Coca-Cola anuncia US$ 7 bilhões em investimentos na América Latina: 'Estamos só começando'
Mesmo depois de 140 anos de história, a Coca-Cola acredita que ainda há muito espaço para crescer. A multinacional, que está presente em mais de 200 países e territórios, prepara uma nova fase de expansão na América Latina, com investimentos bilionários, novos produtos e estratégias para conquistar consumidores em diferentes mercados.
Entre os planos estão US$ 6 bilhões em investimentos no México e US$ 1 bilhão no Peru, previstos para um período de cinco anos, além dos R$ 30 bilhões já anunciados para o Brasil até 2030.
Em entrevista exclusiva à EXAME, realizada na sede da Coca-Cola, no Rio de Janeiro, Bruno Pietracci, presidente da Coca-Cola na América Latina, afirma que a companhia pretende aproveitar a força de suas marcas e a experiência de seus parceiros engarrafadores para acelerar o crescimento na região.
"Nós, em conjunto com os nossos sócios fabricantes, temos renovado o nosso apetite para investimento na América Latina", afirma Pietracci. "Apesar de termos um negócio bastante sólido aqui, a gente sempre acredita que o melhor está pela frente."
Para o executivo brasileiro, que já passou por operações da companhia na Colômbia e na África, o crescimento dependerá da capacidade de inovar, ampliar a distribuição e adaptar produtos às preferências de cada mercado.
A história da Coca-Cola na América Latina
A história da Coca-Cola na América Latina começou em 1906, no Panamá, com o início das operações de engarrafamento da bebida. Desde então, a multinacional ampliou sua presença pela região e, 120 anos depois, atua em 40 mercados latino-americanos, incluindo países e territórios do Caribe.
“Celebramos 120 anos no Panamá, 100 anos no México e 85 anos no Brasil”, diz Pietracci.
E, mesmo com mais de um século de presença na região e reunindo dois dos maiores mercados (México como 2º maior mercado da Coca-Cola no mundo, e o Brasil em 4ª lugar), Pietracci acredita que a multinacional está apenas no início de uma nova fase e por isso define em uma palavra o momento de sua gestão na região.
"Oportunidade. Porque a gente está só começando", afirma o presidente.

Coca-Cola prepara investimentos bilionários no México e no Peru
O México ocupa uma posição estratégica nos negócios da Coca-Cola. Segundo Pietracci, o sucesso mexicano está diretamente relacionado à força dos parceiros engarrafadores e à capacidade de manter investimentos mesmo em momentos de instabilidade econômica.
"A grande receita do México foi um grupo de famílias empreendedoras que assumiram o desafio de levar a Coca-Cola e os seus produtos a cada esquina do país e um grupo de executivos que se encarregou de fazer uma marca que já tem 140 anos no mundo e 100 anos no México continuar sempre jovem e sempre relevante para as novas gerações", diz.
O executivo destaca que o mercado mexicano manteve sua capacidade de expansão mesmo em períodos mais desafiadores.
"Mesmo nos anos difíceis, em que há algum vento contrário, o sistema mexicano sempre investiu, sempre encontrou formas de se adaptar e sair cada vez mais forte dessas crises."
Para sustentar essa trajetória, a companhia anunciou um plano de US$ 6 bilhões em investimentos no México nos próximos cinco anos.
No Peru, Pietracci mencionou um investimento de US$ 1 bilhão para o mesmo período.
Os aportes fazem parte da estratégia de expansão do sistema Coca-Cola, que reúne a multinacional e seus parceiros fabricantes e engarrafadores.
"No ano dos 100 anos no México, a gente está planejando os próximos 100 anos", afirma Pietracci.
A mesma visão de longo prazo se aplica a outros mercados latino-americanos, incluindo o Brasil, que o executivo considera um dos países com maior potencial de expansão.
'As oportunidades no Brasil são gigantes'
Embora o Brasil já esteja entre os maiores mercados da Coca-Cola no mundo, Pietracci acredita que a operação brasileira ainda pode ampliar sua participação nos negócios latino-americanos.
O executivo avalia que o tamanho da economia e da população brasileira não se reflete, na mesma proporção, no peso do país dentro da operação regional da companhia.
Apesar da relevância do Brasil em termos de população e Produto Interno Bruto (PIB) na América Latina, Pietracci afirma que o país ainda não possui uma participação nos negócios da Coca-Cola proporcional ao seu peso econômico na região.
