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Tuesday, October 20, 2026

Falha de segurança permite acesso indevido a 58 mil câmeras do Smart Sampa

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Procurada, a Prefeitura de São Paulo disse que "houve um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor" que foi "identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana". A nota também diz que "não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa" (leia a íntegra abaixo).

As informações sensíveis estavam em um repositório público na internet há cerca de um ano. Após a reportagem alertar a prefeitura sobre a falha, os dados expostos foram retirados do repositório. A prefeitura não explica quais os controles que tem para impedir esse tipo de vazamento.

As informações, que ficaram 11 no repositório, incluíam 181 logins e senhas de usuários autorizados do sistema, dados de mais de 6.000 agentes de segurança e até instruções que possibilitam reproduzir o Smart Sampa em qualquer computador ou telefone celular.

A brecha acontece na maior vitrine da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que criou um painel de rua —apelidado de "prisômetro"— para divulgar as mais de 3.000 prisões de foragidos da Justiça realizadas com ajuda das câmeras.

Inspirado no programa paulistano, que reconhece rostos com uso de inteligência artificial, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) prometeu criar o Smart Brasil, com 2 milhões de câmeras no país, caso seja eleito.

Além do reconhecimento facial, o sistema identifica veículos roubados e furtados e detecta possíveis clonagens de placas. A partir disso, os policiais mais próximos das câmeras que fizeram o flagra são notificados nas ruas por meio de um aplicativo.

O UOL acessou o sistema por meio de uma interface criada para espelhar as informações do programa de câmeras. A página foi construída com um prompt de inteligência artificial que usou informações do repositório de dados aberto. Na plataforma, foi possível ver os rostos de pessoas e veículos captados pelo Smart Sampa.

A reportagem navegou pelo mapa de São Paulo e conseguiu gravar os próprios acenos para oito câmeras de totens privados instalados em uma rua nos Campos Elíseos, centro de São Paulo, todas elas conveniadas ao Smart Sampa.

Também foi possível acessar câmeras espalhadas pela cidade, que vão desde aparelhos fixados nas ruas até locais sensíveis como creches, hospitais e centros para atendimento de dependentes químicos da Prefeitura de São Paulo.

Repórter do UOL acena para quatro câmeras do Smart Sampa nos Campos Elíseos, centro de São Paulo
Repórter do UOL acena para quatro câmeras do Smart Sampa nos Campos Elíseos, centro de São Paulo Imagem: Reprodução

"Falha gravíssima de privacidade"

O professor da FGV Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública, definiu o caso como um problema de segurança nacional. "Consigo saber onde as autoridades estão, onde as viaturas estão, onde os equipamentos de defesa da cidade estão se deslocando. É gravíssimo", disse.

Alcadipani lembra que Israel utilizou imagens de câmeras em Teerã para mapear a rotina dos seguranças de Ali Khamenei, ajudando o país a preparar com os Estados Unidos o ataque que assassinou o líder iraniano em fevereiro.

"Você pega uma estrutura que o Estado tem para enfrentar o crime, e que possivelmente pode ser utilizada pelo crime para enfrentar o Estado", completa.

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Um especialista em tecnologia ouvido pelo UOL detectou uma brecha de segurança que permitiria, inclusive, inserir dados no sistema. Isso seria possível, segundo essa análise, porque algumas interfaces que recebem registros de reconhecimento de placas e rostos não verificam adequadamente a identidade de quem envia as informações.

Além da interface, os logins expostos permitem entrar diretamente na plataforma da empresa Sentinelx, usada pelo Smart Sampa, sem a exigência de medidas básicas de segurança, como a verificação em duas etapas. Após questionamento da reportagem à prefeitura, o sistema passou a usar o sistema de verificação. A Sentinelx também foi procurada, mas não se manifestou.

Em muitos casos, as credenciais dos usuários têm os mesmos caracteres, sempre relacionados aos dados do registro desses agentes. Ao acessar a plataforma, é possível pesquisar nomes, CPFs e placas de veículos na base de dados e acessar boletins de ocorrência.

"É uma falha gravíssima em termos de privacidade e vigilância", afirma o pesquisador Pedro Saliba, da Data Privacy Brasil, sobre a exposição de uma grande quantidade de dados sensíveis descoberta pelo UOL.

