Mymba Kuéra: como foi o monumental resgate de mais de 30 mil animais durante a construção de Itaipu, entre o Brasil e o Paraguai

- Author, Alejandra Martins
- Role, BBC News Mundo
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Tempo de leitura: 9 min
"Era um grande desafio. O Paraguai nunca havia feito nada parecido, nós fomos os pioneiros."
Darío Pérez Chena tinha 43 anos de idade quando liderou um dos maiores resgates de animais silvestres da história da América Latina.
O engenheiro agrônomo paraguaio dirigiu a equipe que, em 1982, salvou milhares de animais em uma corrida contra o tempo: desde macacos até tatus, cobras e tarântulas.
Pérez Chena trabalhava para a Itaipu Binacional, o organismo criado por um acordo entre o Brasil e o Paraguai, que foi encarregado da construção de uma obra colossal de engenharia no rio Paraná.
Com mais de 7 km de comprimento, a usina de Itaipu passou a ser, na época, a maior hidrelétrica do mundo.
O engenheiro havia se formado no Paraguai e retornado à capital do país, Assunção, após sua pós-graduação na Alemanha. Ele era diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai, até que decidiu assumir outro grande desafio.
Pérez Chena se mudou, com a esposa e os filhos, para a cidade de Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Ele passou a ser o responsável pela fauna e flora terrestre em Itaipu.
Seu trabalho no resgate histórico da fauna local definiu as bases para a proteção da biodiversidade na região, que se mantêm até os dias de hoje.
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Pérez Chena contou como se deu a titânica operação à jornalista Stefania Gozzer, do programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC.

Crédito, Itaipu Binacional
Tesouro de biodiversidadee
A construção da represa de Itaipu levou nove anos. Nela trabalharam cerca de 40 mil pessoas.
Para realizar as obras em terreno seco, foi necessário escavar um canal para desviar o rio temporariamente.
Os trabalhos foram finalizados em 1982. Tudo estava pronto para abrir as comportas e começar a encher de água o gigantesco reservatório da represa, com cerca de 1.350 km².
Mas a região a ser inundada fazia parte de um enorme ecossistema: a Floresta Atlântica do Alto Paraná, uma das áreas de biodiversidade mais ricas do planeta.
Este habitat abriga cerca de 20 mil espécies de plantas e pelo menos 2 mil espécies de animais, como onças-pardas e onças-pintadas, além de 400 espécies de aves.
A construção de Itaipu coincidiu com uma nova era na história da ecologia, iniciada pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada na capital sueca em 1972.
A Conferência de Estocolmo transformou o meio ambiente em uma questão fundamental. E o resgate da fauna de Itaipu despertou enorme interesse em todo o planeta.
Seria possível salvar, ao menos parcialmente, aquele tesouro da biodiversidade?
O Brasil e o Paraguai assumiram a tarefa de resgatar a fauna silvestre da sua margem do rio. E, no lado paraguaio, o projeto de recuperação da fauna recebeu o nome de Mymba Kuéra — "os animais", em idioma guarani.

Crédito, Itaipu Binacional
189 pessoas
Os preparativos para o resgate levaram vários anos. Eles incluíram a realização de um inventário de toda a área atingida, com a participação de botânicos, zoólogos e engenheiros florestais, entre outros profissionais.
Cada avistamento era registrado e os animais eram identificados também pelos seus rastros, como pegadas ou materiais fecais.
"O relevo permitiu a construção de um grande arquivo da fauna paraguaia", contou o engenheiro Pérez Chena à BBC.
"Contribuímos muito para o conhecimento daquela região. E também oferecemos a oportunidade de aprender a muitos alunos de biologia, veterinária e agronomia."
O inventário foi a base da operação de resgate, que seria realizada por uma equipe de 189 pessoas, liderada por Pérez Chena.
"A equipe foi muito bem selecionada", recorda ele. "Tentamos levar pessoas jovens, com não mais de 40, 45 anos, que soubessem nadar, que tivessem boa visão e boa audição."

Crédito, Itaipu Binacional
Os socorristas se deslocavam em lanchas e se comunicavam pelo rádio, frequentemente em guarani.
"A tecnologia era diferente naquela época", recorda Pérez Chena. "Não tínhamos telefones sem fio, tínhamos rádios antigos e os motores das lanchas eram menos desenvolvidos que os atuais."
"Usávamos equipamentos que hoje, praticamente, são peças de museu, mas fizemos com eles algo que, hoje em dia, é sempre analisado e recordado."
Além das 189 pessoas a cargo do resgate, havia uma equipe de apoio de mais 150 pessoas, entre médicos, enfermeiros, pilotos de helicóptero, mecânicos e bombeiros. Todos eles ficavam nos complexos habitacionais construídos especialmente para as obras de Itaipu.
Os socorristas foram treinados por técnicos brasileiros e de outros países.
"Com essa bagagem de conhecimento e de recursos humanos, saímos para a aventura no dia 13 de outubro de 1982", conta o agrônomo.

Crédito, Itaipu Binacional
Corrida contra o tempo
Naquele dia 13 de outubro, as comportas do canal de desvio foram fechadas e a região do lago começou a ser inundada.
O resgate dos animais começou enquanto a água subia.
Inicialmente, foram recuperados poucos animais, mas o número aumentou rapidamente, até atingir o pico de mais de 600 em um único dia.
"Salvamos apenas os animais que não sabiam nadar", conta Pérez Chena.
"Alguém me perguntou: 'Quantas onças-pintadas vocês salvaram?' Respondi: 'Nenhuma.' Porque a onça-pintada é uma grande nadadora e não precisa ser salva."
"Existem até onças-pintadas que cruzam o rio Paraná, do Paraguai para o Brasil e do Brasil para o Paraguai", explica ele.