"A gente ainda tem oportunidades aqui de crescer e ter uma representatividade que reflita o tamanho do Brasil na América Latina."
Para o presidente regional, a expansão não depende apenas da abertura de novas operações ou do aumento da capacidade produtiva. Ela também exige soluções que considerem as diferenças de renda, infraestrutura e hábitos de consumo entre as regiões brasileiras.
Nesse contexto, Pietracci cita uma viagem recente pelo país, realizada ao lado de Luciana Batista, presidente da Coca-Cola no Brasil, que passou por cidades como Porto Alegre, Juazeiro do Norte, Petrolina e São Luís.
"Cada estado tem uma realidade diferente e cada uma dessas cidades vai requerer uma solução diferente para a infraestrutura", diz.
A estratégia, segundo ele, é combinar processos comuns a toda a companhia com autonomia para que cada mercado encontre soluções próprias.
"O que a gente tenta fazer é ter um chassi em que todo mundo tem que se apoiar e dar liberdade para cada geografia poder criar sua própria solução."

Fábrica da Coca-Cola FEMSA, em Jundiai, SP: a engarrafadora mexicana tem no Brasil a maior operação em volume da Coca-Cola (Leandro Fonseca /Exame)
Um novo centro de inovação no México
Além dos investimentos em infraestrutura e distribuição, a Coca-Cola está reforçando sua estratégia de inovação na América Latina.
Uma das principais iniciativas é o Innovation Hub, criado no México em fevereiro de 2026, para aproximar as equipes responsáveis pelo desenvolvimento de produtos das áreas comerciais e de negócios.
Segundo Pietracci, a estrutura surgiu depois de a companhia identificar uma oportunidade de melhorar a conexão entre os laboratórios e as operações responsáveis por levar os lançamentos aos consumidores.
"Numa reflexão que a gente fez no ano passado, parecia faltar uma ponte entre o nosso laboratório, que desenvolve as fórmulas, os produtos e as embalagens, e o negócio", afirma.
O novo centro funciona como uma estrutura de gestão de projetos multifuncionais, reunindo diferentes áreas da companhia para acelerar decisões e tornar o processo de inovação mais eficiente.
"Ele ajuda a conectar tudo de uma forma que tenha princípio, meio e fim", diz.
A mudança também representa uma revisão da maneira como a Coca-Cola desenvolve e distribui novidades.
Em vez de lançar os mesmos produtos simultaneamente em todos os países, a companhia pretende selecionar as inovações mais adequadas a cada mercado.
Do guaraná com sabor de caju ao refrigerante de toranja
A adaptação de produtos aos hábitos locais é uma das estratégias da Coca-Cola para manter suas marcas relevantes em mercados com diferentes culturas e preferências.
No Brasil, a companhia trabalha com marcas regionais como Xarrua, no Sul, Guarapã, em Minas Gerais, e Guaraná Jesus, no Nordeste.
Pietracci também cita o desenvolvimento de uma Fanta com sabor de caju, pensado para atender às preferências dos consumidores nordestinos.
A mesma lógica é aplicada em outros países latino-americanos.
Na Colômbia, por exemplo, a companhia comercializa a marca Quatro, com sabor de toranja, uma fruta cítrica também conhecida como grapefruit.
"Praticamente em cada país a gente tem marcas e sabores locais muito fortes", diz.
Para Pietracci, a estratégia permite que a companhia combine a força de marcas globais com produtos capazes de estabelecer uma conexão mais próxima com os consumidores.
O executivo também cita a Topo Chico, marca mexicana de água mineral adquirida pelo sistema Coca-Cola há aproximadamente 15 anos, como exemplo de um produto regional que conquistou espaço fora de seu mercado de origem.
"A gente exporta do México para os Estados Unidos", afirma.
Coca-Cola também aposta em sorvetes com proteína
A diversificação do portfólio da Coca-Cola na América Latina vai além das bebidas.
No México, a multinacional também atua no segmento de lácteos e sorvetes por meio da Santa Clara, marca com mais de 100 anos de história que passou a integrar o sistema Coca-Cola há aproximadamente 15 anos.
Segundo Pietracci, a empresa possui entre 400 e 500 lojas de sorvetes no México e vem ampliando seu portfólio para acompanhar novas tendências de consumo.
Uma das apostas mais recentes é um sorvete com proteína, lançado em quatro sabores.
"Recentemente, a gente lançou um sorvete com proteína, que está sendo um grande sucesso. Tem quatro sabores já disponíveis", afirma.
