Um filme intenso arrepiou Veneza: “Un bon petit soldat”

Un bon petit soldat tem um título irónico. “Cáustico”, repara logo Stéphane Brizé. O mais cáustico dos seus filmes, com o mais sólido dos seus argumentos, concluir-se-ía depois, tête-à-tête, em entrevista que há-de vir. Alba Rohrwacher é o soldadinho bom, chama-se Carla, ocupa-se do departamento de recursos humanos de uma grande empresa seguradora em Paris. Brizé desenvolve com um rigor cirúrgico a exposição da sua dupla vulnerabilidade, já que Carla, mulher cheia de vontade de singrar em empresa em os homens mandam, é também uma italiana a viver noutro país, a expressar-se noutra língua, o francês, que obviamente domina, mas aqui e ali (à conversa numa reunião de trabalho, por exemplo), ainda tropeça, falta-lhe a palavra certa: o combate de Un bon petit soldat também é um confronto de idiomas.
Mas voltemos ao irónico e ao cáustico para sublinhar como este filme, com metodologia similar à trilogia anterior de Brizé, é afinal tão diferente de A Lei Do Mercado (2015), Em Guerra (2018) e Um Outro Mundo (2021). Working class hero da dita tríade, Vincent Lindon é agora o velhaco, o méchant, o CEO impiedoso e machista que, sub-repticiamente, começa a diminuir Carla quando esta se sente obrigada a defender uma empregada menos dinâmica na estrutura da empresa. Divorciada, mãe de um adolescente com “dores de matemática”, Carla acaba fatalmente por levar a frustração para casa. “Se reparar bem, não é só nos meus filmes que Vincent veste a pele do lobo pela primeira vez”, avançou Brizé. “Foi um papel muito difícil para ele. Levantou-lhe enormes dilemas éticos e morais. Ele só aceitou a excepção porque já trabalhámos seis vezes juntos.”
Em Veneza, e para atalhar caminho, Un bon petit soldat tem valias para tudo aquilo que o júri de Maggie Gyllenhaal quiser. O argumento é do melhor que Brizé alguma vez escreveu sobre os obstáculos da vida profissional na Europa em que vivemos, Lindon e Alba Rohrwacher são notáveis (este é porventura o papel feminino que mais faz frente ao de Mathilde Arcel em Woman Unknown), pode dar para a realização, chegar ao Ouro.
Un peu avant minuit vem assinado por Nicolas Pariser, autor de Alice e o Presidente (2019). Tem contra si uma exibição na Mostra praticamente coincidente de calendário com a obra de Brizé. É um filme para aprender a estimar, maior do que aparenta. Aliás, juntando a estes 15/18, de Cédric Kahn, Bunker, o thriller de Florian Zeller (sobretudo gaulês de produção, embora falado em inglês e castelhano), e outras co-produções minoritárias (a do filme de Moretti, por exemplo), há que concluir que França teve no Lido uma prestação vigorosa.
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