Saliba, cujo trabalho tem foco no tratamento de dados pessoais na segurança, afirma que a concentração de informações em sistemas de vigilância sem controles bem estabelecidos amplia os riscos de abuso aos direitos fundamentais dos cidadãos.

Para ele, mesmo na área de segurança pública, o tratamento de dados também deve observar princípios da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), como finalidade, necessidade, segurança e transparência.

A integração crescente de equipamentos em uma rede gigantesca suscita necessidade de maiores cuidados, segundo Saliba. "É um risco adequado você expor crianças e adolescentes a esse tipo de situação? É adequado você expor pessoas que estão fazendo tratamento de saúde mental a esse tipo de situação?"

Algoritmos sigilosos

Apesar de ser responsável pelo Smart Sampa, a Prefeitura de São Paulo não tem acesso ao código-fonte, aos modelos de inteligência artificial nem às bases de dados utilizadas para treinar os algoritmos do sistema de reconhecimento facial. Tudo isso está sob controle da Sentinelx, conforme resposta enviada ao UOL pela Secretaria da Segurança Urbana por meio da Lei de Acesso à Informação.

O documento afirma que a prefeitura também não participa diretamente do desenvolvimento dos algoritmos e não possui informações detalhadas sobre os critérios utilizados para treiná-los.

Além disso, o município admitiu não haver auditorias independentes dos modelos. A fiscalização feita pela cidade se limita à "verificação do cumprimento dos requisitos técnicos", segundo a prefeitura, que não detalha quais são os requisitos.

Segundo a prefeitura, em fevereiro de 2025, o índice mínimo de similaridade facial para disparar um alerta foi elevado de 90% para 92%, como medida para reduzir abordagens equivocadas. No entanto, não há dados disponíveis sobre a taxa de erro do sistema.

Relatórios de transparência da prefeitura mostram abordagens equivocadas que ocorreram mesmo com a atuação de agentes de segurança. Entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram conduzidas a delegacias após alertas do reconhecimento facial do Smart Sampa, mas foram liberadas.

Em 75 casos, houve inconsistências na identificação facial. Em outros 181, os mandados de prisão estavam desatualizados, e 12 decorreram de problemas cadastrais. As liberações representam 7,9% das 3.400 conduções registradas no período.

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Imagem: Arte/UOL

Uma reportagem do site Núcleo mostrou processos judiciais resultantes desses enganos. Em um deles, obtido pelo UOL, a prefeitura e o estado foram condenados a pagar R$ 10 mil a um entregador.

Em 22 de janeiro de 2026, ele acompanhava a companheira grávida em uma Unidade Básica de Saúde no Parque do Carmo, bairro periférico da zona leste da capital, quando foi abordado por guardas-civis. O motivo do alerta: o sistema apontou 97% de similaridade com um condenado por tráfico de drogas em Campinas.

Poucos minutos após a primeira abordagem incorreta, foi a vez de policiais militares fazerem uma segunda. O rapaz não chegou a ser levado à delegacia, mas argumentou ter sofrido humilhação pública. Em outro caso, um homem foi encaminhado incorretamente quatro vezes à delegacia porque sua foto constava como se fosse a do homem procurado em Mato Grosso.

Na maioria das vezes, porém, o sistema emite alertas corretamente para pessoas que constam do banco nacional de mandados de prisão. Um dos casos de maior repercussão do Smart Sampa envolveu a detenção da irmã do prefeito Ricardo Nunes, Janaína Reis Miron, que tinha em seu nome mandados de prisão por desacato, embriaguez ao volante e lesão corporal.

Além dos casos de criminosos, quase metade das prisões se refere a procurados por dívida de pensão alimentícia, conforme revelado pela Folha de S.Paulo. Dos 1.153 detidos entre 21 de novembro de 2024 e 21 de maio de 2025, foram 44%.

Quem está por trás do Smart Sampa

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Imagem: Arte/UOL

A tecnologia por trás do programa está sob cuidado de uma empresa que não existia quando a Prefeitura de São Paulo realizou, em 2023, a licitação para contratar o sistema de vigilância. Criada um mês depois da assinatura do contrato, a Sentinelx hoje integra o consórcio que opera o programa.

