Incrédula com força de Flávio, eleitora de Lula diz que democracia está em jogo
No Cocó e no Meireles, bairros de Fortaleza onde a classe alta ergue condomínios verticais e se locomove atrás de vidros fumês, a produtora cultural Mariana Marques, 44, circula sem se encaixar nos rótulos reservados aos moradores da área.
"Acho engraçado quando algum amigo diz que fulano falou que sou esquerdinha, que sou petista", diverte-se. "Se tiver que me autodenominar alguma coisa, digo que faço oposição ao PT em certos momentos porque estou mais à esquerda do que o próprio PT." Apesar das críticas, ela declara voto em Lula.
E, ainda que tenha decidido ficar "quieta nas redes" até o primeiro turno, o resultado das urnas mudou tudo. "Agora não consigo mais. É a nossa história que está em jogo, a história de uma democracia conseguida a duras penas", avalia ela, que diz estar "incrédula, um pouco anestesiada" e ainda se sentindo "muito culpada (e isolada) por ter acreditado que o Brasil não elegeria Flávio".
A trajetória de Mariana reflete as contradições de uma cidade que ela define como "profundamente densa e desigual". "Na escola eu era muito playboy para andar com os alternativos e muito alternativa para andar com os playboys", ri a fundadora da Auê, principal feira criativa da capital cearense.
Nascida em 1982, Mariana cresceu numa família de funcionários públicos estaduais que define como tendo forte consciência de classe. Teve privilégios, como escolas particulares, intercâmbio no Canadá e aulas na melhor escola de inglês da cidade, mas ouvia dos pais que era de classe média e deveria valorizar o investimento em sua educação.
O maior legado político, contudo, veio da avó materna, Rita Marques, a "Tia Rita". Branca e privilegiada de nascimento, ela rompeu com o centro financeiro de Fortaleza para morar na comunidade do Farol do Mucuripe, onde conviveu com prostitutas e ajudou-as a fundar uma associação para que pudessem pagar o INSS e se aposentar.
Ligada à Teologia da Libertação, corrente cristã que defende a transformação das estruturas sociais que produzem desigualdade e injustiça, e à Irmandade do Servo Sofredor, fundada pelo padre suíço Alfredo Fred Kunz (1920-2000), Tia Rita fez voto de pobreza.
Durante a ditadura militar, foi presa ao fazer greve de fome em São Luís do Curu, na Grande Fortaleza. Andou pelo Araguaia com a foto de Bergson Gurjão, estudante acolhido em sua casa e depois desaparecido nas mãos do regime. Também era amiga de Frei Tito, ícone cearense da resistência à ditadura.
"Perto dela, sou um pequeno verme", brinca Mariana. "Ela deu a vida pelo outro." A herança moral, diz, moldou sua visão de Brasil: "O que eu tenho para dar é fruto dessa formação".
Além da avó, cita a mãe, assistente social, as tias e Terezinha, trabalhadora doméstica que se tornou costureira e permaneceu ligada à família. "É preciso uma vila para criar uma criança, e eu tive a vila."
Publicitária, Mariana diz que "nunca conseguiu fazer uma coisa só". Foi professora de reforço de português, revisora de monografias e redatora de agência.
Na esfera pública, trabalhou no cerimonial do projeto de alfabetização de adultos de Beatriz Alcântara, então primeira-dama na gestão de Lúcio Alcântara e, em 2013, gerenciou a comunicação digital da prefeitura de Roberto Cláudio, então no PSB e hoje no União Brasil.
Passou 15 anos na Catarina Mina, marca de moda artesanal pioneira na adoção de uma política de "custos abertos", que revela quanto cada artesã recebe por peça.
Hoje, organiza a Auê, que ocupa mensalmente o Centro Cultural Dragão do Mar e reúne mais de 400 pequenos empreendedores cadastrados. Como a feira ainda enfrenta dificuldades financeiras, seu principal sustento vem do marketing de afiliados. Mariana administra uma comunidade de WhatsApp em que são indicadas ofertas de grandes varejistas parceiros.
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Filiou-se ao PSOL em 2018, numa tentativa de compreender melhor a dinâmica partidária, mas se afastou da disputa institucional por considerar que lhe faltam a "disciplina e estabilidade emocional" exigidas pela militância diária.
Longe das amarras institucionais, segue liderando a feira e redes de apoio voluntário, como o projeto de padarias artesanais da vice-primeira-dama Lu Alckmin. "A base da política é a empatia", afirma.
Na pandemia, enquanto a feira estava impedida de funcionar, engajou-se num projeto de combate à fome. "Uma amiga me provocou e, quando eu vi, a gente estava entregando 8.000 refeições semanalmente."
É essa vivência que ela diz alimentar sua indignação contra a desinformação reacionária. Ela cita um vídeo do deputado federal André Fernandes (PL), no qual alegava falsamente que escolas municipais de Fortaleza tinham cartilhas sexuais e banheiros unissex. "Eu liguei para minha irmã, professora municipal há 14 anos na periferia de Fortaleza, e ela estava arrasada porque inventavam isso."
A escolha eleitoral de Mariana também é marcada por memórias afetivas. Recorda as viagens ao sertão de Tauá, terra da mãe, onde a falta de luz era regra no bairro Sabugi. "A partir do lugar do privilegiado, às vezes a escassez é poética", reflete. "Mas Lula prometeu luz e, meses depois, o Sabugi tinha energia elétrica."
No segundo turno de 2022, Lula venceu nos 184 municípios do Ceará, com quase 70% dos votos válidos. Para 2026, Mariana havia decidido votar e trabalhar pela reeleição do presidente, a quem, apesar das críticas que tem ao PT pela esquerda, considera um estadista necessário.
É na memória da avó que Mariana busca forças para enfrentar o momento. "Quando me sinto fraca, ganho forças ao pensar no que sofreram meus antepassados, após o golpe de 1964. Se minha avó aguentou, que não tinha nem perto os privilégios que eu tenho, minha obrigação é aguentar."
A resposta, diz, é permanecer "de pé, atenta, empática e com disposição pra conversar".
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