Annie Silva Pais: do luxo às senhas de racionamento

Depois de dois meses escondida numa casa que o regime cubano lhe arranjou, Annie Silva Pais, a mulher que vivia na zona mais luxuosa de Havana, instalou-se sozinha no número 1456 da Calle 33, no bairro do Nuevo Vedado, numa casa cedida pelo estado cubano.
“Há o centro da Habana, Habana Vieja, colonial, etc, depois atravessa-se o rio e entra-se na zona mais chique. Aliás, as pessoas de cor no tempo da ditadura do Batista não podiam passar aquela ponte sobre o rio. Só brancos é que podiam passar. E depois há uns bairros melhores, que é o Vedado, a seguir o Nuevo Vedado e depois a zona das embaixadas onde está a residência de Portugal, que é designado pelo Country Club”, descreve o embaixador Alfredo Duarte Costa. Apesar de nunca ter conhecido Annie, diz que a casa onde ela morou se destacava por ter uma “arquitetura fora do normal”.
Já Rui Ferreira e o empresário José Paulo Fafe, que viveu em Cuba durante os anos em que o pai foi embaixador de Portugal em Havana e conheceu Annie quando era adolescente, recordam uma casa humilde, onde sempre houve fotografias dos pais — e também uma grande moldura onde se podiam ver Che Guevara e Fidel Castro a andar por um corredor. A completar a decoração, descrevem, Annie tinha uma imagem da Virgem de Fátima, um galo de Barcelos e uma matrioska russa.
Mora na companhia de dois cães e leva uma vida simples. Começa logo a trabalhar na Organização de Solidariedade com os Povos de África, Ásia e América Latina, um organismo que serviu para apoiar a Tri-Continental. Depois, passa para o Departamento de Guias e Congressos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, onde só trabalham pessoas de confiança do regime cubano. E, mais tarde, será integrada na Equipa de Serviços de Tradutores e Intérpretes de Cuba e vai tornar-se uma das tradutoras mais respeitadas e requisitadas.
Tal como fazem os cubanos, na sua nova vida Annie passa a ter de usar senhas de racionamento para comprar bens essenciais. Aliás, Raymond Quendoz fica a saber que a mulher voltou a Havana exatamente por isso: um antigo colega conta-lhe que a viram com uma senha na mão, numa fila para comprar comida. O diplomata suíço considera a mudança tão abjeta que nem sequer tenta contactá-la. Décadas depois, em entrevista aos autores de “A filha rebelde”, há de explicar porquê: “Para mim, ter uma mulher que se passou para um regime comunista era intolerável”.
Ao contrário do que fazia na embaixada, Annie passa a comprar comida e a cozinhar. Rui Ferreira, que foi visita habitual dela durante vários anos, lembra-se que a comida que fazia era sempre cubana. “Não fazia nada português”, era quase sempre “arroz com feijão e frango”.
E a vontade de se integrar na sociedade cubana era tanta que, de vez em quando, usava o uniforme dos membros das milícias nacionais revolucionárias, criadas para defender o novo regime, mas também para mobilizar civis. Vestia “umas calças beges, com uma camisa estilo ganga e boina”. José Paulo Fafe conta que Annie aparecia “toda orgulhosa, com o seu uniforme, porque estava de serviço nesse fim de semana”.
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