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Friday, September 25, 2026

Como levante lésbico no Ferro's Bar afrontou a violência da ditadura em SP

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Mulheres de cabelos curtos e camisas de botão ocupam mesas em um bar de preços simpáticos no centro de São Paulo. Nas paredes, há quadros de homens na roça. Elas trocam olhares, toques tímidos com as pontas dos dedos e, se há recíproca, se levantam para dar uns beijos no banheiro.

Esse era o cenário do Ferro's, bar que, em 1983, foi palco do levante que traçou uma nova rota para o movimento LGBTQIA+ no Brasil.

Hoje, quem passa pelo edifício, na rua Martinho Prado, em frente ao Museu Judaico, não encontra nenhuma placa que indique sua identidade no passado. Existia uma lacuna também na literatura, agora preenchida por "Na Noite Lésbica: O Levante do Ferro's Bar", da historiadora Julia Kumpera, livro que reconstrói de forma completa e inédita os acontecimentos que culminaram no ato político.

A edição inaugura a coleção "Nossas Histórias", da editora Autêntica, dedicada a retomar episódios essenciais para a história LGBTQIA+ no país. No final desse mês, sai um segundo volume sobre o teatro pernambucano Vivencial, intitulado "Lantejoulas no Mangue" e escrito por Márcio Bastos.

Nos anos 1970 e 1980, o Ferro’s se consolidou como uma das principais casas frequentadas por lésbicas da capital paulista. Ali, ativistas do Grupo de Ação Lésbica Feminista, entre elas Rosely Roth, distribuíam o periódico Chanacomchana, direcionado a mulheres que amavam mulheres.

Mais do que narrar como a censura e a homofobia dos donos do Ferro’s levaram ao ato de 1983, Kumpera mostra como a ação repressiva do governo militar organizou a população queer no centro da cidade. A autora se debruça também sobre os comportamentos das mulheres que frequentavam o local, traçando um perfil da cultura lésbica na época por meio de relatos, documentos e fotografias que resistiram ao tempo.

Em um dos capítulos, conta que as lésbicas do bar se dividiam entre "fanchas", aquelas mais masculinas, de pente flamengo no bolso e camisa de botão, e as "ladies", que passavam maquiagem e tinham cabelos mais compridos. A estética servia como código para o flerte, e os opostos se procuravam.

Muitas, claro, não se enquadravam exatamente em nenhum dos estereótipos. Nas décadas seguintes, o movimento lésbico-feminista problematizou o modelo por reproduzir papéis de gênero baseados em casais heterossexuais. Mas, na época, era uma forma de sobrevivência, pondera a autora do livro.

"Hoje a gente tem mais símbolos e mais possibilidades de expressão. Na época, a marcação fancha/lady foi mobilizada de forma estratégica. Um casal nesse formato poderia ser lido na rua como hétero. Era também uma forma de proteção, de invisibilidade estratégica, por assim dizer, para evitar a violência", afirma.

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Usar mosquetão, pente flamengo ou relógio no pulso esquerdo era como estabelecer uma conversa silenciosa. "Esses objetos eram uma forma de ver e ser vista sem precisar ser explícita. É a criação de uma cultura com símbolos", diz Kumpera. Alguns dos rostos no Ferro's foram eternizados em raras fotos tiradas por Rosa Gauditano, que foram exibidas na 35ª Bienal de São Paulo, há três anos.

A fila do banheiro era para dar uns amassos, mas não mais que isso. Se os banheiros públicos permitiam encontros sexuais a homens gays, lésbicas evitavam atos mais ousados fora de casa, restrição que Kumpera relaciona a uma repressão histórica da sexualidade feminina e dos limites impostos às mulheres na vida pública.

"A sexualidade das mulheres sempre foi muito controlada. Por isso, dificilmente lésbicas criaram espaços para troca sexual", diz Kumpera. "Lésbicas não foram perseguidas da mesma maneira que homens gays no passado, também porque circularam menos pelo espaço público. No espaço privado, havia um controle muito maior por parte da família."

