O novo acordo na Gronelândia afasta a China e a Rússia?

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Este é o Domínio da Guerra da Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões, comigo já está o major-general Arno Moreira. Bom dia!
Olá, muito bom dia a todos.
No passado fim de semana tivemos as eleições parlamentares para a Duma, a Câmara Baixa da Assembleia Federal da Rússia. Como se esperava, o partido de Vladimir Putin, o Rússia Unida, ganhou com cerca de 58% dos votos, o que lhe permite uma maioria muito confortável na Duma. General, o que é que fica destas eleições e do processo?
A operação militar especial não está a correr muito bem, mas a operação militar eleitoral correu muito bem. 58% são os números da vitória e é o número politicamente adequado para isto. Se Putin quisesse 65%, teria tido 65%.
Exato.
Mas por que é que 58 é um número adequado? Por um lado, porque não é um número esmagador, portanto, se fosse 65 ou 70, toda a gente diria que é uma fraude brutal. Portanto, 58% está dentro daquele limite em que a vitória é esmagadora, mas o número não é assustador. Primeira questão. Segunda, é suficiente para ter capacidade de revisão constitucional. Portanto, os resultados da operação eleitoral especial resultaram em cheio. Por que esta vitória foi desta dimensão? Putin está no poder há 27 anos, conhece os russos e a Rússia muito bem. Está sempre no poder. Ele esteve sempre no poder, umas vezes como primeiro-ministro, outras como presidente, esteve 27 anos no poder. E portanto, ele conhece muito bem quais são as notas que tem que meter na melodia da sua narrativa para encantar a população russa. Ele tem uma enorme vantagem à partida, porque conhece muito bem todos os cordelinhos que é necessário mexer. Depois, porque em tempo procedeu à eliminação física de todas as figuras que se tentaram atravessar no caminho. Estamos lembrados de Navalny, que foi morto de frio, e de Prigozhin, que veio juntamente com o seu avião, despenhando-se dos céus da Rússia. Depois, porque esvaziou o debate político interno. Por exemplo, nesta campanha eleitoral houve muitos debates televisivos sem candidatos. Os candidatos não apareceram. Não apareceram por quê? Porque é perigoso aparecer a dar opiniões sobre várias matérias e, portanto, acharam que arriscavam menos não aparecendo nos debates televisivos do que utilizando o tempo dos debates televisivos. Depois, o domínio absoluto da comunicação social. Os principais comentadores televisivos não apenas fazem parte do partido, como dominam todo o espectro mediático da Federação Russa. Portanto, não era de esperar outra coisa que não fosse um resultado deste género. Houve fraudes, claro, há vídeos a mostrar montanhas de fraudes, mas ganharia sempre com fraude ou sem fraude. A fraude demonstra uma outra coisa: é que o amor ao líder de algumas pessoas leva-as a cometer fraudes, isto é, acham que podem também contribuir para a vitória e leva estas pessoas que estão junto às mesas de voto a ter também um conjunto de ações pouco recomendáveis, mas para a glorificação do líder. Há uma última nota que eu gostava de deixar sobre estas eleições. Desconhecemos a votação nos territórios ocupados. Como é que isto foi efetivamente conduzido? As pessoas votaram ou não votaram? Que tipo de coação foi exercida sobre estas pessoas? Segundo aspeto, a militarização da Duma. De acordo com os números que tenho, o número de deputados eleitos que estiveram envolvidos na guerra da Ucrânia é de 86. Isto é um número brutal. Uma parte significativa da Duma é agora constituída por militares ou por ex-militares. Isto é, há uma militarização da sociedade russa com expressão também agora no poder legislativo. Claro que há uma exploração agora, naturalmente de natureza política, porque Vladimir Putin vai utilizar, e já está a utilizar, aquilo que foram estes resultados eleitorais como a expressão de um apoio à guerra na Ucrânia. Isso, portanto, vai-lhe dar uma assertividade do seu discurso, quer de natureza interna, quer também de natureza externa. E a propósito da natureza externa, esta semana tivemos, na quinta-feira, a notícia de que a CIA tinha alertado vários países europeus para a possibilidade de drones militares russos serem lançados a partir de plataformas marítimas, daquilo que se chama a frota fantasma russa.
Espanha, França e Itália.
Esta notícia tornou-se viral.
Como é que o general olha para isso?
