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Monday, October 5, 2026

Resultados no Brasil: três opiniões rápidas

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Na segunda volta, a luta continua. Ou melhor, o luto. Se o mundo todo está polarizado, o Brasil – a maior economia da América Latina – está polarizado e meio. Não se vota a favor, mas sobretudo contra alguém: Lula ou Bolsonaro. O ódio de estimação é muito maior que o amor de perdição. Daí que as urnas sejam mais plebiscitárias e menos racionais.

Agora, porém, há um novo tempero. Milhões de brasileiros já sabiam de cor e salteado da degradação do Executivo. Nesta eleição, Lula concorreu à presidência pela sétima vez, e Jair Bolsonaro pela terceira (Flávio – favorito depois dos resultados de hoje – é só o boneco de ventríloquo do pai). Um está e o outro esteve na cadeia (num país a sério, o habitat natural dos dois). E o Legislativo, com nada menos que 30 partidos (com a consistência ideológica de uma avestruz), é quase uma manjedoura do Fundo Partidário (200 milhões de euros em 2025). Apesar da equidistância, a glutonaria insaciável do Centrão, bloco suprapartidário e amorfo, não é o fiel da balança, mas do cofre.

Todavia, o opróbrio dantesco do STF traumatizou os brasileiros. Por inerência, o Judiciário simbolizava a justiça institucional. Mas o Supremo Tribunal Federal revelou-se uma espécie de Pilatos, lavando as mãos por um preço (político ou monetário) – quando aquilo de que o Brasil precisava não era de abluções espúrias, mas de uma Operação Mãos Limpas. As facções do crime organizado pelo menos assumem que são, bem, facciosas e criminosas.

A festa da democracia hoje degenerou num velório, numa ressaca emocional de todos os lados da barricada (com exceção dos fanáticos, que continuam muitos), numa amargura patibular. Indignação 24 horas por dia, 7 dias por semana, no piloto automático do “nós contra eles”? Romper com os amigos e com a  família (nunca mais aqueles almoçaradas de domingo…)  – para isto? Num país em que o voto, além de um direito, é também obrigatório (com multas e sanções a quem não vota), a abstenção nunca foi tão alta. Se arrependimento matasse, ninguém tinha saído de casa. Como suspirou paradoxalmente uma eleitora (ainda que equivocada) depois de votar: “Estou feliz porque o Flávio vai perder, e muito triste porque o Lula vai ganhar”.

O futuro será diferente, com tal catarse? Lula – o paradigma do populista – por décadas evitou cuidadosamente formatar delfins, e, aos 80 anos, será reformado apenas pela curso da natureza. Quanto a Bolsonaro, o pai tirano, os herdeiros dele são menos políticos do que genéticos. E jamais a farinha do mesmo saco fez tão pouca farinha e caiu em tanto saco roto. Em suma: no Brasil de hoje, até o mal menor tem a mania das grandezas. Um dia talvez aprendamos a lição.

A onda chega ao Brasil

Manuel Castello Branco

A primeira volta deixou Flávio Bolsonaro à frente de Lula. Seguimos para uma segunda volta que pode estender ao Brasil a recente viragem à direita da América Latina. Depois da Colômbia e do Peru (para referir apenas os exemplos mais recentes), a direita latino-americana, cada vez mais abertamente trumpista, parece ter conseguido cavalgar esta onda até ao Brasil, confirmando que o apoio do Presidente americano, aliado a um discurso securitário forte, dá dividendos. E isto apesar de Lula ter feito tudo para que essa proximidade jogasse a seu favor. Com uma economia a abrandar e vários escândalos a reavivar precisamente o tipo de suspeitas que mais fragilizam a imagem do PT, Lula tinha pouco interesse em transformar estas eleições num balanço do seu terceiro mandato. Ao perceber, como Mark Carney no Canadá, que um incumbente desgastado pode transformar as eleições internas num referendo sobre a atuação da administração americana, fez da soberania (que aparece 31 vezes no seu programa) uma peça central da sua campanha. Mas a receita que resultou no Canadá parece não ter chegado para travar Flávio.

Na segunda volta, a 25 de outubro, os candidatos derrotados poderão ser a diferença. Em 2022, Lula venceu com uma vantagem tangencial de apenas 1,8%, depois de uma primeira volta em que liderou por pouco mais de cinco, o que mostra que uma vantagem na primeira volta está longe de ser decisiva. Os votos de Augusto Cury e Renan Santos serão, por isso, particularmente importantes. Apesar das críticas abertas de ambos à governação de Lula, seria um erro assumir que estes eleitores, que não escolheram Flávio na primeira volta, se transferirão em bloco para o seu campo, dificultando as contas da segunda volta. No entanto, os resultados desta primeira volta indicam que Flávio já terá beneficiado do voto útil, o que pode ser um bom augúrio para a segunda.

Para Flávio Bolsonaro, o Presidente americano parecia um pau de dois bicos, mas, a julgar pelos resultados, a proximidade a Trump pode até ter dado frutos, mobilizando o eleitorado de direita e mais religioso, sem afastar o centro tanto quanto se esperava. Uma vitória a 25 de outubro faria do Brasil a peça que falta ao bloco que Trump tem vindo a construir no hemisfério. Um Brasil alinhado com Washington permitiria aos EUA diversificar as suas cadeias de minerais críticos, reduzindo a dependência chinesa, e abriria novas possibilidades de cooperação energética. Permitiria também projetar os EUA no Sul Global, onde o Brasil desempenha um papel fundamental, afastando-o da China numa altura em que Lula fazia precisamente o caminho inverso.

As sondagens voltam a falhar para o mesmo lado

Diogo Pasuch

As sondagens voltaram a falhar no Brasil, e voltaram a falhar para o mesmo lado. Na véspera, a Datafolha dava a Lula da Silva 45% dos votos válidos e a Flávio Bolsonaro 40%. Com 89,5% das secções apuradas, o filho do ex-presidente segue à frente com 48,1% e Lula fica pelos 43,9%. Em 2022, o mesmo instituto atribuía 36% a Jair Bolsonaro e as urnas deram-lhe 43,2%. Uma vez é acidente. Duas vezes é método.

O avanço da direita é nacional. Nas cinco regiões, Lula perde entre quatro e cinco pontos face à primeira volta de 2022, e Flávio ganha entre três e seis ao que o pai tinha conseguido. No Sul chega aos 60%, e até no Nordeste, o bastião do PT, Lula desce de 67% para 63%. Entre os brasileiros que votaram em Portugal, Lula ganhou outra vez, mas caiu de 60% para 52%. Lula chega à segunda volta de mãos quase vazias: gastou na primeira o que tinha para distribuir, e mesmo assim ficou atrás. Projetando o que falta contar, Flávio deverá fechar perto dos 47,5% e Lula perto dos 44,5%. Em 2006 e em 2014, o PT foi à segunda volta à frente. Desta vez não.

O recado não ficou pela presidência. Dos 54 lugares do Senado em disputa, o PL lidera em 20 e o conjunto da direita em cerca de 30, contra seis do PT. Para a Câmara dos Deputados, o PL soma 23% dos votos, quase o dobro do PT, com 12%. E partidos de direita lideram a corrida aos governos em 16 dos 27 estados, contra três do PT. O país cansou-se do populismo e está descontente com o governo do PT.

As sondagens não o viram chegar. Os eleitores já lá estavam.

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