Prepare-se: Soaram os alarmes nos mercados da dívida

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Esta é a história do dia de fim de semana da Rádio Observador. Prepare-se: soaram os alarmes nos mercados da dívida.
"We should be paying the lowest interest rate anywhere in the world because we have the strongest credit".
Donald Trump diz isto depois da Reserva Federal dos Estados Unidos ter aumentado as taxas de juro. Os Estados Unidos deviam ter a taxa mais baixa porque têm o melhor crédito. Foi isto que ele disse a tentar torcer a realidade à sua medida. Porque o problema é exatamente esse. Os investidores já não estão com a mesma vontade de emprestar dinheiro aos Estados Unidos e esta súbita revolta dos mercados da dívida, como os portugueses bem se lembram, é uma má notícia. Hoje eu vou falar com o jornalista de economia do Observador, o Edgar Caetano. Vamos perceber o que se está a passar, o que explica esta subida, que impacto é que isto tem na economia mundial e já agora, que efeito isto vai ter no nosso bolso. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de fim de semana de 26 e 27 de setembro. Olá, Edgar, bem-vindo.
Obrigado, Pedro, pelo convite.
Olha, se calhar vou revelar aqui já a quem nos estiver a ouvir que antes de começarmos a gravar, tu disseste: o mercado de obrigações é a matéria mais complexa dos mercados financeiros. E o que é ótimo é que é exatamente sobre isso que vamos falar hoje.
É complexa e é porque é fundamental, porque é o fundamento de tudo. As pessoas falam muito sobre o mercado de ações, que é muito mais excitante, mas as obrigações, a dívida, é a base de tudo.
E, portanto, é a tua técnica que é para evitar que os nossos ouvintes desistam já.
Também não é assim tão difícil. Perceber o básico, que é importante, não é assim tão difícil.
Sim, e sobretudo porque, na verdade, nós já passámos por isto. Nós já vivemos situações onde o mercado da dívida nos deitou abaixo e recuperámos. E o problema é que agora voltamos a falar de sinais de alarme, embora os olhares agora não estejam diretamente em cima da Europa.
Não, não estão diretamente em cima da Europa. O que existe é um movimento global de subir a taxa de juro, que afeta desde os Estados Unidos, que é onde se acredita que está o chamado epicentro, se é que se pode falar nisto, até o Japão, Reino Unido, vários países europeus, uns mais que outros, certamente falaremos sobre isso. Mas sim, é um movimento global de subida das taxas de juro que os países pagam para se financiar.
E por que isso está a acontecer agora?
Olha, as razões para que isso aconteça são mais ou menos consensuais, são muitas. O que varia entre os analistas é a repartição da responsabilidade de cada uma dessas razões, se é que isso faz sentido. A questão mais direta é que temos um contexto, neste momento, que afeta vários países, dos Estados Unidos até à Europa, que é de inflação persistentemente elevada, inflação demasiado elevada. E quando a inflação é muito elevada, as obrigações são tipicamente instrumentos de renda fixa. O que isso significa? Se tens uma coisa que tem um rendimento volátil, como uma ação, não é tão sensível à inflação, porque aquilo é volátil. A inflação não é tão importante para calcular o rendimento real daquele instrumento. Mas as obrigações são renda fixa, quase sempre, não sempre.
As obrigações, digamos que é um investidor que compra títulos de dívida de um determinado Estado, por exemplo.
Ou empresa.
Pode ser de uma empresa, mas neste caso falamos aqui de países.
Falamos mais de Estados.
Portanto, compra títulos de dívida desse país esperando ter um determinado rendimento.
Que é um rendimento fixo, o que significa que se o rendimento é 4%, por exemplo, faz muita diferença se a inflação é 2% ou é 3%.
Porque se a inflação for maior, os 4% já vão render menos.
Em termos reais, como se diz na economia, já é menos favorável.
E portanto, agora, neste momento, nós estamos numa fase em que a tendência da subida da inflação está aí outra vez, não é?
Sim.
E portanto, os investidores, olhando pra isto, começam a achar que para comprar títulos de dívida, têm de arranjar ali uma solução para ter um rendimento maior.