A boemia da época ainda assim ecoou na cultura. Nos anos 1970, quando o Ferro's já era ponto de encontro das lésbicas, Cassandra Rios se tornou a escritora mais censurada pelo regime militar, com pelo menos 36 livros banidos. Seus textos narravam romances eróticos entre mulheres.

Já nos anos 1980, no conto "Os Sobreviventes", do clássico "Morangos Mofados" de Caio Fernando Abreu, a narradora admite seu desejo por outras mulheres ao som de "Simples Carinho", de Angela Ro Ro. Fumando um cigarro, melancólica, a personagem desabafa sobre a dor de cotovelo e diz que vai aliviar as mágoas no Ferro’s.

Mulheres que frequentavam o bar e outras boates lésbicas como Dinossauros, Moustache e Bughouse chegaram ainda a formar times de futebol clandestinos para competir entre si, em uma época em que a modalidade feminina do esporte era proibida no país.

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A multiplicação de espaços LGBTQIA+ no centro de São Paulo não era coincidência. "Suas luzes acendiam depois que o comércio fechava as portas, simbolizando, na mesma medida, possibilidade e restrição à sociabilidade", escreve Kumpera.

A ocupação do centro pela população queer foi, de certa forma, consequência da implementação de uma arquitetura hostil por parte dos militares, que priorizaram obras de concreto para facilitar a circulação de automóveis. É fruto dessa época, por exemplo, o Minhocão.

Mas o tiro saiu pela culatra. A ideia do regime era evitar que as ruas fossem pontos de convivência e manifestação, mas acabaram impulsionando a abertura de mais estabelecimentos privados como locais de lazer.

A população dissidente se dividia entre a Boca do Lixo, área associada à criminalidade e à prostituição feminina na rua Santa Ifigênia, e a Boca do Luxo, área de classe média alta que compreendia as avenidas São Luís, Nove de Julho, Consolação e as ruas Caio Prado e Major Sertório.

Mesmo localizado nesta última, o Ferro’s estava longe do glamour de boates de elite como La Licorne. Os preços acessíveis permitiram a diversidade da clientela.

"Na Noite Lésbica" detalha, ainda, como operações policiais no começo da década de 1980, comandadas pelo delegado José Wilson Richetti, promoveram detenções arbitrárias de pessoas queer mesmo após o fim do AI-5. A justificativa era "moralizar" o centro, "limpando" o espaço de qualquer tipo de "vadiagem".

As clientes do Ferro’s mobilizaram protestos contra as ações de Richetti. Ainda assim, o levante pelo qual o bar ficou conhecido ocorreu pela violência dos próprios donos, que toleravam a presença de lésbicas, mas não gostaram quando o Chanacomchana começou a circular por ali.

Para Kumpera, o ranço se atrelava à forma como lésbicas apareciam em casos policiais na mídia, frequentemente descritas como predadoras ou ladras de esposas.

Organizado pelo Grupo de Ação Lésbica Feminista, o protesto reuniu representantes do movimento LGBTQIA+ e vários deputados aliados, como Ruth Escobar, Eduardo Suplicy e Irede Cardoso.

Todos entraram no Ferro’s na noite do dia 19 de agosto de 1983. Em um salão lotado, Rosely Roth subiu em uma mesa para defender a livre circulação do boletim Chanacomchana e denunciar a discriminação. O proprietário recuou.

O evento teve forte repercussão na mídia nacional e, pela primeira vez, de forma não estigmatizada. Neste jornal, por exemplo, foi publicado o texto "A noite em que as lésbicas invadiram seu próprio bar". Segundo Kumpera, o ato rompeu um silêncio de décadas.

"É importante olhar de maneira justa para essas mulheres que vieram antes, para não parecer que só foram oprimidas e nunca conseguiram fazer nada. Elas viveram outras condições e atuaram com criatividade e irreverência."

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