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Saturday, September 12, 2026

Ali Asgari: “No Irão, tudo é político”

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Os espectadores portugueses só há pouco conheceram o trabalho de Ali Asgari (Teerão, 1982), desde Divina Comédia, estreado este ano, em Abril. Asgari é cineasta há uma década. Tem firmado obra segura, em crescendo, divulgada nos principais eventos da Europa. Chega agora, por fim, a competição principal de um grande festival, e traz presente que é experiência vivida de hoje, de notícias que todos os dias nos entram pela casa adentro — às tantas, alguém coloca em cruz, de alto a baixo, fita adesiva numa porta envidraçada, não vá uma bomba de Trump cair por ali e deixar tudo em estilhaços. E a vida continua… Tem de continuar.

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Asgari tem acrescentado frescura à cinematografia iraniana, uma das mais valiosas do planeta. Os persas têm jeito para os filmes, não há nada a fazer. Desta vez, Asgari pediu ao excelente Missagh Zareh (o oficial de justiça que protagonizou A Semente do Figo Sagrado, de Rasoulof) que interpretasse Arash, um médico com vontade de dizer basta a si próprio. Para ele, a gota de água transbordou com os  feridos que ele socorreu quando lhe chegaram a sangrar das manifestações contra a polícia. Valeu-lhe, na clínica, raspanete decisivo do chefe: as autoridades não gostaram, querem pôr trancas à porta.

Mohammad Rasoulof, a partir desta sexta, numa grande edição do Curtas

A personagem principal de A Bit of Light decide suicidar-se. É quase impossível não pensar em O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami, e na personagemque procurava o mesmo fim. Tinha essa referência presente quando fez o seu filme?
Claro. Kiarostami é uma das minhas grandes inspirações. Há dois realizadores que me inspiraram particularmente neste filme: Kiarostami e Nanni Moretti. Kiarostami, por O Sabor da Cereja, como diz. E, de Moretti, marcou-me para a vida O Quarto do Filho, que também fala das consequências de uma tragédia. Existe, contudo, uma diferença importante entre O Sabor da Cereja e o meu filme. Escolhi falar, não dos grandes dilemas que se colocam ao Homem, mas das pequenas esperanças, dos pormenores da vida que fazem a personagem continuar. É por isso que vemos tantos e tão pequenos gestos do quotidiano. Arash percebe que estão neles a resposta para tudo: para a guerra, a repressão, a falta de liberdade. Nada está resolvido.

Mas a vida é isso, os nossos pequenos detalhes, tudo o que fazemos sem nos darmos conta. Às vezes, perante todas as notícias e todas as coisas terríveis que estão a acontecer-nos, esquecemo-nos dos pequenos detalhes da vida. Esquecemo-nos da família. É o essencial. Queria que o filme transmitisse a sensação de que a vida é feita disso. Ao aceitar a tragédia, talvez percebamos o valor de continuar.

É curioso que o médico queira pôr termo à sua existência, sem esquecer que a sua missão — o seu juramento de Hipócrates — é salvar vidas. Pouco importado com o que o espera, paradoxalmente, ele continua comprometido com a vida dos outros.
Ele sente constantemente que a vida o persegue. É isso que acontece também na cena com o homem ferido. É esse o contraste: o médico quer morrer, mas a vida não deixa. A vida continua a vir ao seu encontro. A mulher que precisa dos medicamentos, o homem ferido, as pessoas que precisam dele… Há sempre alguém a chamá-lo de volta.

Não há algo de absurdo nessa ideia?
Para mim, toda a ideia do filme é um pouco absurda. O médico está a tentar convencer os outros de que quer suicidar-se. Foi daí que o filme partiu, em parte. Mas, depois deste mês de Janeiro, deixe-me que lhe diga: a situação no Irão tornou-se realmente triste e deprimente. Eu tinha imaginado A Bit of Light de outra maneira, a atirar para a ironia, como os meus dois filmes anteriores. Mas percebi que, naquele período, era impossível fazer uma comédia ou algo desse género. Ao mesmo tempo, fui introduzindo pequenas piadas, porque elas também vêm da vida normal, do quotidiano. Muitos dos diálogos que ouvimos no filme são coisas que acontecem realmente na sociedade. Queria, de alguma maneira, normalizar um pouco a amargura da situação que a personagem atravessa.

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