Pequena meditação sobre o despojamento da luz

Pouco menos de um século após a sua fundação, Madinat al-Zahra foi destruída. Diziam alguns que Abderramão III a mandara erguer em memória do grande amor da sua vida; outros preferiam acreditar que a cidade nascera de um cálculo astronómico, obedecendo à geometria das estrelas, aos movimentos da luz e às secretas leis do céu. Estava rodeada de laranjeiras, e na Primavera o aroma da flor de laranjeira espalhava-se pelos pátios, pelas casas e pelas levadas como uma espécie de promessa. As águas atravessavam-na segundo desenhos concêntricos, ora visíveis, ora escondidos, e talvez houvesse quem julgasse que a própria cidade possuía um coração, irrigado por essas veias claras.
No ano de 1010 da era cristã, os berberes entraram em Madinat al-Zahra e destruíram-na. Os inimigos do Califado de Córdova não eram numerosos, mas sabiam esperar. Odiavam os banhos públicos, os canteiros de rosas e prímulas, as ameixeiras, as amendoeiras, as oliveiras. Odiavam sobretudo a biblioteca. Não se tratava de um ódio nascido da admiração frustrada, nem sequer da inveja, pois muitos dos seus chefes jamais haviam visto uma biblioteca e desconheciam o que significa passar uma tarde diante de uma página aberta, ouvindo a voz de alguém que morreu há séculos e que, apesar disso, ainda parece saber o nosso nome.
Respondiam apenas ao velho apelo da fitna, esse vento de guerra que começa por soprar por entre as torres e acaba por se deter sobre os corpos. Primeiro ouviram-se os gritos, confundidos com o relinchar dos cavalos e o estalar das árvores partidas. Depois, três ou quatro camponeses, aturdidos de medo, imploraram piedade. Houve cavalos em debandada, pomares revolvidos, portas arrombadas, e por fim uma carga de espadas erguidas. Os invasores avançaram possuídos por aquela falsa convicção de serem as mãos e os braços de Deus, como se o céu tivesse necessidade da violência humana para cumprir os seus desígnios.
A biblioteca era mais larga do que alta e abria-se para um pátio de ciprestes e palmeiras. Tinham instalado havia pouco persianas de palma-da-Índia, que coavam a claridade do meio-dia e deixavam entrar uma luz verde, semelhante à que se vê no fundo de certos rios. O bibliotecário, que morreria entre os seus livros, era primo do jardineiro; e o jardineiro era meio-irmão de Abderramão III. Assim, naquela pequena casa do saber, as árvores, os livros e o poder pertenciam à mesma genealogia imperfeita, feita de sangue, tinta, raízes e memória.
No instante em que a cidade era tomada, cinco crianças aprendiam ali as primeiras letras. O alfabeto era-lhes ensinado com pequenas peças de marfim, guardadas numa caixa de cedro cujo perfume persistia nas mãos depois de aberta. Ainda não sabiam que aprender a ler é aceitar uma espécie de responsabilidade perante o mundo. Para elas, a leitura era um jogo; recitar, um prazer; memorizar passagens do livro santo, uma honra. As letras pareciam criaturas dóceis, dispostas em filas sobre uma página, e ninguém lhes tinha dito ainda que, por vezes, os homens queimam aquilo que não conseguem ler.
Um cavaleiro entrou na sala de leitura montado no seu animal. Olhou em redor e riu-se. Talvez lhe parecesse excessivo que uma cidade pudesse confiar os seus tesouros a coisas tão frágeis: folhas, lombadas, caixas de madeira, sinais negros que não se comiam, não davam abrigo, não feriam ninguém. Aproximou-se das crianças e tentou, de maneira estranha, tranquilizá-las. Disse-lhes que, em toda a sua vida, nunca tinha visto tantos livros juntos; disse-lhes também que nenhum sobreviveria ao ataque. Depois concedeu-lhes uma derradeira licença: cada criança poderia escolher um livro.
Elas escolheram devagar. Talvez tenham percorrido as prateleiras como quem passeia por um jardim onde tudo está prestes a desaparecer. Quando apertaram os volumes contra o peito, não os seguravam como objectos preciosos, mas como se abraça uma presença familiar, uma recordação da casa, uma voz que nos acompanhou antes de sabermos falar. Só então o cavaleiro lhes pegou fogo.