Chamado Smart City, o consórcio era formado originalmente pelas empresas CLD, Flama Serviços, PK9 e Camerite e venceu a licitação após a exclusão de duas concorrentes. O grupo apresentou proposta de R$ 9,8 milhões por mês, contra R$ 9,2 milhões da L8 Group, que acabou desclassificada. Já a Line Service, que ofereceu o mesmo valor que o consórcio vencedor, pediu a própria desclassificação, alegando erro na digitação da proposta.

A habilitação do consórcio para um contrato de R$ 588 milhões por cinco anos ocorreu em julho de 2023.

A Sentinelx só passou a integrar formalmente o consórcio por meio de um aditivo contratual assinado em dezembro do ano passado, que estabeleceu sua entrada no grupo em substituição à Camerite. Desde 2025, a empresa tem entre seus sócios Jorge Marques Moura, que também é sócio da CLD e assinou o aditivo como administrador do consórcio.

A CLD, por sua vez, tem origem no setor de construção civil e posteriormente passou a atuar também no mercado de radares. O nome anterior da empresa, Consladel, fez parte do noticiário das últimas duas décadas, ligada a diversas investigações sobre contratos públicos.

Mais recentemente, a CLD apareceu entre as empresas que tiveram bens bloqueados devido a uma suspeita de fraude em licitação bilionária da iluminação da cidade de São Paulo.

Na prefeitura, a coordenadora do Smart Sampa é Pamella Cecarelli Candido,que anteriormente prestou serviços de comunicação na campanha de 2020 do ex-secretário da Segurança Urbana, Orlando Morando (MDB), ex-prefeito de São Bernardo do Campo.

Ela tem 29 anos e, em sua página do LinkedIn, tem como única experiência profissional registrada a chefia de comunicação da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Morando tentou se eleger deputado federal tendo o programa como uma vitrine, mas acabou ficando apenas como suplente.

Na esteira da popularidade do programa, a Sentinelx busca vender a plataforma para cidades de todo o país. Na página da empresa, são citados como exemplos convênios com as prefeituras de São José do Rio Preto e Catanduva, no interior paulista. O modelo envolve a contratação de consórcios, que, por sua vez, aderem à tecnologia oferecida para a plataforma.

O slogan para a venda do produto às cidades promete a tecnologia "por trás da maior operação de videomonitoramento com IA da América Latina".

Entre os chamarizes oferecidos, está justamente o controle de acesso ao sistema.

O que diz a prefeitura

"A Prefeitura de São Paulo informa que não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa. O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. Portanto, a Prefeitura reforça que se trata de um ato criminoso.

A reportagem do UOL ao acessar o sistema a partir de um vazamento ilegal tenta classificar o caso como falha na segurança, agindo, assim, com irresponsabilidade e desinformando a população. Importante destacar que não houve em nenhum momento qualquer uso indevido da plataforma.

O programa conta com a fiscalização do Tribunal de Contas do Município e consultoria especializada em governança e privacidade de dados.

O repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar pela Pasta e não havia nele menção a senhas de acesso. Ainda assim, a SMSU reforçou a segurança da plataforma, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores, entre outras medidas. O acesso também exige validação por código enviado por SMS para a criação de uma nova senha conforme os padrões de segurança.

Maior sistema de monitoramento por câmeras da América Latina, o Smart Sampa encaminha semestralmente ao Ministério Público um Relatório de Transparência, já na 3ª edição. As obrigações contratuais preveem auditorias periódicas, testes de segurança, monitoramento, apresentação de relatórios técnicos e correção de eventuais vulnerabilidades. A Coordenadoria de Tecnologia, Integração e Segurança (CTIS), da SMSU, atua na supervisão e fiscalização da plataforma. O programa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Em relação às câmeras em equipamentos públicos, elas são instaladas em áreas de circulação comum, sem abranger consultórios, salas de atendimento ou ambientes assistenciais. A captação de uma imagem não significa que a pessoa tenha sido cadastrada ou identificada pelo sistema. O reconhecimento facial compara imagens captadas pelas câmeras com bases oficiais de pessoas procuradas, foragidas e desaparecidas."

Reportagem

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