Crédito, Itaipu Binacional
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Pérez Chena relembra que os macacos sabem nadar, mas eles ficam cansados e podem se afogar.
"Na água, muitos animais são totalmente indefesos", ele conta. "Eles concentram toda a sua energia em se salvar. Por isso, é fácil pegá-los com uma rede ou laço."
"Salvamos macacas com filhotes pequenos pendurados no pescoço. Parecia que elas choravam por perderem sua liberdade."
Os trabalhadores foram treinados para lidar com animais agressivos, tarântulas e serpentes venenosas.
"Existem víboras com veneno tão tóxico que é preciso agir em poucos minutos", segundo Pérez Chena. "Em cada lancha, tínhamos um kit com soro antiofídico para uso em casos de emergência."
O agrônomo não esperava precisar resgatar aves, mas também salvou muitas delas.
"Encontramos aves chafurdando na água", relembra ele.
"Elas subiam nos ramos das árvores para caçar insetos e, às vezes, molhavam as penas da cauda, que é o timão delas. Precisamos começar a buscar jaulas especiais para recolher aves."
A operação de resgate se prolongou até o dia 10 de janeiro de 1983.
"Ao todo, salvamos 27.150 animais. Destes, 45% eram cobras e a metade delas eram venenosas."
No lado brasileiro, a floresta era menor e havia mais áreas de cultivo. Por isso, foram resgatados apenas cerca de 11 mil animais.
"Somando tudo, são quase 39 mil animais, um recorde para a América do Sul até hoje", destaca Pérez Chena.

Crédito, Itaipu Binacional
Cobras e tatus
Muitos dos animais foram trasladados para mais de 100 mil hectares de áreas protegidas no mesmo ecossistema da mata atlântica.
Centenas de víboras foram encaminhadas para o Instituto Butantan em São Paulo, líder em pesquisas biológicas e na produção de soros antiofídicos e outros produtos farmacêuticos.
"Às seis horas da manhã, saía todos os dias o primeiro avião que levava os caixotes com as cobras rumo a São Paulo", recorda Pérez Chena.
Alguns tatupebas acabaram no Japão.
"Ele é um dos poucos animais resistentes à lepra", explica o engenheiro. "Esses tatus do Alto Paraná foram parar em Tóquio para estudos científicos."
Pérez Chena reconhece que, apesar da vasta operação, muitos animais não puderam ser resgatados.
"Salvamos muitos animais, mas provavelmente morreram muitos outros", lamenta ele.
"Insetos, por exemplo. Não sabemos quantos animais que moravam embaixo da terra passaram a fazer parte da matéria orgânica do solo."
"Admitimos que houve erros, mas nunca por negligência", explica o agrônomo. "Somente por inexperiência."
"Sempre trabalhamos com as mãos limpas, com a consciência limpa de que estávamos fazendo algo positivo para o mundo. Trabalhamos com muita honestidade, dentro do que conhecíamos e acreditávamos que fazíamos bem. Tivemos grande convicção."
Ele destaca que a operação irmanou os socorristas. "Nós protegíamos uns aos outros o dia todo."
"Não tivemos nenhum acidente sério. Apenas pequenas mordidas de macacos, mas todos os 189 retornaram."

Crédito, Itaipu Binacional
'Foi um orgulho'
Atualmente, a usina hidrelétrica de Itaipu abastece cerca de 86% do mercado de eletricidade do Paraguai e 9% do Brasil. O Paraguai vende parte da sua energia produzida para o Brasil e, por isso, é um país exportador de eletricidade.
A grande obra hidrelétrica só foi superada, em tamanho e capacidade de geração, pela represa de Três Gargantas, na China, concluída em 2012. Mas Itaipu mantém o recorde mundial de energia produzida acumulada ao longo dos seus mais de 40 anos de operação.
Pérez Chena tem, agora, 87 anos. Ele vive em Assunção, com sua esposa Lucina. O casamento trouxe quatro filhos e 12 netos.
O engenheiro agrônomo agradece até hoje por aquela equipe de 189 homens ter sobrevivido ao resgate. Deles, "talvez 50 ou 60 ainda estão vivos", segundo ele.
O resgate da fauna de 1982 definiu as bases para reservas e projetos de biodiversidade atuais, como o Centro Ambiental Tekotopa de Itaipu, na cidade paraguaia de Hernandarias, perto da represa.
Ao longo dos anos, a operação Mymba Kuéra recebeu diversos reconhecimentos.
"Recebemos títulos internacionais como grandes defensores da natureza", conta Pérez Chena. "Mas o mais lindo talvez seja que fizemos algo de positivo pela biodiversidade daquela região."
Darío Pérez Chena acredita que é importante continuar divulgando como ocorreu aquele resgate histórico.
"Às vezes, as pessoas dizem que o que passou, passou. Mas o passado deve nos ensinar a não cometer os mesmos erros", declarou o engenheiro paraguaio à BBC.
"Por isso, digo que a história é a professora da vida."
"Para nós, foi um orgulho termos trabalhado na recuperação dos animais antes que eles se perdessem. Deixamos uma pegada que é seguida até hoje."
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