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Wednesday, October 7, 2026

Crônica: torcer (pelo Santa Cruz) e não ter a vergonha de ser feliz

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Torcida do Santa Cruz na Arena de Pernambuco antes de jogo contra o Maringá — Foto: Marlon Costa

Mas vendo as imagens desta campanha cinematográfica do acesso para a Série B, percebi algo que foge ao senso comum futebolístico, muitas vezes machista e violento: basta vestir o manto coral e seguir para qualquer estádio onde o time for jogar, que surge uma alegria diferente, como se aquelas horas, destinadas às três cores, fossem sagradas. Os problemas ficam para depois.

É o momento de deixar a criança, que cada um leva na alma, brincar de viver em outro mundo. O mundo em que homens e mulheres podem ser crianças. O mais durão abraça o desconhecido ao lado como se fosse seu irmão.

Nesta campanha do acesso para a Série B (e que nunca tenhamos mais que passar por isso), os gols eram comemorados com choros, risos, abraços... E crianças, muitas crianças, no meio desta felicidade.

É uma torcida que não larga a mão do clube, e nunca esquece de quem veio antes.

Torcida do Santa Cruz lota a Arena de Pernambuco em jogo contra o Maringá — Foto: Marlon Costa

Em qualquer entrevista, após o jogo, os mortos são lembrados. O pai que já morreu, um tio que levava os sobrinhos para o Arruda (eita, que saudade…), o vizinho que deu a primeira camisa... E logo vem choro coral, particular, de infância, saudade e esperança.

O torcedor coral tem este dom: nunca perde a esperança e a alegria - por isso é tão querido por grandes jogadores, pelo Brasil inteiro.

Nesta campanha memorável, time, torcida e diretoria se abraçaram. Quando isso acontece, não tem quem segure a cobra coral.

Pedro Favela comemora gol pelo Santa Cruz contra o Maringá — Foto: Marlon Costa

Passei os últimos quatro anos em São Paulo e sofri à distância, longe do meu povo das três cores.

Voltei para o Poço da Panela, onde tive a felicidade de ir para os jogos do Santa infinitas vezes, com vários amigos, na lendária “Kombi Coral!” do inesquecível Naná.

Não consegui ingresso para o último jogo e assisti na super TV de Boy e Ninha, à beira do Rio Capibaribe, com churrasco dos bons.

Presidente do Santa Cruz, Bruno Rodrigues dá "flecheiro" na piscina do Arruda

Presidente do Santa Cruz, Bruno Rodrigues dá "flecheiro" na piscina do Arruda

Já no final do jogo, vi Boy chorando forte, perguntei a Ninha se ele estava bem.

"Tá tudo bem. É que ele sempre lembra de Naná, e começa a chorar".

Choremos, amigos corais, nossas santas lágrimas das crianças e da redenção.

Agora é buscar o título, arranjar dinheiro para reformar o Arruda, que é nossa casa de verdade, nunca mais passar por esses perrengues.

Choro, só de felicidade.

Para Samir, de quatro anos e meio, que ainda não conheceu o Arruda.

*Samarone Lima é jornalista e poeta, e fundou, com Inácio França, há alguns anos, o “Blog do Santinha”, de crônicas sobre o Santa e sua torcida, que resultou em três livros: a “Trilogia das cores”. É também fundador da Troça “Minha Cobra”, que inunda Olinda, no Carnaval, com a felicidade coral.

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