Emmy reconhece ter pouca diversidade em edição com 'The Pitt' e recorde de 'Hacks'
Na noite desta segunda, o Emmy define quais foram as melhores séries e programas de TV da última safra. Mas a própria organização do prêmio reconhece que a lista de indicados não representa a televisão que existe hoje. A cerimônia acontece em Los Angeles, com transmissão às 20h30 nos canais TNT e HBO Max.
Agora em sua 78ª edição, a premiação mais importante da TV despertou um debate devido à pouca diversidade racial dos artistas nomeados quando os anunciou, há dois meses. Também chamou a atenção a falta de obras produzidas fora dos Estados Unidos e de países de língua inglesa.
"Demos um passo para trás, infelizmente", afirma Cris Abrego, presidente da Academia de Artes e Ciências Televisivas, que promove o Emmy. "Há muitos programas de sucesso, com diversidade, não indicados. Séries com artistas latinos e asiáticos que fazem retrato mais fiel do nosso mundo, inclusive dos Estados Unidos."
Esse ano, o Emmy indicou 22 pessoas não brancas —ou de origem fora dos EUA—, o menor número das últimas 15 edições. É uma queda de 21% em comparação ao ano passado, e menos que a metade do registrado em 2021, quando 49 não brancos apareceram na seleção. O levantamento é do site Deadline e considera apenas atores e apresentadores.
Entre os artistas não brancos nomeados está a americana Zendaya. A atriz concorre na categoria de drama com a terceira temporada de "Euphoria", série com a qual já foi premiada duas vezes. Sua principal oponente é Rhea Seehorn, à frente de "Pluribus", trama intrigante do Apple TV que se destaca com 18 indicações.
De "Euphoria", o Emmy indicou também o americano Colman Domingo, que tem família de descendência africana e latina. Ele concorre ao mesmo tempo pela comédia "As Quatro Estações do Ano", sendo a única pessoa não branca a aparecer mais de uma vez na lista. Já entre os atores brancos, isso aconteceu quatro vezes.
Além disso, poucos artistas de fora dos Estados Unidos e da Europa foram lembrados. Há o colombiano Carlos-Manuel Vesga, coadjuvante em "Pluribus", e a sul-coreana Youn Yuh-jong, da segunda temporada de "Treta". A série emplacou 16 indicações ao narrar como uma briga entre casais vira uma guerra de classes intercontinental.
Por "Treta", concorre também o ator Oscar Isaac, que, embora tenha nascido na Guatemala, foi viver nos Estados Unidos quando ainda era recém-nascido.
"Sei que podemos fazer muito melhor", afirma Abrego, o presidente da Academia de Televisão, antes de defender a entidade dizendo que ela não produz as séries nem contrata os atores. O que cabe à instituição, segundo o executivo, é estimular os votantes a buscar conhecer produções de mais países na hora de escolher os indicados. Ele não explica como esse incentivo acontece, porém.
Nascido nos Estados Unidos, Abrego vem de família mexicana e é a primeira pessoa de origem latina a presidir a Academia de Televisão, fundada há 80 anos. A instituição é formada por cerca de 27 mil pessoas, entre atores, diretores e produtores de TV. São eles que decidem os nomeados e vencedores do Emmy.
A série mais lembrada este ano foi "The Pitt", com 25 indicações. É quase o dobro das 13 recebidas pela temporada inaugural, no ano passado, quando a obra venceu nas categorias de série de drama e de melhor ator, para Noah Wyle. Previsões de veículos especializados apontam que as mesmas vitórias devem se repetir na segunda-feira.
Produzida pela Warner Bros. e disponível na HBO Max, "The Pitt" seduziu público e crítica ao unir recursos do streaming à agilidade da TV aberta. A série pôs intervalo de apenas um ano entre suas temporadas, prática comum na época das produções da TV regular que se perdeu com a chegada do streaming.
Hoje, o público pode ter de esperar até três anos por uma continuação. Isso, aliás, parece ter afetado "Stranger Things", que recebeu apenas sete indicações em categorias de menor importância por sua última temporada.
Para Cris Abrego, "The Pitt" representa um retorno "empolgante ao modelo procedural" e uma combinação bem-sucedida dos dois modelos de televisão. Ele chama a atenção também para o número de episódios, 15 em cada temporada, quase o dobro do que plataformas como Netflix e HBO Max costumam fazer.
As categorias de atuação, em especial, estão dominadas pela série médica. São 13 atores indicados. "The Pitt" inclusive já venceu um destes troféus, entregue no final de semana passado para Ernest Harden Jr., vitorioso na corrida de melhor ator convidado. É praxe que o Emmy anuncie alguns prêmios antes da cerimônia principal.
"Hacks", encerrada na quinta temporada, recebeu 24 indicações e se tornou a comédia mais indicada da história, superando o recorde de 23 antes dividido por "O Estúdio" e "O Urso". A trama sobre a humorista Deborah Vance já venceu uma estatueta, bastante específica, que reconhece a edição de episódios feitos com uma única câmera.
Os possíveis troféus mais importantes para "Hacks" agora são os de melhor série de comédia, num páreo difícil com "O Segredo de Widow’s Bay", e o de melhor atriz, que pode ser entregue para Jean Smart. Caso ganhe, ela receberá seu oitavo Emmy e, assim, empataria com as recordistas Julia Louis-Dreyfus e Cloris Leachman, morta em 2021.
Falando em "Widow’s Bay", a série de suspense da Apple foi inscrita nas categorias de comédia e recebeu 19 indicações, a terceira que mais aparece na seleção. Já venceu oito delas no período pré-cerimônia.
Embora seja engraçada, "O Segredo de Widow’s Bay" conta a história de uma ilha assolada por fantasmas e é repleta de elementos do horror. Por isso, a série ressuscitou o debate sobre que tipo de trama pode ser considerada uma comédia. A discussão é muito associada a "O Urso", que agora concorre com sua quarta temporada.
O presidente da Academia de Televisão diz que a instituição não decide o que é cômico ou não. "Apoiamos a decisão do criador. Prestamos atenção em como eles promovem a série e temos restrições para garantir que não estejam manipulando o sistema para conseguir uma indicação."
As regras de que ele fala são menos rígidas que no passado. Antes, por exemplo, um episódio de série de comédia não podia ter mais de 30 minutos. Mas o streaming fez a Academia abolir essa regra, e agora mesmo séries mais longas podem tentar uma vaga em comédia.
Historicamente, essas são categorias menos concorridas que as de drama. Por isso, parte do público aponta que "O Urso" e "O Segredo de Widow’s Bay", por exemplo, levam vantagem em relação às comédias mais leves e despretensiosas, como "Only Murders in the Building" e "Falando a Real".
"Deixamos isso a cargo dos votantes", afirma Maury McIntyre, um dos diretores da Academia, que também dava entrevista. "Se alguém disser que escreveu uma comédia, mas os votantes pensarem que aquilo é um drama, não devem votar nessa obra."
Concorrem ao Emmy também as séries "Slow Horses", "Paradise" e "O Cavaleiro dos Sete Reinos", em drama. Entre as minisséries, "All Her Fault" e "O Monstro em Mim" estão no fim da corrida.
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