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Thursday, September 17, 2026

A polémica da t-shirt de Ceuta no Real Madrid

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A partida de futebol decorrida esta terça-feira entre o Elche e o Real Madrid provocou ondas de choque em Espanha, não por causa do resultado — 3-2 para o clube da capital —, mas sim por algo que aconteceu antes sequer da bola começar a rolar: quando Mbappé, Vinícius Jr. e Konaté recusaram divulgar a mensagem da t-shirt de solidariedade que os atletas de ambas as equipas vestiram em apoio a Ceuta. Como resultado, os três atletas têm sido alvo de duras críticas — inclusive de adeptos do próprio clube. O jogador francês já se veio explicar, afirmando que não queria “priorizar o sofrimento”

No cerne da polémica está uma campanha iniciada a 11 de setembro pela Associação Valenciana de Empresários, que quis demonstrar solidariedade na sequência da crise migratória espoletada pela entrada ilegal de mais de 70 mil pessoas em Ceuta entre 30 e 31 de julho.

Esta entidade contactou vários clubes da Liga Espanhola com o fito de ter os seus jogadores a vestir uma t-shirt antes das partidas com uma mensagem a dizer “Somos todos Caballas” — termo que se traduz literalmente para “cavala” e é uma alcunha para os habitantes do enclave espanhol no norte de África. Mais abaixo, outra frase declarava “solidariedade com a cidade autónoma de Ceuta”.

???? Vinicius, Mbappé y Konaté no enseñan el mensaje de ánimo a Ceuta.

???? Ambos futbolistas se colocaron mal la camiseta sin que se vea el 'Todos somos Caballas'. pic.twitter.com/XkrhUDS8XQ

— El Chiringuito TV (@elchiringuitotv) September 15, 2026

Segundo as informações veiculadas pela imprensa espanhola, o Elche aceitou a proposta e sugeriu ao Real Madrid que ambos os clubes se associassem a esta campanha, tendo sido bem acolhida pelo clube madrileno. De resto, os “merengues” já tinham feito uma demonstração anterior: antes da partida inaugural desta edição da Liga dos Campeões, ao receber o Inter de Milão no Santiago Bernabéu a 9 de setembro, foram distribuídas bandeiras de Ceuta e faixas de apoio aos adeptos no exterior do estádio.

No entanto, ao contrário dos outros atletas escalados para o 11 titular, Kylian Mbappé e Vinicius Júnior não só se apresentaram no estádio Manuel Martínez Valero com a t-shirt dobrada de forma a ocultar a mensagem como a despiram imediatamente antes de cumprimentar os jogadores do Elche. Já o central Ibrahima Konaté não vestiu sequer este artigo, carregando-o consigo na mão. Para acicatar ainda mais os ânimos, foi divulgado um vídeo dos jogadores no túnel de acesso ao relvado onde Vinicius parece estar a explicar a Mbappé como melhor colocar a t-shirt de forma a tornar a sua frase ilegível.

Real fala em liberdade de escolha, PP em “vergonha alheia”

Questionado quanto à decisão dos três jogadores, o clube defendeu o posicionamento dos atletas. Numa declaração à agência Reuters, um responsável afirmou que, enquanto organização, o Real Madrid respeita as diferentes opiniões de cada jogador e deu aos seus atletas a liberdade de escolher se queriam ou não usar a t-shirt. Ao El País chegou uma nota idêntica do emblema da capital, atribuindo a opção dos atletas em causa a “questões pessoais”, que, neste caso, “não coincidem com a posição do clube, que acolheu de bom grado a proposta do Elche”.

No entanto, apesar da defesa do Real Madrid, a decisão dos três jogadores caiu mal junto de vários quadrantes da sociedade espanhola, a começar pelos próprios adeptos madridistas, que encheram as redes sociais da equipa com mensagens de repúdio. Já o núcleo do clube em Ceuta fez saber ao El Confidencial que vai enviar uma carta de reclamação ao departamento das claques do Real Madrid para manifestar o seu descontentamento.

