Roberto Bomtempo fala sobre vida em Portugal e volta ao Brasil para lançar documentário

Há seis anos, Roberto Bomtempo, de 63 anos, decidiu trocar, ao menos por um período, a vida no Brasil por uma experiência em outro país. Ao lado da mulher, a atriz e produtora Miriam Freeland, de 47 anos, e dos filhos, o ator se mudou para Portugal com a ideia de viver por dois anos uma experiência familiar longe de casa. O prazo, porém, foi se estendendo. “O grande barato, a parte mais saborosa, é você pensar: ‘Deixa eu me adaptar um pouco a essa cultura aqui’”, conta.
A vivência como imigrante também trouxe mudanças práticas e pessoais. A família reduziu o padrão de vida, passou a cuidar da própria casa e colocou os filhos na escola pública. Para Roberto, mais do que se adaptar, foi preciso compreender as diferenças entre os dois países e encontrar um espaço dentro de uma nova cultura. “O mais importante foi entender essas diferenças e aprender a me inserir nelas, sem querer impor aqui a nossa forma de viver no Brasil”, afirma.
É justamente a experiência de artistas que também atravessaram fronteiras que o levou ao documentário sobre a companhia Dos à Deux. A ideia surgiu há cerca de nove anos, depois que Miriam fez uma oficina com o grupo e o incentivou a participar. Encantado com o trabalho do brasileiro André Curti e do angolano Arthur Luanda Ribeiro — que construíram a companhia na França e, juntos, assumiam diferentes funções na criação dos espetáculos —, Roberto passou a acompanhar de perto aquela trajetória. “Aquilo me mobilizou muito”, lembra.
Agora, o ator retorna ao Brasil para divulgar o documentário O Gesto Entre Nós – A História da Cia. Dos à Deux, na Mostra Retratos, do Festival do Rio, no dia 6 de outubro, e depois, entre 15 e 29 de outubro, na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
A trajetória do grupo, marcada pelo desafio de desenvolver a própria arte longe do país de origem, encontra eco na experiência recente de Roberto, que olha para a experiência de viver fora não apenas como um recomeço profissional, mas como uma transformação na vida e na forma de enxergar o mundo.
Como surgiu a ideia de fazer esse documentário?
Cerca de nove anos atrás, a Miriam Freeland, minha esposa, atriz e produtora, fez uma oficina com a companhia de teatro Dos à Deux. Ela ficou muito entusiasmada com a experiência e sugeriu que eu também fizesse a oficina. Eu fui e, naquela época, eles estavam em cartaz com o espetáculo Irmãos de Sangue, que eu ainda não tinha visto. Fui assistir à peça e fiquei muito encantado, inclusive relembrando outros trabalhos deles que já tinha visto. A oportunidade de conviver com a companhia durante a oficina também me chamou muita atenção. Era uma companhia formada por dois rapazes, André Curti e Arthur Luanda Ribeiro, que estavam juntos havia muitos anos — na época, já eram casados havia 20 anos — e faziam absolutamente tudo: produziam, escreviam os roteiros das peças, dirigiam, cuidavam do cenário, da luz... Tudo passava por eles. Aquilo me mobilizou muito.
Como foi o processo de pesquisa?
Procurei os dois e propus que queria fazer um filme a partir de Irmãos de Sangue. A minha ideia inicial era fazer um filme mudo, como era o teatro deles: um teatro gestual, sem palavras. Até a peça mais recente, que está em cartaz atualmente, eles mantiveram essa característica ao longo de mais de 20 anos de trajetória. Eles ficaram muito entusiasmados com a ideia. Eu voltei para casa pensando: “Isso é um projeto que vai demorar muito”. Fazer cinema mudo é muito difícil, principalmente pela questão de financiamento e de distribuição. Fiquei pensando também em qual teria sido o último filme mudo feito no Brasil. Lembro que, naquele período, havia também o impacto de filmes mudos mais recentes. Mas a ideia acabou evoluindo. Comecei a pensar mais profundamente na história daqueles dois artistas: um brasileiro e um angolano, que viviam há quase 20 anos em Paris, tinham uma sede de teatro na cidade e viajavam pelo mundo inteiro apresentando seus espetáculos.
E o que fez você mudar de ideia?