Eu desconfio muito desta notícia. Trabalhei em intelligence durante muitos anos. Desconfio muito que a CIA faça um relatório destes. Desconfio muito, porque todos os analistas de intelligence têm a noção clara de que uma coisa são capacidades e outra coisa é uma ameaça Eu tenho um martelo em casa, na minha caixa de ferramentas. O martelo é perigoso, mas ninguém me reconhece como uma pessoa perigosa, porque sabem que eu não tenho intenção de utilizar o martelo. Isto é, não é apenas a capacidade que se transforma numa ameaça, é a intenção. É preciso haver intenção para que uma determinada capacidade se transforme numa ameaça. Se não houver intenção, não há ameaça. Ora, a mim parece-me que no caso da análise da CIA, não sabemos se existiu. Quer dizer, nós não sabemos, nós não conhecemos este relatório. Eu não sei se este relatório existe e se existe nos termos em que o jornal espanhol El Mundo o anunciou. Não sei. Tenho seríssimas dúvidas sobre isto e vou tentar explicar porquê. Porque é que há aqui uma diferença muito grande entre o que são capacidades e o que são intenções. As capacidades, claro que existem. A Federação Russa todos os dias lança mísseis, lança os drones militares contra a Ucrânia. Portanto, capacidade tem, tem capacidade de lançamento. Tem capacidade de os meter em contentor? Tem, mas já é um processo em que é preciso desmontar os drones. Se é preciso desmontar, depois é preciso também montar. Isto é um processo também muito complicado, porque os drones são grandes, têm 2,5 m de envergadura.
Nada seria despercebido, consequentemente.
Um drone provoca poucos estragos, um drone destes tem 4 kg de explosivo. São precisos centenas de drones para provocar algum tipo de efeito. Depois, lançá-los a partir da frota russa. Mas então no dia seguinte temos um bloqueio à frota russa. Só há dois sítios por qual a frota russa avança: ou pelo Báltico ou através do Mar Negro, Dardanelos, etc., Bósforo. Ou seja, muito facilmente se monta uma operação para mandar parar todos os navios com origem na Rússia para os inspecionar. Ou seja, isto é uma operação que não parece assim muito credível do ponto de vista da coisa.
Por que é que isto está a acontecer?
Porque a notícia em si é que constitui a guerra híbrida. É a notícia em si que constitui a guerra híbrida e o que estamos a fazer com ela, porque estamos há três dias ou há dois dias a discutir este assunto e a assustar as pessoas, quando, na verdade, o que estamos a fazer é contribuir também para a guerra híbrida. Portanto, a Rússia tem capacidade de fazer isto? Tem capacidade de o fazer, mas se a Rússia atacar através de uma plataforma destas com um drone de natureza militar, é uma declaração de guerra. Já não estamos na guerra híbrida. A guerra híbrida parte do princípio que nós não conseguimos atribuir uma culpa, uma intenção àquela atividade. Ora, se um drone de natureza militar é lançado de uma plataforma russa, é uma declaração de guerra. Não estou absolutamente convencido que a Federação Russa queira instalar o sentimento de que um país da NATO ou europeu foi atacado, porque isso vai conduzir imediatamente à paralisação de toda a sua frota fantasma e, portanto, ao declínio mais rápido da sua economia.
Vamos até Nova Iorque. Aproveitando a abertura de mais uma sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, foram muitos os líderes mundiais que aproveitaram a ocasião para discursar e para encontros de bastidores. General Aarão Mourão, que importância é que têm estes espaços no atual quadro geopolítico atual?
Vou começar aqui por um segredo que fica só entre nós. Estou cansado das Nações Unidas e do espetáculo degradante da Assembleia Geral. Pronto, agora que já ninguém nos ouve. Aquelas pessoas são diplomatas profissionais que estão ali. São treinados para ouvir discursos, gostem dos discursos ou não gostem dos discursos.
Mas vimos muitas salas vazias, não é?
Aquilo parece uma multidão de entradas e saídas de protesto, como se faz em protestos juvenis. Parece um conjunto de juvenis, incapaz de estar sentado e de ouvir os discursos agradáveis e desagradáveis, porque a Assembleia Geral das Nações Unidas é exatamente para isto. É para estarem sentados, bem comportados, ouvindo os discursos, gostem ou não gostem desses discursos. O espetáculo degradante de estarem sempre a levantar-se, a entrar e a sair, ou a chegarem de propósito atrasados para não ouvirem. Enfim, isto é um espetáculo degradante que contribui também para uma imagem das Nações Unidas como um sítio pouco respeitável. Eu não sei se fui longe demais hoje, mas estou muito assertivo.
Eu estou a gostar muito de ouvir, acho que está muito assertivo.
