Walter desabafa sobre dramas da carreira e conta como a vida em Maceió influencia seus planos

Em entrevista ao quadro "Carona do GE", do Globo Esporte, conduzido pelo jornalista Henrique Pereira, da TV Asa Branca-AL, ele falou sobre os erros que cometeu, os momentos marcantes da carreira, as dificuldades pessoais e os projetos que pretende tirar do papel.

Em 2024, Walter revelou namoro antigo com o Flamengo
Morando em Maceió, Walter vive uma fase de mudanças. Ao lado da noiva Fátima e da filha Melinda, ele busca estabilidade familiar e avalia as possibilidades de continuar no futebol, mas fora das quatro linhas.
O jogador revelou que já estuda para trabalhar como gerente de futebol ou treinador e que mantém conversas sobre oportunidades para o próximo ano.
“Eu estou pensando em parar, sim".
A decisão, segundo ele, envolve também a família. Depois de 22 anos de carreira, Walter reconhece que deixar os gramados não será simples, mas considera que o momento de planejar o futuro chegou.
A intenção é definir os próximos passos até o fim do ano. Caso continue jogando por mais algum tempo, ele trabalha com a possibilidade de disputar um estadual e encerrar a carreira na metade da próxima temporada.
Walter diz que pensa em se aposentar — Foto: TV Asa Branca-AL
O arrependimento de ter deixado o Porto
Ao recordar sua trajetória, Walter destacou a gratidão pelas oportunidades que recebeu. Nascido na comunidade do Coque, no Recife, ele chegou à seleção brasileira de base, foi artilheiro da equipe sub-20 e atuou por clubes importantes do futebol brasileiro e europeu, como Porto, Internacional, Cruzeiro, Goiás, Athletico-PR, CSA e Fluminense.
Mesmo com as conquistas, há uma decisão que ainda pesa em sua memória: a saída do Porto, de Portugal. Walter contou que tinha contrato com o clube português desde 2010 e que permaneceu vinculado à equipe por nove anos. Ele disse que vivia por lá bons momentos dentro de campo, decidiu sair e não conseguiu retornar.
— Uma escolha errada foi ter saído do Porto, porque eu estava no maior time do mundo, um dos maiores times, e, na minha cabeça, pedi para sair.
Atacante Walter nos tempos do Porto — Foto: Reuters
Segundo o atacante, o presidente do clube chegou a alertá-lo de que poderia se arrepender da decisão. Walter, porém, manteve a vontade de deixar a equipe. Hoje, ele reconhece que poderia ter pensado melhor antes de tomar aquele caminho.
O jogador também recordou as boas fases que viveu no Goiás, em 2012 e 2013, e no Athletico-PR, em 2015 e 2016, períodos em que voltou a se destacar, mas não retornou ao Porto.
Walter nos tempos de Fluminense — Foto: Nelson Perez / Fluminense FC
O peso e as escolhas que prejudicaram a carreira
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Walter falou sobre a dificuldade para controlar o peso. O atacante reconheceu que o problema teve impacto direto em sua trajetória e que gostaria de ter adotado outra postura desde o início da carreira.
“Eu mudaria o meu estilo de vida mesmo. Eu perdi muita coisa com a carga do meu peso”.
Walter explicou que, durante muito tempo, atuou acima do peso e que a questão estava ligada principalmente ao comportamento e ao aspecto psicológico.
Ele contou que chegou a fazer acompanhamento com um psicólogo durante sua passagem pelo Athletico-PR, em 2016, quando emagreceu e apresentou uma condição física melhor.
Todos os clubes da carreira de Walter — Foto: Info Esporte
Depois, porém, acreditou que não precisava mais do acompanhamento e voltou a enfrentar dificuldades.
O atacante também admitiu que descontava o estresse na comida e que a falta de controle acabou comprometendo seu rendimento. Na avaliação dele, ter contado desde cedo com profissionais que o ajudassem a cuidar da parte física e mental poderia ter feito diferença.
“Eu não pensava duas vezes nas coisas que eu podia fazer de errado. Foram muitas escolhas erradas também. A gente faz as escolhas erradas e paga. E eu paguei muito”.
Walter ainda revelou que o excesso de peso era motivo de constrangimento. Embora muitas brincadeiras fossem feitas em tom de carinho por companheiros e torcedores, algumas situações o machucavam. Ele contou que, "por vergonha do próprio corpo, costumava ser o último jogador a tomar banho no vestiário".
“Eu sempre deixei na brincadeira, mas, sem dúvida, nunca gostei”.
Walter no CSA, em 2018 — Foto: Thiago Parmalat/RCortez/CSA
O doping e os dois anos longe dos gramados
A dificuldade para emagrecer também está relacionada a outro episódio marcante da carreira: a suspensão por doping durante sua passagem pelo CSA, em 2018.
Walter contou que utilizou um medicamento (sibutramina) para perder peso e acabou ficando dois anos afastado do futebol. O período coincidiu com um momento importante para o clube alagoano, que conquistou o acesso à Série A do Brasileiro.
O atacante acredita que poderia ter renovado o contrato com o CSA ou recebido propostas de outras equipes caso não tivesse passado pela suspensão.
“Foi uma coisa que eu me arrependo muito. Fiquei dois anos sem jogar futebol, perdi muita coisa”.