Quando acordei no dia seguinte, pensei: “Não. Vou partir primeiro para outra ideia: fazer um documentário sobre a trajetória dessa companhia e desses dois artistas”. Eu ainda estava na semana de oficina com eles e, ao final, chamei os dois para tomar um café. Falei que gostaria de fazer um documentário sobre a trajetória deles e da companhia. E havia uma vantagem: eu poderia começar a fazer o filme imediatamente, sem precisar esperar a captação de recursos. Eles imediatamente autorizaram e, a partir dali, comecei a acompanhá-los. E lá se vão nove anos. Ao longo desse período, eu e a Miriam conseguimos atrair parceiros para o projeto, entre eles o Canal Curta!, que foi responsável pelo aporte que viabilizou oficialmente a realização do filme, e a Matizar Filmes, uma produtora muito experiente, que entrou como parceira.
"É um privilégio estar envolvido em um projeto que te enriquece a cada momento... Nem todo projeto causa um impacto tão profundo, e esse filme certamente me causou"
Aprofundar-se na história da Cia. Dos à Deux te impactou como artista? Te deu motivações e inspirações?
Bastante. Todas as vezes em que estive reunido com eles, acompanhando ensaios, apresentações e bastidores, ou entrevistando o Artur e o André, eu me pegava pensando em como aqueles encontros eram ricos para mim. É um privilégio estar envolvido em um projeto que te enriquece a cada momento. Quando pensei em fazer o filme sobre eles, não imaginava que isso aconteceria. Foi no dia a dia, na convivência, que comecei a perceber o quanto aqueles encontros estavam me transformando. Eu tinha momentos em que pensava: “Nossa, como estou aprendendo com esse encontro? Como estou crescendo como artista e como ser humano? Quantas reflexões essa relação está me trazendo?”. Nem todo projeto causa um impacto tão profundo, e esse filme certamente me causou.
Afinal, foram nove anos...
Sim. Foi também um processo muito longo. Levei nove anos desde o primeiro contato com eles até o filme ficar pronto e ser lançado agora — não foram nove anos ininterruptos, claro. Às vezes ficávamos seis, oito meses sem nos ver, mas todos os nossos encontros eram muito intensos e me traziam grandes aprendizados e muitas reflexões sobre o que é ser artista, sobre criação artística e também sobre a forma de estar no mundo. O filme e a relação com eles me trouxeram muita inspiração e motivação. Quando eu os escutava falando, ou passava meses na ilha de edição revendo e ouvindo as entrevistas enormes que fiz com eles, aquilo me motivava a seguir em frente, pensar em novas ideias e desenvolver novos projetos. Então, o filme se tornou muito especial também por tudo o que essa convivência provocou em mim ao longo desses anos.
"Essa vinda para Portugal, com a minha família — eu, Miriam e nossos dois filhos — foi um desejo de morar um tempo fora do Brasil"
É uma companhia que começou na França, de um encontro de um brasileiro com um angolano. Você vive há seis anos entre Brasil e Portugal. Como foi, enquanto artista, "recomeçar" em outro país?
Essa vinda para Portugal, com a minha família — eu, Miriam e nossos dois filhos — foi um desejo de morar um tempo fora do Brasil. Nós já tínhamos passado oito meses em Londres e nenhum de nós dois havia vivido, na juventude, essa experiência de morar fora. Quando voltamos para o Brasil, conversando em casa, surgiu a ideia: “Vamos nos preparar para viver uma experiência mais longeva em outro país, em outra cultura”. Portugal surgiu naturalmente como foco, principalmente porque a possibilidade de trabalhar aqui era maior do que em outros países por causa da língua. Apesar de falarmos o mesmo idioma, temos culturas completamente diferentes. Somos povos muito distintos em vários sentidos. Quando viemos para cá, inicialmente com a ideia de ficar dois anos, não tínhamos a intenção de chegar já nos estabelecendo no mercado de trabalho. Pensamos: “Vamos com calma, vamos viver essa experiência mais familiar e essa vida de imigrante, entendendo como ela vai bater em nós e o que vai provocar”. Só que esses dois anos foram aumentando para três, quatro, cinco e, hoje, já são seis.
Mas vocês estão sempre no Brasil também...
Apesar de irmos muito ao Brasil — em média, duas vezes por ano — normalmente passamos lá os meses de julho, agosto e setembro, que são as férias de verão do nosso filho mais novo, o único que ainda mora conosco e está em idade escolar. Aproveitamos esses três meses para matar a saudade dos amigos, da família e, muitas vezes, também para trabalhar.
Foi fácil trabalhar em Portugal?