Juanma Rodríguez, jornalista desportivo e adepto assumido do Real Madrid, foi ainda mais longe, ao assumir num artigo publicado no jornal ABC que “sentiu vergonha” da sua equipa pela primeira vez em 63 anos. “A minha equipa, que nunca se intimida perante ninguém e que é o Sansão na Liga, o Super-Homem perante os árbitros, o Dan Defensor perante a UEFA e el Cid perante a FIFA, encolheu-se e assumiu a posição fetal para evitar assim um confronto com três miúdos com mais dinheiro do que aquele que alguma vez poderão gastar na vida e com menos empatia do que uma ameba”, atirou.

O próprio presidente da liga espanhola, Javier Tebas, juntou-se às críticas ao dizer que considera “errada” a atitude de Vinicius, Mbappé e Konaté. Durante um evento decorrido esta quarta-feira, Tebas lembrou que a ação antes do jogo tinha um cariz “institucional, do clube”, não sendo algo em que “se deva manifestar a opinião pessoal”.

No entanto, dada a carga polarizante que demonstrações em torno da crise em Ceuta carregam, este episódio teve mesmo repercussões políticas. A líder parlamentar do Partido Popular, Ester Muñoz, disse que a atuação dos três jogadores lhe causou “muita vergonha alheia“. “Acho que se trata de uma questão humanitária e eles terão de explicar porquê”, declarou a representante do partido de centro-direita, que também lançou uma indireta a Vinicius Jr., já que o atleta brasileiro tem nacionalidade espanhola desde 2022: “Alguns [jogadores] com nacionalidade espanhola têm de explicar por que razão, num jogo espanhol, não querem defender a Espanha”.

O secretário-geral do Vox no Congresso espanhol, José María Figaredo, afirmou que, se os três jogadores são “muito livres para agir e defender as causas que quiserem”, então os espanhóis “também são muito livres para se sentirem indignados com três milionários que vivem em Espanha e que depois não apoiam os espanhóis”.

Da parte do Governo, a postura foi mais conciliatória, com a ministra da Educação e do Desporto, Milagros Tolón, a admitir que não presenciou o ato mas que se tratava de uma “decisão pessoal” dos futebolistas. Já o parceiro de coligação do PSOE no executivo, o Sumar, foi dos poucos que arriscou uma defesa aberta deste ato. Alberto Ibáñez, deputado desta formação de esquerda, defendeu que “a liberdade de expressão dos futebolistas deve ser respeitada”, frisando também que “ajudar Ceuta não pode ser um apelo para criar divisões com base em sensibilidades de identidade nacional ou mesmo para incitar o racismo”.

O ataque a Ez Abde e a explicação de Mbappé

O jogo entre o Elche e o Real Madrid não foi o primeiro a ter os jogadores a apresentar as t-shirts solidárias nem o primeiro a provocar controvérsia. No domingo, no embate entre o Levante e o Barcelona, apenas os atletas do emblema valenciano as vestiram. Apesar de não ter emitido uma posição oficial, um porta-voz do clube catalão fez saber que os seus jogadores não usaram esses artigos de vestuário porque a iniciativa não estava relacionada com o Barcelona e o Barça tinha “muito recentemente tomado uma posição a favor da liberdade de expressão”.

No entanto, o episódio que trouxe verdadeiramente o tema para os holofotes mediáticos decorreu depois do jogo entre o Villarreal e o Betis. Como recorda o El País, Abdessamad Ezzalzouli — extremo do clube andaluz e internacional por Marrocos, também conhecido como Ez Abde —, exibiu a camisola juntamente com os restantes jogadores e isso valeu-lhe duras críticas e insultos nas redes sociais por parte de utilizadores marroquinos.

Abde foi acusado de atraiçoar o seu país, havendo mesmo quem pedisse que fosse afastado da seleção. O jogador — que teve de apagar a maioria das suas publicações nas redes sociais — emitiu um comunicado a defender o seu ato, alegando que se tratava de “uma ação de caráter social em apoio a uma população e aos seus habitantes”.

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