Exigem uma contrapartida maior. Mas lá está, isto não é a única razão. Agora, não sabemos se esta razão que nós dissemos agora é 20% da explicação ou se é 80.
É uma das razões.
É uma das razões.
Então e que outras é que há mais?
A outra razão é que, de facto, mais nuns países do que noutros, existe muita apreensão dos investidores em relação às circunstâncias orçamentais desses países. A começar pelos Estados Unidos, que mesmo com uma economia a crescer, e a crescer de forma inesperadamente positiva, todos os anos têm défices de quase 6%.
Nós não olhamos muito pra isso, mas os orçamentos dos Estados Unidos, esses défices, nós não falamos muito deles. Este 6% é imenso, é um valor...
Anualmente, 6% do PIB. Aliás, eu posso dizer, desculpa interromper-te, sabes que há cerca de quatro anos e meio, foi um tema muito forte na imprensa económica que a dívida acumulada, não estamos a falar de défice, estamos a falar da dívida acumulada dos Estados Unidos, estava a chegar aos 30 trillion, aos 30 biliões de dólares.
Que é um número quase inimaginável.
Um número 30.
Isso há quanto tempo?
Há quatro anos e meio.
E agora?
Agora já passou os 40. Ou seja, nós andamos ali anos a pensar.
40 tris.
Exatamente, é isso mesmo.
Se alguém conseguir imaginar o valor incalculável que é isto.
Chega a um ponto em que isto começa a preocupar. Na Europa, isso também é um caso sério de preocupação, sobretudo em alguns países, como França, por exemplo, onde estão a negociar o orçamento do próximo ano, onde vai haver eleições. A Itália também tem uma posição orçamental um bocadinho menos desfavorável, mas muita dívida e, portanto, alterações no nível da taxa de juro são muito importantes pra aquilo que a Itália paga todos os anos e que tem que orçamentar em juros de dívida. E, portanto, juntas um cenário em que tens inflação mais elevada Em que os investidores em obrigações exigem contrapartidas maiores, rendibilidades maiores, para investir nesses títulos de obrigações.
Portanto, os juros sobem.
Os juros sobem. Depois tens questões em relação à própria sustentabilidade da dívida de muitos países. E tudo isto cria um coquetel que está a ser um bocadinho explosivo nas últimas semanas. Vimos que nos Estados Unidos fez-se uma coisa que acalmou um pouco os investidores, que foi subir as taxas de juro. Parece paradoxal.
O que é um facto muito relevante, porque talvez algumas das pessoas que nos estejam a ouvir não se lembrem, mas Donald Trump andou numa perseguição cerrada ao anterior presidente do Fed, da Reserva Federal americana, digamos o Banco de Portugal dos Estados Unidos.
Ou o BCE dos Estados Unidos.
O BCE dos Estados Unidos, sim, é melhor essa comparação até. Porque queria ter um domínio sobre a política monetária, queria dizer que o presidente do Fed não subia ou não descia as taxas de juro, fazia como o próprio Trump queria. Pôs lá outra pessoa da sua confiança e a verdade é que não lhe está a sair bem, porque houve aqui sinais de independência.
Sim, há que lembrar que o Jay Powell, o anterior presidente, também tinha sido nomeado por Donald Trump.
Também era isso, porque outra pessoa da sua confiança.
