Um outro campeonato para Ted Lasso

Para os “ultras” do treinador americano feito herói inglês, é preciso parar de fazer comparações com temporadas passadas para começar a apreciar a quarta, que agora terminou.
Corria o ano da graça de 2021 e esta que vos fala apanhou um belo camadão de Covid e ficou fechada no quarto a transpirar e a gemer, o que noutras circunstâncias poderia ser a descrição de uma ótima escapadinha a dois na Lousã, mas no caso concreto foi a maneira do meu corpo expurgar a maleita. Durante os primeiros dois dias de enfermidade, alternei entre olhar catatónica para o teto e estar ferrada a dormir. Passadas as 48 horas de cérebro em papa, senti-me capaz de rentabilizar o isolamento profilático e depois de uns quantos documentários de chalupas, assassinos e outros que tais, resolvi começar a ver Ted Lasso.
Honestamente, não me lembro bem qual foi o gatilho, mas o que é certo é que em prodigiosas 48 horas vi as duas temporadas que estavam disponíveis e assim que pude voltar ao contacto com seres humanos, não me calei enquanto não disse a todos os meus entes queridos “Sim, já estou melhor. E tens de ver o Ted Lasso”. Não só consegui evangelizar muito boa gente, como me propus, de forma absolutamente altruísta (e não porque estivesse com um hiper foco num certo homem de bigode, pullover com decote em vê e calças caqui), a rever as 2 primeiras levas da série com o meu marido. Se isto não é amor, não sei o que é.
Também ele se encantou pela série sobre futebol, que não é sobre futebol, que agrada a adeptos do esférico da relva, mas também encanta quem não sabe o que é um fora de jogo. A terceira temporada, que se acreditava ser a última, já foi degustada em tempo real e a quantidade de vezes que chorei com aquele final, não estava escrita. Mas agora vai ficar: 4 vezes.
Fiquei um pouco órfã de Lasso, que fiquei, mas o paliativo Shrinking surtiu efeito. Shrinking tem em comum o criador Bill Lawrence, também é escrita por Brett Goldstein, que interpreta Roy Kent (melhor personagem da história a proferir a palavra “Fuck”, em ex aequo com Logan Roy de Succession). À semelhança de Ted Lasso, a série protagonizada por Jason Segel e Harrison Ford também me deixa muitas vezes com aquele sorriso tonto de quem está a olhar para uma ninhada de gatos, outras vezes faz-me chorar as pedrinhas da calçada e muitas vezes faz-me rir a bom rir.
Muito se falou de um potencial spin off de Ted Lasso, que já iria abraçar com força, mesmo não sendo a mesma coisa. Por isso, podem imaginar o meu júbilo quando foi anunciada uma quarta temporada deste universo delicioso que Bill Lawrence (The Nanny, Scrubs, Rooster), Joe Kelly (SNL, How I met your mother) e Brendan Hunt (o alucinado e leal coach Beard) e desenvolvido pelo próprio do homem do bigode, Jason Sudeikis.
A quarta temporada encontra Ted a desfrutar de uma vidinha pacata no Kansas “cause there’s no place like home”, dividindo o tempo entre o trabalho num supermercado local e uma paternidade presente. Eis senão quando a santíssima trindade do AFC Richmond o vai visitar à terra da Dorothy dos sapatos vermelhos: a majestosa Rebecca (Hannah Waddingham), a frenética Keeley (Juno Temple) e o amoroso Higgins (Jeremy Swift).
Mais do que matar saudades, a presidente do clube e os seus fiéis escudeiros querem que ele volte a soprar no apito e assuma o comando da equipa feminina de futebol do clube. Pois que ele diz que sim, e isto não é spoiler, porque se ele tivesse dito que não esta temporada só tinha um episódio.
Com a mudança de plantel, esta torna-se necessariamente uma temporada recheada de novas personagens, a começar pela treinadora-adjunta Alice Chilton (Tanya Reynolds, a Lily de Sex Education), uma Olívia Palito cheia de mau feitio e rodeada de muros emocionais por todos os lados, o que não podia estar mais distante do verborreico arco-íris que é Ted. E claro, temos as novas artistas do relvado.
