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Tuesday, September 29, 2026

Jornalismo e o futuro do nosso mundo caótico

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Os ricos sempre foram mais poderosos do que os pobres. Governos abusaram de sua autoridade. Empresas compraram influência sobre instituições; tribunais falharam em proteger os desprotegidos. Até o Quarto Poder fazia seu jogo de equilíbrio. O jornalismo nunca foi tão puro quanto os jornalistas às vezes gostam de lembrar.

Mas o sistema era, ao menos, reconhecível.

O poder tinha endereços físicos. Governos existiam dentro de fronteiras (em sua maioria) reconhecidas. Jornais tinham editores. Empresas tinham donos. As leis podiam, pelo menos em teoria, ser aplicadas dentro de determinadas jurisdições.

Então vieram as Big Techs. O equilíbrio mudou mais rápido do que nossas instituições conseguiram se adaptar.

Uma nova superclasse comanda o espetáculoiqueza e poder galácticos, algumas vezes maiores do que os da esmagadora maioria dos governos da Terra. Eles moldam a comunicação entre bilhões de pessoas, determinam quais informações vão circular e quais desaparecerão no vazio. Um verdadeiro sistema operacional do nosso mundo moderno, eles construíram a infraestrutura que sustenta a política, o comércio, a cultura, o conhecimento e praticamente todo o resto. Se eles pararem, nosso mundo moderno para.

Não deveríamos nos surpreender com a colisão de poderes que está acontecendo agora.

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Esses sistemas, antigos e novos, foram criados em séculos diferentes, de acordo com regras profundamente distintas.

Vivemos, de fato, tempos extraordinariamente caóticos —e a mídia jornalística parece ser o grande troféu que todo poder deseja desesperadamente.

Esse atrito está apenas começando e provavelmente provocará enormes conflitos e sofrimento. O campo de batalha em que grande parte dessa disputa está sendo travada é o próprio ambiente informacional.

As mesmas pessoas que declaram o jornalismo morto, irrelevante entendem algo que partes da nossa própria indústria muitas vezes esquecem: a informação é a tecnologia mais poderosa já inventada pela raça humana.

A batalha pelo futuro da humanidade é rapidamente reconhecida como uma batalha pela realidade percebida. Controle o que as pessoas sabem, e você influencia aquilo em que elas acreditam. Influencie aquilo em que acreditam, e você molda o que temem, em quem confiam, como votam, o que compram, quem odeiam e, em última instância, que tipo de poder aceitarão como legítimo.

É por isso que as repetidas declarações de que a mídia jornalística está morta deveriam deixar os jornalistas prontos para a luta de nossas vidas. A crise de confiança é real e não foi apenas imposta ao jornalismo. Embora nós, jornalistas/editores/veículos, tenhamos sido/sejamos alvo de um ataque extraordinariamente amplo e poderoso, não há como fugir do fato de que a nossa própria indústria ajudou a criar a crise.

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Muito antes de as Big Techs capturarem o mercado publicitário, veículos demais se esqueceram da essência do serviço público. Leitores foram tratados como métricas, a cobertura foi transformada em conteúdo e a indignação se tornou o modelo de negócios.

Foram os nossos próprios erros que permitiram que as Big Techs os explorassem.

Nosso futuro depende da nossa capacidade de explicar às nossas comunidades que uma sociedade moderna da informação precisa de jornalismo confiável da mesma forma que precisa de tribunais funcionando, escolas, redes de eletricidade e sistemas de água limpa. É quando a infraestrutura para de funcionar que você percebe sua importância com mais clareza. E já estamos começando a descobrir o que acontece quando a infraestrutura da informação falha.

Nossas verdades autoevidentes permanecem:

Informação verdadeira, verificada e de interesse público não pode ser negociável.

A independência em relação ao poder político e comercial não pode ser um slogan usado apenas quando for conveniente. Nossa relação com as comunidades que existimos para servir precisa estar na base de tudo o que fazemos.

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Precisamos nos esforçar para nos tornar radicalmente melhores em explicar como sabemos aquilo que sabemos. Precisamos encontrar força interior para reconhecer erros, mostrar evidências sempre que possível, ouvir mais e ouvir com muito cuidado.

Confiança não é algo que temos o direito de herdar das gerações anteriores de jornalistas. Cada geração precisa continuar renovando-a.

A tecnologia em si não é nossa inimiga. Isso seria ao mesmo tempo tolo e hipócrita —nós a usamos a cada hora de cada dia de nossas vidas modernas. A tecnologia permitiu que o jornalismo alcançasse públicos que jamais poderíamos ter imaginado. A IA transformará reportagem, análise, tradução, investigação e distribuição de maneiras que apenas começamos a compreender.

A questão não é se a tecnologia moldará o jornalismo —é claro que moldará. A questão é se o poder criado pela tecnologia continuará podendo ser contestado e se nós, a mídia, seremos capazes de estar à altura do desafio de manter esse poder sob controle, para o benefício de todos.

Talvez precisemos mudar nossa forma, a maneira como funcionamos e como alcançamos o público, mas não podemos abandonar nosso propósito.

Não se trata de nós, a mídia jornalística, possuirmos um poder sem controle; muito pelo contrário. O propósito da nossa existência é garantir que ninguém o possua.

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Plataformas de notícias virão e irão. Modelos de negócios virão e irão. Mas ainda haverá alguém cujo trabalho seja descobrir o que é verdade —e contar a todos os outros, independentemente de quem preferisse que isso não acontecesse? Essa é a pergunta da qual depende grande parte da nossa realidade.

Na semana em que acontece o Dia Mundial do Jornalismo, em meio a toda a ansiedade sobre o nosso futuro, talvez seja essa a promessa que o jornalismo precisa fazer novamente.

*Branko Brkic é fundador do Project Kontinuum, e Tina Brown é editora, autora e fundadora do Truth Tellers, a cúpula global de jornalismo Sir Harry Evans.

Este artigo de opinião integra a campanha do Dia Mundial do Jornalismo, uma iniciativa para mostrar o valor do jornalismo promovida pelo World Editors Forum, o Project Kontinuun e a Canadian Journalism Foundation.

O UOL incentiva o jornalismo profissional por meio da campanha Defenda a Verdade. Clique aqui para saber mais.

Veja outros textos da campanha:

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Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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