"Netanyahu tem uma vitória que não podemos ofuscar"

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Este é o Gabinete Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do tenente-general Marcos Serronha. Bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Bom dia. Comecemos por Israel, com cerca de 90% dos votos contados. Nem a coligação de Netanyahu, nem a oposição de Eisenkot conseguem atingir a maioria dos 61 deputados, o que significa que terão de formar alianças para alcançar uma coligação vencedora. Tenente-general, Netanyahu ainda tem margem para resgatar aliados ou perdeu o controle do jogo político?
Olá, bom dia, Maria Mendes. Bom dia. Vamos lá ver. A situação está complicada sob o ponto de vista da gestão política futura, embora Netanyahu tenha uma vitória que nós não podemos ofuscar. Ou seja, ganhou as eleições e, portanto, tem neste momento a liderança sob o ponto de vista da tentativa de formar um governo. Se será mais fácil para ele, presumo que não. A oposição tem capacidade para formar um governo, naturalmente, também. Teria que meter os partidos árabes, o que se prevê difícil. Ou pelo menos não se vê grande interesse da parte dos três principais partidos da oposição, de envolverem os partidos árabes numa coligação ou mesmo num apoio exclusivamente ao nível do Knesset. A outra opção é uma opção que também se fala, naturalmente, que é um governo de coligação e de unidade nacional, ou de unidade nacional, enfim, de coligação entre o Likud e um ou dois partidos mais ao centro, coisa que já aconteceu no passado, isto não é caso virgem, como sabemos, e que poderia ser um governo de unidade nacional. Se isso é do interesse específico de Netanyahu, vamos ver nos próximos dias, semanas. Porque Netanyahu pode tentar, tem sempre essa opção, de inviabilizar qualquer governo de coligação. E portanto, se os partidos da oposição do centro e do centro-esquerda, israelitas não quiserem meter os partidos árabes, a possibilidade de haver eleições antecipadas é grande. Aliás, o próprio presidente já falou nisso, naturalmente.
General, falemos dos partidos árabes, com uma participação histórica perto de 80% dos eleitores árabes. As projeções indicam que podem alcançar-
Foram grandes vitoriosos talvez desta eleições.
Dezesseis, 17 lugares. Como é que se explica esta mobilização recorde do eleitorado árabe? O resultado muda completamente a relação de forças em Israel?
Não muda completamente a relação de forças, porque esta divisão em termos retóricos, sionistas e árabes, de algum modo mantém-se. Embora os partidos árabes tenham tido a capacidade de envolver a população árabe mais nas eleições, naturalmente. E isto tem todas as razões para surgir, naturalmente, porque os árabes começam a ver-se em dificuldades relativamente ao seu posicionamento político dentro do Estado de Israel. E portanto, tendo mais força, como é lógico, numa democracia, têm mais direito a ter uma palavra a dizer relativamente a determinado tipo de coisas, não só sobre a questão governamental, mas sobre a própria política interna. E é um elemento que tem uma coisa contraditória, ou seja, provavelmente vai criar maior acrimônio nos partidos radicais e ortodoxos israelitas, judeus. Esperemos que não caminhe para uma polarização no sentido político do termo, mas no sentido de haver maior capacidade de envolver os árabes na questão da política interna israelita. E depois há aqui uma questão que também é interessante observar, que é sob o ponto de vista da segurança, por assim dizer, e das questões da segurança de Israel, a divisão entre o centro e a direita, o Likud, não é tão diferente como isso, naturalmente. Portanto, nós começamos a observar que há aqui posições, mesmo de Eisenkot e de Lapid, que acham que não deve haver dois Estados na região, as posições semelhantes relativamente à postura, relativamente à Faixa de Gaza e ao Líbano. Portanto, há aqui uma questão central que pode, de algum modo, unir. Unir a possibilidade de uma coligação. Agora, a grande questão aqui é até que ponto Netanyahu está disposto a ceder aquilo que é o seu conceito, e que é um conceito que também foi muito apoiado ou influenciado pela extrema direita israelita, relativamente à questão da Cisjordânia, e é que pode existir, existe maior divergência entre o centro e Netanyahu. E depois a questão do Irão. Embora sobre o Irão, todos têm mais ou menos a mesma posição, que o Irão não pode sair desta guerra com a sua força reforçada, e isso pode exigir outro tipo de situações. Mas julgo que será agora, quando isto parar, o processo da contagem eleitoral e começar as negociações, começaremos a ver exatamente até que ponto Netanyahu está disposto a abdicar daquilo que foi um poder quase absoluto que teve nesta última legislatura, em prol de qualquer coisa mais Menos robusta sob o ponto de vista da atividade externa de Israel e da sua política externa, essencialmente. E interna também no caso da Cisjordânia.
Exatamente. Falemos agora da Rússia e da Ucrânia, que iniciaram uma trégua humanitária temporária em Oleshky, na região de Kherson. Trégua mediada pelos norte-americanos para permitir evacuações e apoios a civis. General Marcos Ronha, qual é o objetivo da Rússia? É desviar atenções enquanto bombardeia outras cidades, dar votos a Donald Trump nas intercalares que se aproximam?
Eu julgo que é uma mistura de tudo isso. Não há dúvida, e hoje começa a ser claro, que metade das decisões que são tomadas por esse mundo fora têm em vista as eleições americanas. Portanto, isso tem influenciado de algum modo as situações, seja para o bem, não podemos dizer isto, ou para o mal, mas tentando aqui manifestar alguma diferença entre aquilo que são os opositores de Donald Trump e os seus apoiantes, uns numa direção, outros noutra. Vemos o Irão também com posturas sob o ponto de vista da sua política externa, de criar dificuldades a Donald Trump e, neste caso, apoiar a oposição democrata dentro dos Estados Unidos para ganharem votos, no sentido de Donald Trump não ter a força que tem nesta altura para continuar a guerra com o Irão. E outros países, como é o caso da Rússia, naturalmente, que tem feito tudo, não só a questão de Oleshky, mas a questão das negociações com a Ucrânia e o reinício do processo de paz, de dar uns trunfos a Donald Trump sob o ponto de vista eleitoral. Agora, há uma questão aqui também de realidade, que era uma situação, embora Putin não seja sensível a esse tipo de coisas, uma situação sob o ponto de vista humanitário que estava muito grave em diversas dimensões, naturalmente. Portanto, havia já pressões, sabemos que Melania Trump, pelos vistos, terá tido aqui um papel importante na assinatura, mas o Papa com certeza também teve. A ONU também, muita pressão sobre a Rússia e sobre a Ucrânia relativamente a isto. O processo está a correr bem e é um bom exemplo. Aliás, eu disse ontem que o próprio cessar-fogo nesta região tão pequenina, tem de algum modo também influenciado a segurança mesmo na região, no oplaste de Kherson, a cidade de Kherson não tem sido atacada massivamente nestes últimos dias por mísseis, conforme tem sido no passado. Portanto, pretendo dizer e transmitir que um acordo de cessar-fogo ao longo da linha da frente seria bom para toda a gente. Julgo que Putin não caminhará nesse sentido, naturalmente. Mas é importante, até sob o ponto de vista interno da Rússia, também dá algum apoio a Putin, mas, por outro lado, também mostra à população russa que esta possibilidade de um acordo de paz desta natureza também é importante que pudesse ser estendido a toda a linha da frente, mesmo que fosse temporário.
Exatamente.
Mas que seria importante, naturalmente.
Tenente-general Marcos Ronha, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana. Obrigada, e sempre obrigada.
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