Antes disso, porém, interrogara-as.
Perguntou ao primeiro por que motivo escolhera um livro ilustrado com flores. A criança, depois de hesitar, respondera que as plantas eram uma das alegrias da cidade. Não disse que as flores eram belas, talvez porque a beleza fosse para ele uma evidência demasiado simples para necessitar de explicação. As plantas alegravam a cidade porque a impediam de ser apenas pedra, poder, comércio, ordem e guerra. Uma cidade que possui flores conserva ainda alguma possibilidade de misericórdia.
Ao segundo perguntou o que encontrara naquele livro de palácios para o preferir aos outros. O menino respondeu que, num dos jardins de papel, uma das senhoras se parecia com a sua mãe. Talvez o conquistador não tivesse compreendido que uma imagem pode abrigar um rosto e que um rosto, mesmo desenhado, pode salvar por instantes alguém do abandono. Os palácios do livro não eram apenas palácios: continham uma mãe que caminhava por entre árvores imaginadas, sem suspeitar que, do lado de fora da página, a cidade ardia.
O terceiro escolhera um volume sem imagens. O cavaleiro observou-o com curiosidade e quis saber o que poderia agradar-lhe num livro sem figuras. O menino explicou que as letras eram rápidas, que passavam de página em página como as ondas de um rio. Disse ainda que existiria sempre mais vazio do que palavras; e que, se os desenhos traziam consigo a sua própria cor, era ele quem dava cor às letras.
Talvez aquela resposta tenha perturbado o soldado mais do que as outras. Havia nela uma sabedoria que não se conquista à força de armas: a percepção de que uma página não está completa sem o olhar de quem a lê. As letras necessitam da imaginação, tal como as sementes precisam de água e os mortos da memória dos vivos. O leitor não recebe passivamente um mundo já terminado; participa no seu nascimento. Dá cor ao que, sem ele, poderia permanecer apenas sinal escuro sobre uma superfície pálida.
As respostas das crianças incomodaram o conquistador. De algum modo, era humilhante que soubessem mais do que ele. Não necessariamente mais coisas, mas coisas outras: sabiam reconhecer numa flor um motivo de alegria, num desenho as feições de uma mãe, numa sucessão de letras o movimento de um rio. Esse conhecimento tornava-as livres, e a liberdade dos que ainda são pequenos pareceu-lhe talvez mais ofensiva do que qualquer exército.
A quarta criança era surda-muda. A quinta era um príncipe e escolhera um livro de astronomia. Nada se sabe do que teria visto naquele céu desenhado: talvez os astros, talvez a ordem das órbitas, talvez uma promessa de que, para além da poeira dos cavalos e do fumo das casas, as constelações continuariam a guardar o seu caminho. Quando o fogo começou a subir pelas páginas, os pequenos leitores deixaram cair os livros e fugiram em direcção a um destino desconhecido, e certamente infeliz.
Madinat al-Zahra fumegava, gemia, soluçava. As mulheres, jovens e velhas, tinham sido reunidas num grande aposento, enquanto os soldados lhes calculavam a idade com a indiferença de quem avalia mercadoria. O céu dividira-se em duas partes: uma vermelha, iluminada pelos incêndios; outra cinzenta, carregada de fumo e cinza. As notícias da destruição da cidade encantada chegariam depressa ao Norte, não como lamento, mas como aviso, para que outros aprendessem a temer.
Um dos soldados imaginava já que as pedras das ruínas serviriam para novas construções. Outro compreendia que o sangue derramado nas levadas impediria que delas se bebesse. A destruição possui sempre essa dupla fome: deseja apagar aquilo que existiu e utilizar os seus restos para levantar outra ordem sobre as cinzas. Mas as pedras reaproveitadas guardam alguma memória das casas que foram; e a água, ainda que turva, não esquece inteiramente o sangue que recebeu.
A fragilidade das coisas deste mundo via-se nos rostos dos sobreviventes. Via-se nos jardins desfeitos, no bibliotecário morto entre os livros, nos volumes em chamas, na fuga das crianças, no fumo que subia para um céu incapaz de responder. A fome de saque despertava nas mãos dos conquistadores. E, acima da cidade destruída, uma tristeza infinita brilhava nos olhos insones das aves.
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