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno Bank" e de concentrar recursos previdenciários na instituição, em meio a um possível conflito de interesses decorrente de seus vínculos passados com o banco.
Peña sancionou hoje uma lei aprovada rapidamente pelo Congresso, que "permitirá aos correntistas receber, no menor prazo possível, parte do fundo de garantia, a fim de que o dinheiro volte para as mãos daqueles a quem corresponde". A norma estabelece que os pagamentos sejam realizados nos próximos cinco dias.
O Congresso também aprovou um dos três candidatos indicados pelo Executivo para recompor o conselho diretor do Banco Central, que, segundo a Constituição, opera como um órgão autônomo.
O BCP apresentou ontem uma denúncia contra o Ueno Bank, que resultou na prisão, no mesmo dia, de oito diretores da instituição, entre eles seu presidente, Miguel Vázquez.
O Banco Central garantiu que os clientes com depósitos congelados "receberão um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis", ou cerca de R$ 9 mil.
"Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (cerca de R$ 7). Todos têm que ser presos", disse ontem à AFP, chorando, Marcelino Vergara, 68.
Em 2012, o então presidente, Fernando Lugo, foi destituído em um processo de impeachment no Congresso, após um massacre que deixou 11 camponeses e 6 policiais mortos ocorrido a cerca de 250 km de Assunção. O ex-bispo havia chegado ao poder em 2008, encerrando 61 anos de hegemonia do Partido Colorado.
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