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Saturday, October 31, 2026

Acções de deformação de professores

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Desde 2021 que procuro chamar a atenção dos meus leitores e também, claro, dos nossos governantes para o trabalho de sapa ou de lavagem cerebral que tem vindo a ser feito no ensino da História pois um dos objectivos da gente que defende as reparações a África e aos africanos é a alteração dos programas dessa disciplina nos ensinos básico e secundário. Para quê? Para transmitir às gerações mais novas e vindouras uma versão dos acontecimentos que seja mais elogiosa dos africanos e muito mais condenatória dos povos ocidentais.

Tudo isso está a ser cozinhado nos subterrâneos, longe da vista da maior parte das pessoas. Nos primeiros tempos a gente woke vinha a público fazer as suas reivindicações e defender frontalmente os seus pontos de vista, exercendo de forma aberta pressão sobre os ministros da educação. Nessa época era possível debater ideias com essas pessoas e contestá-las. Foi o que fiz com as ex-deputadas Beatriz Gomes Dias e Joacine Katar Moreira e, também, com a socióloga Cristina Roldão e o bem conhecido Mamadou Ba, entre muitos outros. Todavia, a partir de determinada altura, os activistas preferiram actuar pela calada através de acções de formação ou, para ser mais rigoroso, acções de deformação de professores, fazendo-o em vários palcos e contando, por vezes, com o apoio ou conivência de instituições prestigiadas como é o caso da Fundação Calouste Gulbenkian, cujo posicionamento e acção nesta área já por diversas vezes critiquei.

Porém, as críticas têm caído em saco roto e a Gulbenkian continua a fazer a sua deformação lançando mão de alguns formadores claramente comprometidos com a causa woke. Eu não assisti aos cursos, mas, pelo que vou lendo da parte de alguns desses formadores, das duas, uma: ou não sabem do que estão a falar; ou, então, sabem e estão conscientemente a falsear a História. O resultado num ou no outro caso é o mesmo e é desastroso.

Uma das pessoas em questão é Marta Araújo, investigadora do CES, o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Esta senhora brindou-nos há tempos com um artigo intitulado “Escravatura, raça e racismo: novas narrativas dos manuais de História em Portugal?”, um texto muito eloquente quanto ao suposto “conhecimento” que estas pessoas estão a querer transferir para as cabeças dos professores e, através delas, para as dos alunos.

Vejamos esse artigo mais de perto. Marta Araújo afirma que “a chamada escravatura transatlântica foi um processo multisecular marcado por complexas relações políticas e comerciais entre diferentes potências europeias” (sic). Como certamente já repararam faltam nesta definição ou caracterização dois elementos importantíssimos. Em primeiro lugar, e acima de tudo, faltam a África e os africanos, que só entram nas concepções de Marta Araújo como vítimas, não como organizadores, agentes activos e parte beneficiada do horrível negócio. E faltam, também, os países americanos independentes — nomeadamente o Brasil — que já livres das suas antigas metrópoles continuaram a fazer o tráfico transatlântico de escravos. Marta Araújo apagou tudo isso do seu horizonte para atribuir em exclusivo à Europa o ónus pelo tráfico negreiro e é de supor que seja isso ou algo equiparável que transmite aos seus formandos.