A Santa Clara também alcançou um marco importante para a companhia. Segundo Pietracci, a marca passou a integrar, em 2025, o grupo de negócios da Coca-Cola que superaram US$ 1 bilhão em vendas.
"É uma marca que existe só no México e que chegou a esse grupo de estar entre as melhores do mundo", afirma.
Apesar do desempenho, a companhia não tem planos imediatos de levar a Santa Clara para outros países.
A presença da Coca-Cola no segmento de sorvetes, no entanto, também ocorre no Equador, por meio da empresa de lácteos Tony, responsável pela linha Topsy.
Brasil virou referência para o crescimento da Coca-Cola Zero
Outro segmento que ganhou importância na estratégia latino-americana é o de bebidas sem açúcar.
Segundo Pietracci, a Coca-Cola Zero apresenta crescimento em diferentes países da região, mas o Brasil assumiu um papel de destaque na expansão da categoria.
"A linha Zero tem crescido de forma geral em todos os mercados da América Latina, e o Brasil foi e está sendo ponta de lança", afirma.
O executivo explica que o mercado brasileiro começou a desenvolver iniciativas para estimular o consumo de bebidas sem açúcar antes de outras operações latino-americanas.
"O Brasil começou com ações para estimular o segmento de Zero antes dos outros mercados e mostrou o caminho para esses mercados: como se conectar com os consumidores, como se conectar com os clientes e fazer a exibição de uma maneira que seja mais atraente", diz.
O resultado foi a expansão dessas práticas para outros países da América Latina, além de ser o país líder em consumo de Coca-Cola Zero no mundo.

Brasil é o maior mercado consumidor da Coca-Cola Zero no mundo (Leandro Fonseca/Exame)
Canetas emagrecedoras podem afetar o consumo de Coca-Cola?
O avanço dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade também está no radar da Coca-Cola.
Questionado pela EXAME sobre o impacto das chamadas canetas emagrecedoras nos hábitos de consumo, Pietracci afirma que a companhia acompanha o crescimento da utilização desses medicamentos, especialmente nos mercados do Hemisfério Norte.
"As canetas emagrecedoras e medicamentos equivalentes são uma realidade no mundo, até mais no Hemisfério Norte do que no Sul, pelo momento", diz.
Apesar da preocupação de parte da indústria de alimentos e bebidas com possíveis mudanças no comportamento dos consumidores, o executivo afirma que os resultados observados até agora não indicam uma redução generalizada dos gastos com bebidas.
"A gente tem acompanhado, mas o nosso aprendizado até aqui é que, para o mundo de bebidas, há uma mudança no mix de bebidas, mas não gera uma queda no consumo, uma queda nos gastos com bebidas", afirma.
Segundo ele, a companhia continuará acompanhando o avanço desses medicamentos e seus possíveis efeitos sobre as preferências dos consumidores.
"Até agora, nossos próprios resultados demonstram que não é uma tendência que impacta diretamente o segmento de bebidas."
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Por que a América Latina se tornou uma escola de líderes para a Coca-Cola?
Além de ser uma região importante para os negócios, a América Latina também desempenha um papel estratégico na formação de executivos da Coca-Cola.
Brasileiro, Pietracci construiu parte de sua trajetória internacional na Colômbia e na África antes de assumir a liderança da operação latino-americana.
Para ele, a diversidade econômica, cultural e social dos países da região ajuda a preparar profissionais para lidar com cenários complexos.
"A América Latina em geral e o Brasil em específico têm sido uma grande escola, um grande celeiro", afirma.
O executivo destaca que os profissionais da região precisam enfrentar desafios que incluem inflação, crises econômicas, diferenças de infraestrutura e eventos climáticos extremos.
"Tem inflação, tem crise, tem terremoto, tem seca, tem inundação. Tem todos os componentes que fazem da América Latina e do Brasil uma excelente escola", diz.
Pietracci, que já viveu em sete países, acredita que essas experiências contribuem para a formação de líderes capazes de assumir responsabilidades globais.
"A América Latina é o carro-chefe, é um exportador de talentos. Todo mundo quer saber da América Latina."
Para o executivo, uma das principais responsabilidades da liderança é garantir que o negócio continue evoluindo, independentemente dos resultados alcançados anteriormente.
"Você sempre recebe um negócio bom, mais ou menos ou fantástico, e sempre tem a obrigação de levar o bastão um pouco mais adiante", afirma. “Por isso afirmo, na América Latina há muito espaço para crescer e estamos só começando."
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