Lizzie (Faye Marsay, aquela que era ruim como às cobras para a Arya na Guerra dos Tronos) é uma mãe solteira a tentar um equilíbrio impossível entre a sua vontade e as suas “obrigações” e a falta de compromisso do pai dos filhos; as irmãs irlandesas Harrigan (Aisling Sharkey e Rex Hayes) que passam mais tempo a competir uma com a outra do que outra coisa qualquer; Gemma Jay (Abbie Hern) a que foi abençoada com o talento natural; Margy e Maddy (Mercedes Assad e Annelise Heywood) são um casal permanentemente intermitente e interpretam com muita graça o estereótipo das lésbicas que vão morar juntas três segundos depois de se conhecer; Shannon (Shannon Hayes) é o Éder da equipa; e por último, há quem diga que os guarda-redes são todos meio avariados dos cornos e Boots (Jude Mack) não é excepção, é o pináculo da regra.
Temos também Zelda Southport, uma milionária envolvida na indústria do futebol, que criou o seu espaço num mundo eminentemente masculino, graças ao seu dinheiro, a subterfúgios eminentemente ilícitos e a um pancadão que mete medo a qualquer um. A personagem é interpretada pela icónica Tracey Ullman (Amar-te-ei até te Matar, Robin Hood: Heróis em Collants, The Tracey Ullman Show), tem várias piadas ótimas mas, lamento dizê-lo, é mais boneco do que gente de verdade.
A quarta temporada de Lasso acompanha a construção de uma equipa de mulheres, que é vista com um desperdício de recursos. Recursos esses que, obviamente, deviam estar canalizados para aquilo que realmente interessa: o plantel masculino. Roy e Keeley “A Barbie e o Ken, em versão bonecos sexuais” continuam a tentar perceber se o que os junta é o passado ou se têm mesmo futuro. Rebecca questiona-se se aquilo que parecia uma relação perfeita em doses homeopáticas com o seu piloto holandês, se manterá saudável com o aumento da dosagem. Por outro lado, sente-se dividida entre aquilo que pode ser o melhor para o clube de um ponto de vista pragmático e o apoio à equipa feminina que é o ai, jesus da sua bestie, Keeley.
O nosso Ted vai navegando entre o seu papel como treinador e melhor pessoa do mundo, a constante preocupação em ser o pai que não teve e dar ou não uma nova oportunidade ao amor. Já Beard é revisitado pelo fantasma do Natal passado, que é como quem diz a desparafusada da ex-mulher Jane, enquanto renega o envelhecimento.
Somos presenteados com aparições de personagens das temporadas anteriores, especialmente nos últimos episódios, o que é muito satisfatório para quem é fã. Mas a verdade é que só mais para o final me apercebi que este novo elenco vale por si. Esta temporada é, de facto, das mulheres. Até porque a personagem de Ted, impecável como sempre, dá um passo atrás na narrativa (o que é extraordinariamente on character) e Rebecca e Keeley são as estrelas deste último tomo. A amizade delas é uma coisa enternecedora de assistir, os conflitos são super verosímeis e estas duas extraordinárias atrizes continuam a ter muita, muita graça.
Também a treinadora Alice é uma personagem que se vai desenvolvendo e ganhando múltiplas camadas ao longo da temporada e também isso é muito prazeroso de ver. Uma mulher que tenta ocupar um espaço que é seu por direito, mas já se sabe que o que se um homem é ambicioso e assertivo, uma gaja é conflituosa. Ou pura e simplesmente, uma cabra. É claro que tudo isto será mais relacionável para uma mulher, mas se não foi por isso que deixei de apreciar três temporadas em que alguém de bigode é o centro da história, certamente que vocês também conseguem fazê-lo durante 10 episódios, rapazes.
A certa altura, Ted diz que há uma razão para o retrovisor ser menor que o pára-brisas. E a verdade é que só quando parei de fazer comparações com temporadas passadas, é que comecei a apreciar condignamente esta. Como ela merece. Infelizmente, o meu marido não me acompanhou no visionamento desta vez por falta de tempo. Tudo indica que vou novamente fazer o sacrifício e rever com ele… Lá terá de ser.
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