Estou muito assertivo nesta área. Um espetáculo degradante, a Assembleia Geral das Nações Unidas. O que é importante na Assembleia Geral das Nações Unidas? É a oportunidade de, nos bastidores, haver o recato suficiente e a boa educação para que se possam conduzir conversações multilaterais ou bilaterais ao mais alto nível. A parte discursiva da assembleia está insuportável hoje em dia, mas a reunião das delegações diplomáticas dos vários países permite, ali nos corredores, nos bastidores, nas salas de reunião, permite avançar para o desbloqueio de algumas das perturbações que afetam o sistema internacional. Mas foi um espetáculo, do meu ponto de vista, absolutamente degradante. Pronto, eu hoje estou muito assertivo.
Entretanto, Xi Jinping está desde quarta-feira de visita a Washington. No espaço de um ano, é a terceira vez que Donald Trump e Xi Jinping se encontram. O que é que podemos esperar desta vez? Vai-se embora hoje.
Vai-se embora hoje. Talvez abordasse isto da seguinte maneira: há na política externa duas dimensões que coexistem. É a dimensão afetiva e a dimensão institucional. A dimensão afetiva tem a ver com o fato de eu não prestar a mesma atenção a todos os países do mundo. Há países com os quais eu me sinto identificado. Eu gosto de ouvir o Brasil, gosto de ouvir Angola, gosto de ouvir aqueles países com quem nós desenvolvemos um conjunto de relações de natureza afetiva e que nos sentimos próximos. As preocupações deles são também as minhas preocupações. Portanto, há um lado afetivo nas relações internacionais que tem uma certa dimensão e uma certa importância. Mas o lado afetivo não pode afetar o lado institucional, e esse é que é o problema.
O equilíbrio.
Eu não posso agora substituir aquilo que é a defesa dos meus interesses, que tem a ver com o lado institucional, por aquilo que são os beijinhos e os abraços que eu posso trocar com os líderes que admiro. Estou também a ser suficientemente claro nisto. O fato de eu chamar o meu grande amigo Vladimir ou o meu grande amigo Xi, não altera as relações institucionais entre os Estados Unidos e a China e a Rússia. Não altera as relações institucionais. Portanto, o que nós tivemos aqui nesta visita, foi mostrar o relevo das relações de natureza pessoal e afetiva que se estabeleceu entre o líder daquilo que deveria ser a nação mais livre do mundo e um conjunto de autocratas. Dar valor a essa relação de natureza pessoal, quando do ponto de vista institucional, não houve avanço nenhum, em área nenhuma. A única coisa palpável que houve desta reunião, foi que os dois concordaram em prolongar as tréguas até 1 de janeiro. O que significa isto? Que não conseguiram resolver esse problema. Isto é, vão prolongar as tréguas para dar tempo, e ver se ainda conseguem encontrar uma solução. Na inteligência artificial, não conseguiram nenhuma plataforma de entendimento. Cada um fez o seu discurso que queria fazer, um sobre Taiwan e outro sobre o Irão, mas não houve aproximação nem resolução nenhuma aqui. Portanto, foi uma visita feita dentro daquilo que eu considero o nível das relações pessoais, mas não houve um aprofundamento de natureza institucional que justificasse esta visita.
John Culver, o enviado especial de Donald Trump, tem se encontrado com Lukashenko com alguma regularidade. Cada vez que visita Minsk, consegue a libertação de algumas dezenas de prisioneiros políticos, em troca de alívio de sanções econômicas à Bielorrússia. Mas há aqui alguma coisa que não bate certo. Então a administração Trump dá agora relevo aos direitos humanos nas suas relações com os Estados autocráticos, General? Que cortina de fumo é esta?
Este tema já esteve em cima da mesa várias vezes para vir aqui.
Tinha que ser desta, não é?
Tinha que ser desta. Esta semana é que veio a chave de tudo isto. Qual era a lógica disto? Por que a Bielorrússia estava sancionada pelas violações sistemáticas dos direitos humanos? Havia um conjunto de sanções aplicadas pelos Estados Unidos, aplicadas também pela Europa, à Bielorrússia. Portanto, é natural, dentro deste quadro geral, cada vez que houvesse um alívio da situação política interna e da repressão política interna por Lukashenko, que houvesse uma diminuição daquilo que eram as sanções. E portanto, a narrativa que nos foram vendendo aqui no meio disto tudo é que Lukashenko ia libertando prisioneiros políticos e que, por outro lado, as sanções iam diminuindo. Só que não é nada disto que se está a passar. À medida que vai tendo as prisões libertas, vai prendendo novas pessoas. Por quê? Porque sabe que isso é a moeda de troca para se ir vendo livre das sanções. Isto é, a Bielorrússia continua a ser o mesmo Estado autoritário, antidemocrático e priva pessoas dos seus direitos de liberdade por razões políticas e continua a encher as suas prisões. Então por que isto acontece do ponto de vista dos Estados Unidos? Tornaram-se agora os arautos da defesa dos direitos humanos. Não, porque na guerra que tem com o Canadá, os minerais de potássio necessários aos fertilizantes dos agricultores, que são a base eleitoral de Donald Trump, deixaram de fluir como fluíam. Donald Trump anda à procura dos minerais de potássio da Bielorrússia. E portanto, toda esta cortina de fumo da libertação dos prisioneiros políticos só tem a ver com os fertilizantes, não tem a ver com mais nada.
