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Wednesday, September 2, 2026

Embrapa aposta em trigo transgênico para elevar safra no cerrado

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O cerrado está à espera de uma variedade transgênica de trigo para dar o arranque na área e no volume de produção. A região, após 40 anos de pesquisa e de seleção do cereal, obtém um trigo com qualidade industrial, boa produtividade e chega ao mercado na entressafra da produção do Paraná e do Rio Grande do Sul, líderes nacionais em produção.

Em 2022, o cerrado obteve o recorde mundial de produção, atingindo 9 toneladas por hectare, ultrapassando a produção da Nova Zelândia. Os dados levam em consideração o ciclo de produção. A região obteve esse volume em 119 dias, enquanto a produção neozelandesa chega a 14 toneladas, mas com duração de 300 dias no processo produtivo.

"Essa qualidade industrial obtida faz com que nosso trigo seja muito procurado", diz Julio Cesar Albrecht pesquisador do programa de melhoramento de trigo da Embrapa Cerrados. A área atual de produção fica próxima de 400 mil hectares, e aponta alguns problemas impeditivos para um alcance maior.

Primeiro, a concorrência do trigo argentino. Para vender produtos industriais para o país vizinho, o Brasil precisa importar trigo argentino, diz o pesquisador.

Segundo, são poucos os moinhos localizados próximos da área de produção na região de Brasília. Eles estão localizados no litoral, e o custo da logística é maior do que o da compra do cereal da Argentina, que dá até um ano de prazo para o pagamento.

Além disso, há problema de armazenamento na região, segundo o pesquisador da Embrapa. Com isso, a região, que poderia estar semeando de 1 milhão a 2 milhões de hectares, permanece em 400 mil.

"Temos potencial para muito mais", afirma.

No cerrado, há a possibilidade de duas safras. A de sequeiro, que é semeada a partir do final de fevereiro, e colhida em junho e julho, e a irrigada, com plantio em maio e colheita entre agosto e setembro.

A cultura do trigo é importante na região não apenas pela produtividade, pela boa qualidade e pelo retorno econômico, mas também pela rotação de cultura.

"O trigo é uma planta supressora de doenças do solo e de pragas", diz o pesquisador da Embrapa.

A rotação de cultura e o benefício da planta no combate a pragas e doenças levam o produtor a semear o trigo sequeiro mesmo diante de possíveis riscos. A cada dez anos, há a possibilidade da perda de duas safras, obter rendimento mais ou menos em três e colher bem em cinco, diz o pesquisador.

Mas o trigo irrigado tem a concorrência de outras culturas mais rentáveis, como hortaliças, milho, cebola, feijão e batata. Essas culturas têm um retorno econômico alto, segundo o pesquisador.

Para reduzir os riscos do trigo sequeiro, muito dependente das chuvas, os pesquisadores da Embrapa estão selecionando materiais tolerantes à seca e ao calor.

"Estamos buscando muito isso. Tanto que fizemos um convênio agora com uma empresa da Argentina. Cruzamos materiais transgênicos com materiais tolerantes à seca e ao calor, e esse trigo transgênico é o futuro", diz Albrecht.

Ele acredita que essa variedade estará no mercado em três anos. A Embrapa já faz experimentos com ele, inclusive no sistema irrigado para adiantar o ciclo. Os pesquisadores buscam um cultivar com características de tolerância bem superior às variedades atuais.

Com esse produto é possível a manutenção da produtividade de pelo menos duas toneladas por hectare, o que é bastante viável para o produtor, mas com redução de riscos na produção.

A semeadura do trigo é importante na região também porque o cereal tem uma das melhores palhadas entre as culturas brasileiras. É supressora de plantas daninhas, evita a aplicação de herbicidas, protege o solo e mantém uma estrutura física boa dele.

Albrecht destaca, no entanto, a dificuldade dos produtores em comercializar o cereal no Brasil. Sem capacidade de armazenamento, o produtor colhe e tem de vender, nem sempre com boa remuneração.

"O moinho, na hora de comercialização, pisa um pouco no pescoço do produtor que não tem condição de armazenar muito trigo. Já para vender feijão, soja e milho, basta levantar o telefone e aparecem os compradores".

A produção de trigo no cerrado tem algumas vantagens em relação à da região Sul. Além do bom desempenho industrial gerado pelo cereal, ele é livre de aflatoxinas, geradas por um fungo comum nos estados abaixo do Paraná, devido à chuva na colheita e umidade em armazenamento. Há um projeto de o país fazer um selo, a nível mundial, destacando que o trigo do cerrado é livre de aflatoxinas.

A concorrência da produção brasileira com a da argentina é grande, uma vez que eles têm terrenos mais férteis e custos menores.

"Por isso, estamos trabalhando muito na qualidade e na produtividade", afirma o pesquisador.

O trigo transgênico está sendo desenvolvido com a cultivar BRS 264 da Embrapa, bastante produtiva, segundo ele, e um gene de uma empresa argentina com tolerância à seca. Será a BRS 264 para sequeiro com alta tolerância à seca, afirma.

O trigo no cerrado traz rendimento ao produtor. O irrigado tem custo equivalente a quatro toneladas das seis produzidas em um hectare. No caso do sequeiro, das duas produzidas, pelo menos 1.500 quilos são custos, segundo Albrecht.

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