Quando percebemos que ficaríamos mais tempo em Portugal, começamos de fato a nos colocar profissionalmente aqui. Nós sempre fomos produtores de teatro e também de audiovisual, mas principalmente de teatro, e começamos a trazer nossos espetáculos para cá. Conseguimos uma parceria muito forte, embora o início não tenha sido fácil. É um mercado muito fechado e restrito, e sentimos que existe uma certa defesa do mercado local. Quando você vai pleitear uma pauta em um teatro, por exemplo, há uma fila muito grande de produções portuguesas que acabam entrando na sua frente. E eu entendo isso: é um país pequeno, com muitos artistas e produtores, então não é fácil para quem vive de arte aqui em Portugal também. Mas, graças à nossa busca e ao nosso esforço, que sempre foram muito intensos nas nossas realizações, conseguimos uma parceria muito importante com um teatro onde vivemos, Oeiras, que fica entre Lisboa e Cascais e faz parte da Grande Lisboa. É o Teatro Independente de Oeiras, dirigido e produzido pelo ator, diretor e produtor Carlos d’Almeida Ribeiro. O Carlos foi muito generoso desde o início e nos recebeu sempre de portas e coração abertos. Hoje, depois de seis anos, somos muito parceiros e fazemos nossos espetáculos lá, inclusive em regime de coprodução.
No audiovisual foi mais fácil por conta do sucesso dos atores brasileiros e das produções brasileiras lá?
Com o tempo, também fomos nos inserindo no mercado audiovisual. Como ator e atriz, conseguimos trabalhar, mas, como diretor, percebi que era mais difícil. Eu vinha de uma experiência de 13 anos dirigindo telenovelas no Brasil e, aqui, vi que esse espaço era mais fechado. Isso não me impediu, porém, de trabalhar como ator em duas novelas, duas minisséries e três filmes de longa-metragem. A Miriam também participou de duas séries para a televisão. É um mercado muito diferente e muito menor, embora o mercado brasileiro também seja bastante complexo e concentrado principalmente no Rio e em São Paulo. Aos poucos, conseguimos estabelecer nossa relação profissional aqui. Agora, vou dirigir um espetáculo, uma produção grande de teatro, com uma produtora de Lisboa que me fez o convite, com estreia prevista para o final de janeiro. Acho que estamos cada vez mais estabelecendo esse espaço e, ao mesmo tempo, queremos que nossa vida seja realmente dividida entre Brasil e Portugal. À medida que nosso filho for terminando o ensino médio, acredito que vamos equilibrar metade do ano no Brasil e metade em Portugal.
O ator é muito social, de grupos. Como foi formar grupos de colegas amigos?
Sobre fazer novos grupos de amigos, essa é uma questão realmente mais difícil. Eu e a Miriam, por natureza, somos mais fechados. Gostamos muito de conviver com a família e com um pequeno número de amigos que carregamos pela vida toda. Então, abrir esse novo espaço para novas amizades é difícil, mas necessário. Fizemos amizades aqui, sim, poucas, mas fortes, e essas poucas amizades são muito importantes para nós. Inclusive, levamos agora em agosto três casais muito amigos, com seus cinco filhos, para o Brasil. Recebemos todos na nossa casa no Rio e também em Tiradentes. Foi muito, muito saboroso poder levar esses amigos que fizemos aqui para conhecer o nosso lugar, estar conosco e compartilhar um pouco da nossa vida no Brasil.
Por que escolheram Portugal para viver a maior parte do ano?
Quando pensamos em viver por um período mais longo — dois ou três anos da nossa vida — em outro país e em outra cultura, trabalhar também era uma questão importante. Nesse sentido, Portugal acabou sendo uma escolha bastante óbvia, principalmente pela língua. Além disso, eu já tinha uma relação muito antiga com o país. Frequentei Portugal durante muitos anos, especialmente nos anos 1990, então já tinha muito gosto e simpatia por estar aqui. Também gosto muito do clima, da gastronomia, da cultura e da natureza de Portugal, que, na minha opinião, nem sempre é tão percebida pelos brasileiros que vêm para cá como turistas. Portugal é um país com muita natureza, especialmente para quem se dispõe a conhecê-la para além dos roteiros mais tradicionais. Tudo isso foi muito determinante para a nossa escolha de viver aqui por um período mais longo.
Em que encontraram - no começo - mais dificuldade na adaptação ao construir a vida em outro país, com outra cultura?
Eu acho que o mais difícil foi realmente perceber que, apesar de nós, brasileiros, chegarmos a Portugal com a ideia de que somos países muito parecidos por conta da língua, na verdade não somos. Somos culturas bastante diferentes. Os portugueses são, de maneira geral, mais fechados, menos descontraídos e menos abertos ao diferente. Isso não é uma crítica negativa, é apenas uma constatação. Nós, brasileiros, somos mais expansivos, mais barulhentos, e temos essa característica de receber quem chega de braços abertos. No Brasil, não temos tanto essa sensação de que podemos estar sendo invadidos por imigrantes. Aqui em Portugal, percebemos, ao longo desses seis anos, o quanto cresceu esse receio de que o país está sendo “invadido”, e isso acaba gerando reações de pessoas que, muitas vezes, não compreendem esse fluxo natural de pessoas no mundo.