Em termos de apagamento selectivo nem Estaline faria melhor até porque os apagamentos que Marta Araújo promove não ficam por aqui. Para ela a escravatura transatlântica “desenvolvida a partir da Europa” tem três características que a distinguem de outros processos de dominação, exploração e opressão”. Em primeiro lugar “a violência que lhe esteve associada”; em segundo lugar, “a progressiva desumanização dos escravizados, que eram considerados propriedade dos seus senhores e utilizados para tarefas frequentemente degradantes e penosas”; e, em terceiro lugar a “sua dimensão racial”. Como muita gente saberá destas três características supostamente distintivas só a última o é verdadeira e efectivamente. As outras duas são comuns a muitos outros sistemas escravistas que eram manifestamente violentos — pense-se, por exemplo, na violência e altíssima mortalidade nas castrações de rapazes negros a fim de serem vendidos a compradores de religião muçulmana — e em que os escravos para além de serem propriedade alienável dos seus senhores tinham tarefas degradantes e penosas, ou, mais do que isso, mortais, como sucedia, na Antiguidade, com os escravos que trabalhavam em minas ou remavam nos navios de guerra. Transmitir aos professores e outros formandos a ideia de que só a escravatura transatlântica foi violenta, ou que foi a mais violenta de todas, transmitir, também, que foi a única que implicou trabalhos penosos e degradantes, é uma óbvia falsificação dos factos. É extraordinário que Marta Araújo se insurja contra aquilo que designa por “apagamento de processos de violência” quando os manuais escolares abordam a expansão europeia para o mundo tropical, mas não se dê conta de que ela procede a um apagamento muito mais amplo quando anula ou não refere toda a violência de todas as outras formas de escravatura para além da transatlântica. Saberá Marta Araújo que os piratas barbarescos, por exemplo, terão capturado 1,25 milhões de cristãos nas costas da Europa, que depois venderam nos mercados do norte de África — Tunes, Argel, etc. — e que as condições de vida das pessoas assim escravizadas eram duríssimas? Saberá que quando a revolta de Espártaco foi esmagada os romanos crucificaram seis mil escravos ao longo da Via Ápia? Se isso não é violência então que nome lhe dá?

Por fim Marta Araújo congratula-se com o facto de os manuais escolares mais recentes já corresponderem melhor aos desejos da gente woke, mas nota que ainda subsistem neles “esquemas narrativos que podem contribuir para uma certa banalização do tema”. Marta Araújo gostaria que esses manuais se dissesse ou mostrasse uma suposta excepcionalidade da escravatura transatlântica que a tornaria diferente e pior do que todas as outras, e torce o nariz quando repara que, nos manuais escolares, “a escravização continua a ser explicada como uma necessidade económica da Expansão, ou seja, o contexto demográfico português carecia de mão de obra”. Também não gosta que se relacione a escravatura transatlântica com formas de servidão e de exploração do trabalho existentes em épocas anteriores. Ainda que não o escreva preto no branco é óbvio que Marta Araújo, perfeitamente em linha com a aberrante proposta aprovada na Assembleia-Geral da ONU em 25 de Março último, segundo a qual o tráfico transatlântico de escravos seria o mais grave crime contra a humanidade, concebe (e quer que se apresente) o sistema escravista transatlântico desenvolvido entre os séculos XV e XIX como algo único, nunca igualado na sua perversidade e nos seus malefícios, e nascido não de circunstancialismos económicos e demográficos, mas da maldade intrínseca dos portugueses e de outros povos europeus.

Ora é a este encadeado de asneiras, cegueiras e aldrabices que a actual e prestimosa direcção da Fundação Calouste Gulbenkian continua a dar palco e voz, num persistente esforço de difusão de ignorância histórica e de lavagem cerebral dos formandos. A Gulbenkian, que em 2024 já nos tinha dado a primeira dose desta receita e que no ano seguinte trouxe até Lisboa a exposição “Complexo Brasil” e a sanha acusatória de gente como a jornalista Eliane Brum — a tal que considera que “o que os homens portugueses começaram a fazer (no Brasil) tão logo colocaram as suas botas e seus corpos infetados no ventre de areia das praias, seus pénis sifilíticos nas vaginas das mulheres originárias, foi construir ruínas” —, prossegue a sua rota wokista em prol da chamada “descolonização” do ensino e do conhecimento. Tudo indica que quem dirige a Fundação acredita que isso será muito justo e benéfico e que não se dê conta — ou então que não se importe — de estar a patrocinar um chorrilho de erros e mentiras.

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