Bruno Cardoso Reis: "[Resultado] é cartão vermelho a Trump"

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Tempo agora para análise. Importa percebermos as consequências dos resultados eleitorais. O historiador Bruno Cardoso Reis e a editora de internacional do Observador, Cátia Bruno, estão já conosco aqui neste jornal. Bom dia aos dois. Cátia, vamos olhar primeiro para os resultados e para o mapa eleitoral que sai desta madrugada. As sondagens não se enganaram ou esperava-se uma vitória tão clara do Partido Democrata ou uma derrota tão profunda do Partido Republicano?
Eu diria que as sondagens se enganaram por defeito. Ou seja, havia muito o receio e tem-se falado muito sobre isso ao longo desta semana. Houve muitas sondagens que foram publicadas em que os próprios jornais que as publicavam faziam notas a dizer: “Não temos a certeza destes resultados. Atenção, são apenas sondagens, porque temos muita dificuldade em que eleitores tradicionalmente pró-Trump nos respondam”. E, portanto, havia a percepção de que esse voto podia estar a ser subvalorizado e que podia haver uma surpresa nesta madrugada, com um apoio muito maior aos candidatos republicanos do que se pensava. E, na verdade, o que aconteceu foi precisamente o oposto. Não só o apoio foi muito maior aos democratas, como foi a uma escala que só as melhores previsões.
As mais otimistas.
Só as mais otimistas é que diziam que iria acontecer. Há muito poucos lugares que estavam em dúvida, que ainda nos falta conhecer. Eu destacaria o caso do Michigan, Abdullah Saeed, mas a maioria já está assegurada, quer na Câmara, quer no Senado. Há vitórias de governadores democratas em estados que tradicionalmente são muito republicanos.
O destaque do Texas, não é?
O do Texas, sim, e temos também o do Iowa. Portanto, há uma vitória democrata em toda a linha, mas que eu diria que é, sobretudo, mais do que uma vitória democrata, uma vitória anti-Trump. Ou seja, que os eleitores quiseram deixar muito claro que não estão com esta presidência neste momento.
Bruno, ainda assim, vamos recordar, Donald Trump não estava no boletim de voto. As eleições intercalares são normalmente aquele momento em que se penaliza o partido da maioria. Ainda assim, isto é mesmo um cartão vermelho a Donald Trump?
Sim, ou seja, ele passou o tempo a insistir e fez, aliás, imensa campanha e gastou imenso dinheiro, até dos seus fundos políticos próprios, digamos assim. Passou o tempo a insistir que votassem como se ele estivesse no boletim de voto.
E votaram.
E votaram. Eu acho que ali teve razão. Ou seja, foi realmente assim que os americanos votaram. Hoje já veio dizer que afinal não estava, o que é literalmente também verdade, mas é evidente que as intercalares são sempre um pouco um referendo ao presidente. E o presidente Trump foi para estas eleições com sondagens historicamente negativas. Nalgumas sondagens, nos Estados Unidos têm séries muito longas, começamos a ter sondagens a partir dos anos 30. A Gallup é a primeira grande empresa de sondagens a nível mundial. Portanto, nalguns casos era mesmo os resultados, digamos, a popularidade mais baixa. E aí parece-me evidente que foi aqui, no fundo, um fortíssimo cartão vermelho a Donald Trump, porque realmente não é crível, por exemplo, a Susan Collins, que era senadora no Maine. Quer dizer, é senadora há quase 30 anos. Portanto, não é crível que subitamente a Susan Collins tenha deixado de ser uma boa candidata. O governador do Texas, um estado que era dado como mais ou menos solidamente republicano desde aquela viragem nos anos 80, 90, em que os estados do Sul, que historicamente eram democratas, conservadores, mas democratas, porque o Partido Republicano era o partido do Lincoln, e eles demoraram bastante tempo a esquecer isso.
Aquela viragem com Reagan.
Começa com o Nixon, mas depois acentua-se com o Reagan, exatamente, e consolida-se já nos anos 90. E, portanto, a partir dos anos 90, na maior parte desses estados, realmente o Partido Republicano domina. O Greg Abbott era mesmo o governador que estava há mais tempo em funções, o governador do Texas era o governador que tinha sido reeleito mais vezes. Desta vez, e aliás, esse é um dos exemplos ao que as sondagens, de facto, não apanharam, não previram. É derrotado, perde realmente o lugar. Tudo isso mostra que realmente estamos aqui perante, não sei se uma onda, se uma maré viva, se um tsunami, mas realmente são resultados péssimos para o Partido Republicano. E também as sondagens à boca das urnas, por exemplo, da Associated Press, as duas grandes questões que os eleitores referem como justificando o seu voto, têm tudo a ver com Donald Trump. É a questão do custo da inflação, do custo de vida e a questão da corrupção. Numa sondagem também recente, o Financial Times, tem dois ou três dias, sobre o que os eleitores queriam com esta eleição, aquilo que aparece em primeiro lugar, com 83%, é a questão exatamente da inflação, do custo de vida, e aparece com 43%, em terceiro lugar, empatado com a questão do custo da saúde, a questão de não haver mais guerras, não haver mais intervenções militares no exterior, que são tudo questões que têm diretamente a ver com as políticas de Donald Trump, a questão das tarifas e obviamente a intervenção no Irão.
Precisamente. E Cátia, muito rapidamente, Trump tem falado muito ou escrito muito nestas últimas horas, agora com esta entrevista à Fox, a admitir que, de facto, a intervenção no Irão acabou por contribuir para estes resultados. Isto faz-nos temer o pior ou não? O que pode acontecer depois disto?
Bom, é sempre difícil fazer previsões com Trump, mas eu acho que aquilo que percebemos esta noite é que Trump tem, já sabíamos, mas confirma-se que Trump tem faro político. Por quê? Porque quando começaram a surgir os primeiros resultados negativos, apareceram fontes da Casa Branca a dizer aos jornais esta ideia de: "Bom, se ele estivesse no boletim, isto não tinha acontecido, os candidatos perderam porque são maus, nem o que ele fez por eles chegou". E depois vemos o telefonema de Trump com o New York Times e o discurso muda. Aquilo que ele diz é: "Eu vou aceitar estas eleições, eu vou trabalhar com os democratas", que eu acho que é uma coisa que provavelmente nunca ouvimos Donald Trump dizer antes. E agora continua a ronda de telefonemas e agora ouvimos o presidente admitir: "Se calhar a guerra do Irão foi um problema". Parece-me que Trump percebeu o cartão vermelho que recebeu dos eleitores. E pelo menos hoje, com o impacto da derrota, está a tentar afinar, pelo menos, o discurso. Não sei se ao longo dos próximos dias vai manter essa linha ou se nos vai surpreender, como é habitual.
Ou até nas próximas horas vamos ver. Cátia Bruno, obrigada pela tua análise. Bruno, vamos continuar ao longo da manhã a aproveitar também o teu olhar sobre estas eleições.
E às 18h30 fazemos novo ponto de situação dos resultados das eleições intercalares dos Estados Unidos, que dão uma vitória clara ao Partido Democrata.
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