O acordo assinado esta semana sobre a Gronelândia é o tema que hoje trazemos para o nosso Ponto Mina. General, o que devemos salientar neste novo acordo assinado pelos Estados Unidos, Dinamarca e Gronelândia?
Este acordo é muito interessante e do meu ponto de vista não tem sido Há muita gente que detesta Trump. É fácil detestar Trump. E então a teoria que apareceu é este acordo: mas isto era o que já estava no acordo de 1951. Não é bem assim, não há nada de igual entre o acordo de 51 e o acordo agora assinado. E é isso que eu vou aqui procurar mostrar. Os Estados Unidos começaram a construir bases militares na Gronelândia durante a Segunda Guerra Mundial. Aquela era uma área especialmente sensível, que tinha poucas bases militares, e os Estados Unidos reconheceram que havia ali uma debilidade neste flanco, no seu caso, é o flanco norte. Durante a Segunda Guerra Mundial e depois durante a Guerra Fria, os Estados Unidos tiveram na Gronelândia 17 bases militares e tinham estacionados na Gronelândia mais de 10 mil soldados. Portanto, era uma coisa significativa. Hoje em dia, os Estados Unidos, na verdade, têm praticamente só uma base operacional, que é Pituffik, e tem lá 150 militares. Portanto, os próprios Estados Unidos também deram pouca importância a isto. Entretanto, começa a cena dos mísseis balísticos e dos mísseis intercontinentais, e os Estados Unidos sabem que é através daquela região, é através do Ártico, que chegarão os mísseis balísticos intercontinentais. E nesse caso, é preciso pôr um sistema de alerta avançado na Gronelândia. Muito bem.
E não vai lá com uma base, apenas.
E não vai lá só com uma base. Mas o que é que acontece? Acontece que o acordo de 51 é insuficiente para isto. E é isso que eu agora vou explicar aqui num instante. O tratado de 1951 era entre os Estados Unidos e a Dinamarca. Isto é, a Gronelândia era parte da soberania da Dinamarca, o acordo era entre os Estados Unidos e a Dinamarca. Mas entretanto, a Dinamarca abriu espaço para um processo de autodeterminação da Gronelândia. Isto é, o acordo de 51 não servia para nada, porque a Gronelândia tornando-se independente, não ficava dependente do acordo assinado pela Dinamarca. Ela não tinha sido parte, este foi um acordo, poderia até dizer, dos tempos coloniais. Eu agora não fico obrigado a estes acordos, agora eu sou uma nação independente. Isto é, ao abrir o processo de autodeterminação como uma possibilidade, os Estados Unidos ficaram alarmados, porque o acordo de 51 deixava de vigorar se a Gronelândia se tornasse independente. E é por isso que nesta cerimônia nós temos presente os Estados Unidos, a Dinamarca e o governo regional da Gronelândia, para fixar a Gronelândia a um acordo ao qual ela não estava vinculada se se tornasse independente. Este é o primeiro espaço. Segundo, é que os Estados Unidos ganharam uma coisa que não tinham, que é a capacidade de influenciar as decisões de natureza estratégica de uma futura eventual Gronelândia independente. Isto é, as bases militares que podem lá ser instaladas ou são da NATO ou são dos Estados Unidos, e não haverá investimentos estratégicos por parte da Rússia ou por parte da China que possam influenciar aquilo que é a orientação política do governo da Gronelândia. Portanto, não vale a pena também diminuir muito Trump. Isto é um excelente acordo para os Estados Unidos, é um excelente acordo para a Dinamarca, que resolveu um problema com um aliado, que era um problema que estava a tomar dimensões consideráveis e que perturbava, naturalmente, as relações. A Dinamarca poupou imenso dinheiro, porque os Estados Unidos agora é que vão assegurar a defesa militar da Gronelândia, portanto, não é a Dinamarca que tem que lá meter forças. E, por outro lado, todos nós europeus, incluindo a NATO também, temos agora um flanco que vai ser protegido pelos Estados Unidos. Portanto, não precisamos de deslocar forças europeias para os terrenos gelados da Gronelândia. Foi bom para todos.
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