O que vocês fizeram diante disso?
Então, para mim, o mais importante foi entender essas diferenças e aprender a me inserir nelas, sem querer impor aqui a nossa forma de viver no Brasil. Eu percebo que muitos brasileiros chegam e querem viver exatamente como viviam lá. E eu acho que não precisa ser assim. O grande barato, a parte mais saborosa, é você pensar: “Deixa eu me adaptar um pouco a essa cultura aqui”. E, aos poucos, você vai fazendo essas adaptações. Então, não foi tão difícil assim. Foi mais uma questão de tempo para entender as diferenças, respeitá-las e encontrar o nosso espaço dentro delas.
A rotina de vocês, enquanto família, é muito diferente da que tinham no Brasil? Existe de fato uma vida mais simples em Portugal?
Não é que a nossa vida seja diferente aqui em Portugal; ela é muito mais simples em alguns aspectos. Nós diminuímos o nosso padrão de vida. No Brasil, vivíamos em uma casa muito grande, tínhamos dois carros e duas pessoas trabalhando conosco, porque, por causa do tamanho da casa, isso era necessário. Aqui, isso não faz parte da cultura. O português, de modo geral, não tem alguém trabalhando em casa para cozinhar, limpar ou cuidar dessas tarefas. Então, essa já foi uma mudança importante para nós.
"Eu e Miriam passamos a cuidar de 100% da casa: da comida, da faxina, da organização, da limpeza, de tudo no dia a dia. Isso faz muita diferença, mas, no fundo, era algo que nós queríamos. Quando você vem para cá, seus filhos vão para a escola pública e você passa também a utilizar a saúde pública. Então, começa a entender como esses serviços funcionam."
Aqui no Brasil, há um hábito de pessoas com uma condição financeira melhor terem funcionários para fazer faxina, cuidar dos filhos...
Eu e Miriam passamos a cuidar de 100% da casa: da comida, da faxina, da organização, da limpeza, de tudo no dia a dia. Isso faz muita diferença, mas, no fundo, era algo que nós queríamos. Quando você vem para cá, seus filhos vão para a escola pública e você passa também a utilizar a saúde pública. Então, começa a entender como esses serviços funcionam. A escola pública, aqui, atende a grande maioria dos portugueses, e isso é completamente diferente do Brasil, onde as escolas particulares também têm uma presença muito grande. Foi muito interessante deixar nossos filhos na escola pública e ver a convivência de classes sociais absolutamente distintas dentro da mesma sala de aula e da mesma escola. Nós achamos isso muito positivo.
A segurança é algo que atrai também pensando no caos de grandes cidades como São Paulo e Rio?
No nosso caso, vivemos em Oeiras, e os filhos estudam necessariamente em escolas próximas de onde você mora. Há duas ou três escolas possíveis na região, e você indica a ordem de preferência. Tivemos sorte porque nosso filho conseguiu a escola que escolhemos. Você acaba vivendo muito naquela região. Oeiras tem cerca de 100 mil habitantes e não tem trânsito, por exemplo. Nosso filho estuda a seis minutos de casa e, do primeiro ao último dia de aula, o trajeto leva seis minutos. Não existe aquele trânsito que muda completamente dependendo da época do ano. Tudo é muito próximo: supermercados, shopping center, que tem seis ou sete salas de cinema, teatros... Há uma vida muito tranquila. Lisboa já é mais agitada, mas estamos a cerca de 20 minutos de lá. Também vivemos a 200 metros da praia, então temos uma orla muito tranquila para caminhar, andar de bicicleta e até mergulhar. E a segurança realmente impacta muito o nosso dia a dia. Você leva uns dois ou três meses para o seu organismo entender que não precisa mais olhar para o lado para ver se existe algum perigo. Você passa a poder sair à noite, voltar para casa às duas ou três da manhã em algum dia, sem aquela preocupação constante. Pode andar na rua sabendo que sua filha está andando sozinha com as amigas e que não há aquele mesmo nível de risco. Isso impacta muito. Muda a sua forma de estar e de viver o dia a dia.
"Matar a saudade dos familiares e dos amigos é o que a gente mais gosta de fazer quando está no Brasil, porque é justamente do que mais sentimos falta aqui"
Mas mesmo assim retornar ao Brasil é algo que aparenta ser necessário e especial para vocês. Além de matar a saudade de outros familiares e amigos, o que vocês gostam de fazer quando estão esses três meses anuais no Brasil?
