Polícia chega a políticos após 23 anos de cerco ao PCC no setor de ônibus


As investigações sobre a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte público de São Paulo, que já duram 23 anos, avançaram nos últimos meses sobre uma nova frente: as relações entre empresas suspeitas de ligação com a facção e personagens da política paulista. Operações da Polícia Civil e do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) investigam vereadores, ex-parlamentares e candidatos. Entre os alvos recentes estão o ex-presidente da Câmara de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), que se entregou à polícia ontem, após ter a prisão temporária decretada, e Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual. Além deles, o vereador licenciado Senival Moura (PT) chegou a ser preso em junho de 2026 e foi solto após ficar mais de um mês detido por suspeita de ligação com a facção.
PCC foi da cooperativa às empresas de ônibus
A ofensiva atual é resultado de uma investigação que remonta à transformação do transporte alternativo paulistano. Segundo o MP, a infiltração da facção no setor tem antecedentes no começo dos anos 2000. Em 2002, Antônio José Muller Júnior, o Granada, apontado pelo MP-SP como integrante da cúpula do PCC, teria usado documentos falsos para assumir a direção da Transmetro, cooperativa de transporte sediada em Diadema (SP). A defesa dele nega relação com os crimes atualmente investigados.
As cooperativas formadas por antigos perueiros foram regularizadas por meio de licitações no início dos anos 2000. Anos depois, parte dessas organizações foi transformada em sociedades empresariais. É nesse universo que surgiram algumas das companhias que hoje estão sob investigação e, desde então, entraram na mira do MP.
A dimensão atribuída ao esquema pela investigação mudou de patamar. O MP-SP afirma que 12 das 22 empresas que operam o sistema de transporte coletivo paulistano estariam, em tese, sob controle do PCC por meio de representantes ou laranjas.
As sucessivas operações mostram também uma ampliação do foco das autoridades. Se inicialmente as apurações se concentravam na lavagem de dinheiro por meio das empresas, os investigadores agora tentam identificar quem exercia influência sobre as concessionárias, como contratos e decisões públicas eram afetados e se recursos provenientes desses esquemas chegaram a financiar campanhas eleitorais.
Investigação chega ao braço político do PCC, segundo o MP
Em 2026, 23 anos após a primeira operação sobre a máfia dos perueiros, o MP chega ao chamado "braço político" do PCC no transporte público. A investigação apontou que a facção criminosa ultrapassou as fronteiras do tráfico de drogas e se consolidou no domínio de frotas de ônibus urbanos e fraudes de licitações.
O avanço mais recente da polícia sobre o PCC ocorreu na quinta-feira, com a Operação Vectura Corrupta. A investigação do MP-SP e da Polícia Civil apura a infiltração da facção não apenas em empresas de ônibus, mas também em estruturas do poder público. Segundo decisão do desembargador Sergio Ribas, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), as apurações indicam que 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo da capital seriam, em tese, controladas pela facção.
Ao menos 11 dos 16 alvos da operação Vectura Corrupta já foram presos. Entre eles estão um ex-diretor da SPTrans e um diretor de uma empresa de transporte coletivo da capital paulista. Veja aqui lista dos presos na operação.
Senival Moura: suspeita de controle paralelo da Transunião

Um dos primeiros políticos diretamente alcançados pelas investigações recentes foi o vereador Senival Moura (PT). Ele foi preso em junho na Operação Última Parada, que apura a utilização da Transunião Transportes em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
Poder exercido em estrutura paralela. Apesar de não integrar formalmente a direção da concessionária, Senival exerceria poder sobre uma estrutura paralela de administração da empresa, segundo a polícia. Os investigadores afirmam que ele tinha poder de decisão sobre movimentações financeiras informais e teria usado a Transunião para estruturar um sistema financeiro clandestino que beneficiava pessoas ligadas à facção.
A relação de Senival com o transporte coletivo antecede sua chegada à Câmara. O vereador atua no setor desde os anos 1990, quando era operador de kombis na zona leste da capital. Com a regularização do transporte alternativo, sua família permaneceu ligada à atividade, enquanto ele consolidou sua carreira política na mesma região.
Senival está no sexto mandato como vereador. Após ser preso, pediu afastamento de sua filiação ao PT para, segundo ele, dedicar-se à defesa e evitar vincular as investigações ao partido. Sua defesa nega que ele tenha cometido qualquer irregularidade. O político, porém, segue filiado à sigla.
Em agosto, o TJ-SP mandou soltar o vereador. Na decisão, a desembargadora Carla Rahal Benedetti, da 11ª Câmara Criminal do TJ-SP, afirmou que o prazo da prisão temporária não deveria ser de 30 dias, mas de cinco dias. Com esse entendimento, ela determinou a soltura do investigado.
Milton Leite: investigação chega a um dos políticos mais influentes de São Paulo