Entretanto, ele zangou-se com ele porque achou que o Jay Powell estava a manter as taxas de juro invulgarmente baixas na altura em que houve as eleições. Para tentar beneficiar o Partido Democrata, quando estava ainda o Biden na presidência. Entretanto, fez o contrário. Então, na cabeça do Donald Trump, pelo menos naquilo que nós conseguimos ler publicamente do que é que vai na cabeça dele, era a política errada. Agora, como dizes, ele coloca lá outra pessoa, que é uma pessoa com um perfil de alguém que pensa pela própria cabeça, quanto a isso não há dúvidas, o Kevin Warsh, que entra para o cargo mais importante do mundo financeiro, porque as obrigações dos Estados Unidos são a base para tudo. As reservas dos bancos centrais por todo o mundo, fundos de pensões, aquilo que acontece nas obrigações dos Estados Unidos influencia tudo nos mercados financeiros mundiais. E a questão é que, perante um cenário de inflação elevada e com perspetivas de a inflação continuar elevada, o Kevin Warsh teve que fazer aquilo que disse que ia fazer, que é subir a taxa de juro. Paradoxalmente, eu acredito que Donald Trump, embora diga sempre que quer taxas de juro mais baixas, e para ele percebe-se que é bom para a economia haver taxas de juro mais baixas, em princípio há mais emprego e as pessoas pagam menos pelos seus créditos. Neste caso em particular, eu quero acreditar que apesar de ele ter vindo mais uma vez até criticar o facto de se ter subido a taxa de juro, foi do interesse dele que o Kevin Warsh tenha subido a taxa de juro. Por quê? Porque se ele não tivesse subido a taxa de juro, este alvoroço que se instalou nos mercados de dívida teria sido muito pior, porque é isso que está em causa. Se os investidores achassem que a Reserva Federal não estava a levar a sério o seu papel de controlar a inflação-
Não estava a trabalhar de forma independente
...e que não levava a sério o risco de inflação, porque o detentor de uma obrigação, o que não quer é que haja inflação, como já vimos isso no início da conversa.
Que a certeza do seu rendimento vale aquilo que tinha negociado.
Vale aquilo que está mais ou menos previsto. E portanto, se um banco central não mostra que está a olhar para a inflação como um risco importante, e que no fundo está sempre no mandato do Banco Central Europeu ou da Fed.
E usar os instrumentos que tem ao seu dispor para tentar controlar esse problema.
Exatamente. Isso faria com que mais facilmente se desestabilizaria o mercado obrigacionista. Portanto, Trump, eu percebo que ainda veio fazer algumas mensagens, mas não foram muito agressivas. Dá a ideia que aquilo foi uma coreografia.
Só porque tinha que salvar a face.
Só porque tinha que salvar a face e falar para o seu eleitorado, quando, na verdade, foi do interesse de Trump que aquilo tivesse sido feito. Agora, o que é que acontece daqui para frente? Essa é que é a questão. Nós não sabemos. Nós há duas semanas, há uma semana, achávamos que a Fed tinha subido a taxa de juro uma vez, eventualmente podia subir mais uma vez nos próximos meses. Agora é praticamente certo, ou 75% de probabilidade, que suba já outra vez em outubro.
Já agora, só para mantermos aqui o fio à meada, o Fed ou o BCE subirem as taxas de juro quando a inflação está a subir, é propositado para arrefecer a procura. Não havendo tanta procura, a tendência para os preços subirem acaba por diminuir. Claro que tudo isto sai-nos do bolso.
Sai do bolso de quem tem dívidas.
De quem tem dívidas. E a questão é: isto que se está a passar, independentemente das ferramentas que estejam a ser utilizadas, nos Estados Unidos como epicentro e também noutros países, nomeadamente países europeus, como é que isto acaba por nos chegar ao bolso? Tu já deste aí alguns exemplos, mas como é que isto que se está a passar nos mercados financeiros, de repente, entra na minha economia doméstica?
Nós já estamos a sentir um contágio na zona euro daquilo que acontece na política monetária dos Estados Unidos, que é indissociável. Se tu tens a Fed dos Estados Unidos a subir a taxa de juro, não quer dizer que o BCE também tenha que subir, mas há uma pressão para que isso aconteça, por razões que não vale a pena explicar aqui, porque tem a ver com o facto de se a Fed sobe a taxa de juro e o BCE não sobe, isso faz com que o dólar se valorize mais em relação ao euro, e portanto, isso em si é inflacionário para a zona euro, porque depois estamos a comprar coisas em dólar, como petróleo, e estamos a pagar mais. Ou seja, há uma tendência e uma sincronia diplomática um bocadinho tácita, que os bancos centrais, embora não tenham que fazer a mesma coisa-
Andam ali a caminhar ao lado um do outro, exato.
E, portanto, esse impacto as pessoas já o estão a sentir. Tu tens as taxas Euribor, que as pessoas que têm crédito com taxa variável ou taxa mista com curtos períodos de taxa fixa, que é o que está na moda agora, as pessoas já estão a sentir. As taxas Euribor estão a subir muito, já estão na casa dos 3,4%.
