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Saturday, September 26, 2026

O "eterno rebelde" que trocou os planos ao Observador

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“A que horas sais hoje?”

Parece uma pergunta simples. Mas, em muitas profissões — como a de jornalista — não é assim tão óbvia. E, muitas vezes, é mesmo muito difícil explicar aos nossos familiares e amigos com horários de trabalho mais convencionais que, por muito que queiramos ter certezas, na verdade nunca conseguimos mesmo ter uma resposta definitiva a esta questão.

Foi o que aconteceu esta semana à Cátia Andrea Costa, a nossa editora de atualidade, quando se preparava para fechar o turno e ir para casa já depois da meia-noite na terça-feira, dia 22 de setembro. Estava já a levantar-se da cadeira quando o Hugo Fortunato de Oliveira, que estava a fazer os noticiários da madrugada na Rádio Observador, a avisa de que tinha acabado de sair uma notícia de última hora. Minutos depois, às 00h43, a Cátia envia uma mensagem para o grupo de Whatsapp onde também está a Direção do Observador:

“A hora é terrível, alguém por aqui? Morreu o Jorge Palma.”

Pedro Castro, o nosso Diretor-Adjunto, acabaria por responder. Seria necessário reorganizar tudo, tanto no site como na rádio. A Mariana Lima Cunha, que tinha estado a fazer o turno da noite no site nesse dia, ia a caminho de casa quando recebeu no telemóvel o “push” do Observador com a notícia da morte do músico. Quando chegou, ainda foi trabalhar: coube-lhe fazer as reações que já estavam a sair, mesmo àquela hora tardia.

Às 00h48, a Cátia enviou uma outra mensagem para o nosso grupo das redes sociais a avisar da notícia de última hora e a pedir que a pudessem publicar nas nossas redes. O Duarte Botelho Ferreira viu de imediato e fez a publicação em minutos. Pormenor: no caso dele, era um daqueles dias em que não teve de responder à fatídica pergunta “a que horas sais hoje”, porque nesse dia ele não chegou a entrar. O Duarte estava de férias.

No site, a manchete, que às terças-feiras de manhã é sempre o novo episódio do nosso mais recente Podcast Plus, “Os Escândalos de uma Revolucionária”, teria de cair. E, por causa da hora a que a notícia foi conhecida, era certo que haveria muito trabalho para fazer manhã cedo. O Pedro e a Cátia respiraram de alívio quando perceberam que, nessa manhã, a Joana Moreira, jornalista da área da cultura, estava escalada para entrar logo às 6h30. O piquete vai rodando entre os vários jornalistas e, com o número total de pessoas a quem poderia calhar, a probabilidade de isso acontecer precisamente neste dia seria muito reduzida.

“Meus caros, vamos ter uma manhã difícil com a morte do Jorge Palma e sem nada preparado.” Eram 03h03 da madrugada quando o Pedro Castro começava assim uma longa mensagem para o grupo que junta todas as pessoas da Rádio Observador, com novos planos para o dia. Decidimos alterar a grelha habitual e os programas que estavam programados para essa manhã caíram. O cardeal Américo Aguiar já não foi entrevistado na “Comissão de Inquérito”. E os eurodeputados Francisco Assis (PS) e Paulo do Nascimento Cabral (PSD) já não vieram ao “Explicador” fazer um balanço do mandato de António Guterres à frente da ONU. Em vez disso, tivemos uma emissão especial que contou com a presença, entre outros, de David Ferreira, antigo editor de Jorge Palma, e de Rita Carmo, fotojornalista e uma das pessoas que, durante anos, acompanhou de muito perto a vida pessoal e profissional do cantor.

O contacto com a Rita foi feito através do João Porfírio, o nosso editor de fotografia. Apesar de naturalmente emocionada, aceitou ainda escrever um artigo para o Observador, na primeira pessoa, onde escolhe também dez fotografias de um livro publicado em 2023. Em poucas palavras, a Rita descreve bem quem foi Jorge Palma: “Humilde, generoso e eternamente rebelde, a viver no limite.”

Na rádio, todos os noticiários da manhã de terça-feira abriram e fecharam ao som de Palma. E mesmo depois disso, ao longo do dia, os noticiários da Rádio Observador fecharam sempre com uma música dele. Mas uma das maiores homenagens aconteceu numa emissão especial do programa “Isto não passa na rádio”. Normalmente, o programa tem como objetivo a divulgação de canções pouco conhecidas, nada comerciais, de artistas marginais e de memórias antigas e esquecidas. Nesse dia, o Nelson Ferreira e o Tiago Pereira fizeram uma emissão em direto e o mais difícil, dizem, foi mesmo escolher as músicas. Segundo o Tiago, “a sensação é a de que a obra do Jorge Palma é omnipresente há décadas. Claro que há sempre temas menos óbvios, mas a primeira impressão é a de que tudo isto é familiar”. Este episódio especial chama-se “O brilhantismo de Jorge Palma em 7 canções”, e se ainda não ouviu pode ouvi-lo aqui. Vale mesmo a pena.

O programa termina com aquela que é, para mim, uma das músicas mais bonitas de Palma. Chama-se “O Fim”. É um poema mesmo muito curto e acaba com um verso que continuamos sempre a cantar na nossa cabeça, já muito depois de a voz e de o piano de Palma se terem calado, e de a música ter chegado ao fim.

“E foi nesta viagem / Que percebi que não estou só.”

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