Apesar das consequências, ele afirma que o episódio trouxe aprendizados. Walter disse que passou a valorizar mais as pessoas que permaneceram ao seu lado e até a ter mais cuidado com o dinheiro e as decisões do cotidiano.
A experiência, segundo o jogador, mudou sua maneira de enxergar algumas coisas e mostrou a importância de reconhecer quem realmente está presente nos momentos difíceis.
José Amaro Ferreira, pai do atacante Walter — Foto: Arquivo Pessoal
A dor de não saber o paradeiro do pai
Em um dos trechos mais delicados da entrevista, Walter falou sobre um drama pessoal que carrega há anos. O pai, José Amaro Ferreira, está desaparecido desde 2018, período em que o atacante defendia o CSA. O jogador afirmou que não sabe se o pai está vivo ou morto e lamentou não ter tido a oportunidade de se despedir dele.
“Eu não enterrei meu pai, eu não sei como está meu pai”.
Walter explicou que a ausência é uma dor constante, que o acompanha inclusive na hora de dormir.
Maceió, a família e uma nova fase
A volta a Alagoas também tem relação direta com a vida pessoal do jogador. Walter contou que sua história com a atual noiva começou em 2018, quando os pais dela trabalhavam no CSA. Na época, uma brincadeira sobre um possível casamento parecia distante da realidade.
Em 2024, ele voltou a Maceió, reencontrou a família e se aproximou da mulher com quem está hoje. O relacionamento evoluiu, e o casal ficou noivo. Juntos, eles têm a pequena Melinda.
Walter e noiva Fátima, filha de ex-roupeiro e ex-cozinheira do CSA — Foto: Arquivo Pessoal
O atacante destacou o acolhimento recebido dos futuros sogros. Agora, o casal procura um lugar para construir a própria casa na região de Maceió, perto da família.
— Tô feliz, tô com a minha noiva, tô com a minha sogra, meu sogro, a gente mora junto aí, né? Eles abriram as portas de um jeito muito grande, porque a gente sabe como são essas viagens. Eu estou sempre viajando e aí a minha noiva fica mais com a mãe dela. A maior parte das minhas coisas está em Goiânia, mas a minha noiva não quer morar lá, a gente quer morar aqui, pro lado de Maceió, e agora tá caçando um lugar pra ter o cantinho, né? Eu sou muito grato a eles. Lobão é igual a um pai pra mim, minha sogra é igual a uma mãe.
A proximidade da filha e da noiva é um dos fatores que pesam na decisão sobre o futuro profissional. Walter revelou que tem duas possibilidades em negociação para a próxima temporada, uma em Alagoas e outra fora do estado, mas admite preferência por permanecer perto de casa.
O jogador também comentou que o futebol lhe proporcionou condições para construir algum patrimônio, com investimentos e apartamentos em Goiana, em Pernambuco. Mesmo assim, ressaltou as responsabilidades financeiras que carrega, incluindo o sustento das filhas.
Walter tem tatuado no braço o nome da mãe, Edith — Foto: Reprodução TV Asa Branca
Gerente ou treinador: os planos para depois da aposentadoria
Se a despedida dos gramados se confirmar, Walter pretende continuar ligado ao futebol. Ele revelou que está estudando para trabalhar como gerente ou diretor de futebol e também faz cursos para se preparar para a carreira de treinador.
O atacante disse que já existem conversas sobre oportunidades profissionais e que deseja terminar a trajetória como jogador com condições de assumir uma nova função.
A experiência acumulada em diferentes clubes e os anos de convivência com treinadores e dirigentes podem ajudar nessa transição. Walter, porém, ainda avalia qual caminho seguir.
Walter e o começo da carreira no Santa Cruz — Foto: Walter/Arquivo pessoal
Walter defende o camisa 9 tradicional
A entrevista também reservou espaço para uma análise sobre as mudanças no futebol. Conhecido pela capacidade de finalizar e pela presença de área, Walter acredita que os centroavantes perderam espaço porque o jogo atual exige que todos os atletas participem intensamente da marcação.
“Não adianta pegar um 9 que corra”, argumentou.
Para ele, o camisa 9 precisa ter liberdade para permanecer próximo da área e aproveitar as oportunidades de gol, em vez de ser cobrado para correr o tempo inteiro como os demais jogadores.
— Tipo assim, o 9 tem que ficar paradinho no cantinho, para, quando a bola chegar, colocar na rede. É uma qualidade que o 9 tem. Não adianta pegar um 9 que corra. Por isso que a gente perdeu bastante camisas 9, porque hoje em dia, querem que os 10 jogadores corram, igual ao volante, iguala o zagueiro. Não existe.
Walter brilhou no Goiás — Foto: Rosiron Rodrigues/Goiás E.C.
Walter citou o atacante Pedro, do Flamengo, para defender sua visão. Na avaliação dele, o mais importante para um centroavante é estar bem posicionado para concluir as jogadas. O jogador acredita que as exigências física e tática atual têm contribuído para a escassez de atacantes com características de finalização.
A ideia também faz parte do treinador que Walter imagina ser no futuro. Ele afirmou que pretende dar liberdade ao centroavante, desde que conte com jogadores rápidos pelos lados para construir as jogadas e levar a bola até a área.
— Só que, quando chegar a bola, ele tem que colocar para rede, entendeu? A cobrança dele vai ser essa, porque eu não vou cobrar uma coisa que eu sei que não é da natureza do cara.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.