Portanto, na prestação da casa vai ser fácil de sentir esse impacto, e mais.
Isso já se está a sentir, as pessoas têm tido as revisões. Depois mais, tu estás a subir a taxa de juro para tentar controlar a inflação Em teoria, tu estás a fazer uma coisa que quer conter os outros preços que as pessoas pagam, nomeadamente o preço da comida. Mesmo que um banco central não suba a taxa de juro, se isso fizer com que a inflação se descontrole, isso ainda é pior, e é pior para mais pessoas, incluindo as pessoas com menos recursos. Temos que pensar que quando um banco central está a subir a taxa de juro, está a tentar conter uma inflação que afeta toda a gente.
Exatamente assim. É verdade que agora de repente sentimos que temos menos dinheiro disponível, mas esse menos dinheiro disponível vai fazer-nos consumir menos e ao consumir menos, procuramos menos e ao procurarmos menos, os preços tendencialmente vão baixar.
Em termos simples, isso é uma boa descrição. Agora a questão é que tu tens os Estados a fazer previsões de quanto é que vão gastar em emissões de dívida no próximo ano, por exemplo. Todos estes aumentos dos custos de financiamento, depois também se refatem no bolso de outra maneira, que é, por exemplo, um país como Portugal, que apesar de tudo está com taxas de juro no mercado mais favoráveis do que outros como França, Itália e até Espanha, ainda assim já estás a ver que no orçamento para o próximo ano, de acordo com a última informação do governo, quando entregou à Assembleia da República o quadro das políticas invariantes, vimos que já se prevê que os custos com os juros da dívida no próximo ano em Portugal são mais 776 milhões de euros que vão custar ao Estado. E isto é um país que está, como dizem todos os analistas, bastante salvaguardado neste contexto geral. 776 milhões é muito dinheiro.
Estamos fora da linha de fogo, mas ainda assim, já estamos a falar de quase 800 milhões a mais.
É o dobro daquilo que foi agora anunciado há pouco tempo pelo governo de redução do IRS de 400 milhões. Portanto, tu vês. Isto tem um impacto, e é como te digo, é um país que até nem tem sentido tanto como outros, incluindo a própria Alemanha, que é a referência sem risco na Europa. Portugal tem sentido um pouquinho menos, tem sido menos penalizado e isso é graças ao facto de existir nos mercados uma perceção de que o rácio da dívida foi reduzido nos últimos anos, que existe um historial de cumprimento e que os ratings foram melhorando e portanto isso tem sido decisivo para Portugal, porque senão estes 776 eram certamente mais. E o risco é que estes 776 sejam de facto mais quando vier o orçamento, porque isto foi uma previsão feita antes do BCE ter subido a taxa de juro pela última vez e antes de se ter gerado a perceção de que provavelmente o BCE vai voltar a subir a taxa de juro ainda antes do fim do ano.
Eu gostava de dar aqui boas notícias, mas infelizmente para o fim de semana-
É boa notícia se isto significar que de facto se controla a inflação, isso é sempre uma boa notícia.
Vamos ver se consegue controlar. Sendo que, já agora, para não ficar a ideia de que os mercados são os bandidos que andam aqui a jogar à bolsa com o dinheiro dos portugueses e de cidadãos de várias partes do mundo. Na verdade, estas obrigações, estes investimentos, são necessários para que os Estados consigam financiar-se para funcionar.
Justamente, a alternativa é chamar a troika.
Exatamente, e nós já passamos por isso e não gostámos. Edgar, muito obrigado.
Muito obrigado, Pedro.
Eu conversei hoje com o jornalista de Economia do Observador, Edgar Caetano. Eu sei que é fim de semana e por causa disso talvez se esperasse uma história daquelas menos indutoras de ansiedade, mas a verdade é que os mercados da dívida têm andado em alvoroço há alguns meses e até Portugal, que desta vez é o bom aluno, já tem os juros da dívida pública à beira dos 4%, ou seja, a igualar máximos de 2017. Ponha o cinto de segurança e prepare-se porque isto vai abanar. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até segunda.
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