Quase três meses depois da prisão de Senival, a investigação alcançou Milton Leite (União), uma figura de ainda maior projeção na política paulistana. O político, que exerceu sete mandatos como vereador e presidiu a Câmara Municipal por seis anos, teve a prisão temporária decretada na Operação Vectura Corrupta. Ele deixou o Legislativo no fim de 2024, mas ainda preside o diretório municipal do União Brasil em São Paulo.
Milton Leite se apresentou à polícia em São Paulo somente na tarde de ontem. A investigação apura se ele era, na prática, o verdadeiro proprietário da Transwolff, concessionária que foi alvo da Operação Fim da Linha em 2024 sob suspeita de lavar dinheiro para o PCC.
O ex-presidente da Câmara Municipal nega as acusações. Ao UOL, ele rechaçou as suspeitas que embasaram o mandado de prisão. "Não sou dono de empresa de ônibus e só assumi uma interlocução na SPTrans a pedido do Bruno Covas [ex-prefeito, morto em 2021], por causa da greve de 2019. Não tem nada de ilegal."
Diálogo entre membros do PCC levou a pedido de prisão. Documentos e mensagens obtidas pelos investigadores também são usados para sustentar a suspeita de influência de Leite sobre decisões no setor. Em diálogos interceptados, investigados e um suposto integrante do PCC mencionam o ex-vereador ao tratar de problemas envolvendo empresas de ônibus.
O UOL já havia revelado, em 2024, relações entre Leite e a Transwolff. Uma empresa da família do então vereador alugava um terreno para a concessionária. Advogado e contador ligados ao político também prestaram serviços à companhia durante a licitação do transporte público.
Investigação aponta dinheiro do PCC em campanha de Danilo Morgado

A operação também abriu uma frente diretamente ligada às eleições. Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual em 2026 e candidato derrotado à Prefeitura de Praia Grande em 2024, foi preso temporariamente na quinta-feira. A Polícia Civil e o Ministério Público investigam indícios de que sua campanha municipal tenha sido financiada por integrantes do PCC.
Segundo a investigação, diálogos encontrados em celulares apreendidos indicariam uma articulação para financiar campanhas políticas. No caso de Morgado, os investigadores apuram se recursos do esquema ligado às empresas de transporte foram usados em sua candidatura em Praia Grande.
A suspeita reforçou uma das linhas centrais da nova fase das investigações: a de que o dinheiro movimentado por empresas de ônibus sob influência do crime organizado poderia ultrapassar os limites das próprias concessionárias e alcançar disputas eleitorais.
A decisão judicial que autorizou a Vectura Corrupta cita justamente "articulações políticas" entre os elementos que compõem a estrutura investigada. Áudios periciados revelaram que o político teria aceitado auxiliar integrantes da facção a rastrear e cobrar uma dívida de R$ 7 milhões devida por um empresário, montante que seria revertido para alavancar sua campanha. Intermediários do esquema ajustavam tratativas para atuar como a "porta" entre a política e a facção, com o objetivo explícito de "blindar" Morgado e evitar sua exposição direta perante a liderança criminosa.
A assessoria de Danilo Morgado afirmou que a prisão é resultado de uma perseguição contra o político. "A assessoria jurídica já está adotando todas as medidas cabíveis para reverter essa prisão absurda que ocorreu claramente por motivos políticos", diz nota publicada no Instagram de Morgado. O comunicado diz ainda que o candidato não cometeu nenhum crime e que não há provas contra ele.
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