O que fazemos com o privilégio de poder fazer a diferença?

Ao longo dos últimos anos, tenho tido o privilégio de conversar com pessoas que poderiam fazer uma diferença extraordinária na vida de outras. E tenho percebido que, muitas vezes, o maior obstáculo não é a falta de recursos, mas a ausência de uma cultura ou da motivação certa que nos leve a perguntar o que podemos fazer com eles.
Há uma pergunta que me acompanha desde que comecei a trabalhar em fundraising: porque é que, em Portugal, falamos tanto da importância de criar riqueza e tão pouco da responsabilidade de a colocar também ao serviço da sociedade?
Admiramos, e bem, quem empreende, investe, arrisca e constrói projetos de sucesso. Mas raramente discutimos o que significa transformar parte desse sucesso em oportunidades para outros. Talvez porque ainda associemos a filantropia a grandes fortunas, a gestos excecionais de generosidade ou a uma forma de caridade reservada apenas a alguns.
Acredito que está na altura de alargarmos esta conversa.
Portugal tem uma longa e admirável tradição de solidariedade. Das Misericórdias às instituições sociais, do voluntariado às mobilizações espontâneas perante situações de emergência, não nos faltam exemplos de incrível generosidade. Mas existe uma diferença entre responder a uma necessidade imediata e assumir um compromisso continuado com o desenvolvimento da sociedade.
É nesta segunda dimensão que acredito que a nossa cultura filantrópica tem ainda muito espaço para crescer.
Nos Estados Unidos, a filantropia está profundamente enraizada na vida de universidades, hospitais, instituições culturais e organizações sociais. No Reino Unido, existe também uma tradição de participação privada e de compromisso cívico que atravessa gerações. Não se trata apenas de países mais ricos ou de regimes fiscais mais favoráveis. Existe uma cultura em que contribuir para determinadas causas é entendido como uma expressão natural de cidadania e de responsabilidade perante a comunidade.
Estes modelos, embora louváveis, não são, no entanto, isentos de contradições. A filantropia pode manifestar influência, refletir desigualdades e suscitar questões legítimas sobre quem decide quais as causas que merecem apoio. E não deve, em circunstância alguma, servir de pretexto para desresponsabilizar o Estado das suas funções essenciais.
Mas há algo que podemos aprender com estes exemplos: a capacidade de transformar a generosidade individual num compromisso coletivo, organizado e duradouro.
Em Portugal, olhamos frequentemente para a filantropia como uma exceção, quando poderia ser uma prática muito mais natural. Talvez porque tenhamos alguma dificuldade em falar de dinheiro, em pedir apoio para uma causa ou até em reconhecer publicamente quem contribui.
Há também uma questão de confiança. Para que uma verdadeira cultura filantrópica desabroche, precisamos de instituições transparentes, capazes de demonstrar resultados, prestar contas e construir relações que perdurem. A generosidade não dispensa exigência. Pelo contrário, merece-a.
Mas o que mais me interessa nesta reflexão não é o valor dos potenciais donativos. É, sim, aquilo que nos motiva a dar.
Quantos de nós podemos afirmar que chegámos onde chegámos inteiramente sozinhos? Por trás de qualquer percurso, por mais mérito e trabalho que envolva, houve quase sempre alguém que acreditou em nós, uma oportunidade que surgiu no momento certo, uma porta que se abriu.
Reconhecer isto não diminui o mérito individual, apenas lhe dá contexto.
E talvez seja precisamente aí que nasce uma das motivações mais profundas da filantropia: a consciência de que aquilo que recebemos da sociedade, de tantas formas diferentes, nos abre também a possibilidade de contribuir para o futuro de outros.
Não por obrigação ou culpa, mas por convicção.
Há, aliás, uma dimensão profundamente humana neste gesto. Dar implica reconhecer que fazemos parte de algo maior do que nós próprios. Que o nosso sucesso não precisa de terminar em nós. Que podemos deixar um legado que não se mede apenas pelo património acumulado, mas também pelas possibilidades que ajudámos a criar.
É uma forma de olhar para a riqueza não apenas como resultado, mas também como responsabilidade.
E não é uma responsabilidade exclusiva dos mais ricos. Uma cultura de filantropia constrói-se com grandes contribuições, naturalmente, mas também com pequenos compromissos regulares, com tempo, conhecimento, relações e envolvimento. Não precisamos de contribuir todos da mesma forma. Precisamos, isso sim, de reconhecer que todos podemos ter um papel.
Os incentivos fiscais são importantes e Portugal beneficiaria de uma reflexão séria sobre a sua eficácia, simplicidade e capacidade de estimular a participação. Mas seria um erro esperar que uma alteração legislativa, por si só, transformasse os nossos hábitos.
Os benefícios fiscais podem facilitar uma decisão. Mas não criam uma convicção.
Essa constrói-se na educação, nas famílias, nas empresas, nas instituições e, sobretudo, pelo exemplo. Constrói-se quando a generosidade deixa de ser apenas uma resposta emocional e passa a integrar a forma como entendemos a nossa responsabilidade perante os outros.
Não precisamos de importar modelos estrangeiros. Precisamos de encontrar o nosso próprio caminho, conciliando a tradição solidária que nos caracteriza com uma cultura mais estruturada de compromisso, confiança e participação.
Acredito profundamente que o futuro de Portugal não depende apenas da riqueza que formos capazes de criar, mas também da visão e da responsabilidade com que decidirmos utilizá-la.
E talvez seja essa a pergunta que vale a pena fazermos, individualmente e enquanto sociedade: o que fazemos nós com o privilégio de poder fazer a diferença?
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