Acho que, profundamente, é matar a saudade dos familiares e dos amigos. É o que a gente mais gosta de fazer quando está no Brasil, porque é justamente do que mais sentimos falta aqui. É nessa ausência dos amigos e da família que, de vez em quando, a emoção aperta o coração e até nos faz pensar se, em algum momento, deveríamos voltar definitivamente. Minha mãe veio para cá há um ano e meio, então, pelo meu lado, isso ameniza um pouco a saudade. Ela mora muito perto de nós, a apenas uma quadra daqui. Já a minha sogra continua no Brasil, e isso faz muita falta para a Miriam, minha mulher. Quando estamos no Brasil, gostamos imensamente de ir ao teatro, principalmente no Rio de Janeiro, que é a nossa cidade e onde temos a nossa casa. Quando vamos a São Paulo, também adoramos ir ao teatro para matar a saudade de acompanhar a produção teatral brasileira. Sentimos muita falta disso. Também vamos bastante ao cinema para assistir a filmes brasileiros, que acabam chegando pouco a Portugal. E vamos muito para a nossa casa em Tiradentes, um lugar de que sentimos muita saudade. Temos essa casa há 15 anos, no centro histórico da cidade, e é um lugar onde realmente nos sentimos em paz. Temos muitos amigos por lá e é onde conseguimos recarregar as baterias.
O cinema brasileiro tem tido cada vez mais espaço e destaque no exterior. Vocês sentem isso em Portugal também? Vocês têm mais projetos voltados para as telonas?
Bom, acho que o cinema brasileiro está vivendo, de fato, um momento de maior inserção no exterior, e isso é muito positivo. A questão é que, volta e meia, no Brasil, temos uma quebra desse movimento. Alguns anos atrás, por exemplo, vivemos a extinção do Ministério da Cultura, o que foi terrível. Da mesma forma, há mais de 30 anos, durante o governo Collor, tivemos a extinção da Embrafilme e de outros órgãos ligados à cultura. É uma ignorância que esperamos, utopicamente, que não aconteça nunca mais. Hoje, estamos vivendo um movimento muito forte do cinema brasileiro no exterior, com uma presença cada vez maior nos principais festivais internacionais e a conquista de prêmios importantes ao redor do mundo. Mas, ironicamente, em Portugal, um país com o qual compartilhamos a mesma língua, o cinema brasileiro ainda tem uma presença muito pequena. Recentemente tivemos “Ainda Estou Aqui”, “O Agente Secreto” e “Vitória”, com Fernanda Montenegro, mas são casos pontuais.
Que estranho, né? Porque realmente a nossa música e a nossa novela sempre fizeram muito sucesso em Portugal...
Eu não entendo por que um país que, durante décadas, pelo menos 30 ou 40 anos, absorveu tanto da dramaturgia audiovisual brasileira por meio das telenovelas não passou a ter também o hábito de abraçar e consumir o cinema brasileiro. Volta e meia, inclusive, conversamos sobre isso entre amigos e pensamos se não deveríamos abrir uma distribuidora de filmes brasileiros em Portugal. Como somos empreendedores culturais, essa é uma ideia que fica na minha cabeça. Talvez esteja chegando a hora de abrir uma distribuidora exclusivamente dedicada a filmes brasileiros em Portugal. É um projeto que envolve legislação, estrutura empresarial e uma série de outras questões, mas acho que é uma ideia que deveria ser plantada para o médio e longo prazo. Neste momento, estou lançando meu quarto longa-metragem como diretor e produtor, o primeiro documental, chamado “O Gesto Entre Nós”, que conta a história da companhia Dos à Deux. Também tenho um projeto de ficção em desenvolvimento, baseado em uma história real de uma mulher de Paraisópolis, em São Paulo. É uma história muito forte e bonita, de sobrevivência, luta e transformação. Ainda estamos escrevendo o roteiro e, depois, vamos começar a buscar a captação para o projeto, então é algo que ainda está um pouco mais distante. A Miriam está gravando uma série chamada “A Ira do Herdeiro”, uma parceria da Disney+ com a Record. Eu também terminei de gravar uma série em Portugal há alguns meses.
A produtora que vocês têm, a Movimento Carioca Produções, completa 35 anos no ano que vem. Quais os planos para celebrar esse marco?
Para comemorar, vamos fazer uma grande ocupação teatral no Rio de Janeiro, durante 12 semanas, apresentando de seis a oito espetáculos do nosso repertório. Ainda estamos decidindo se serão seis ou oito. A comemoração dos 35 anos da Movimento Carioca acontecerá entre julho, agosto e setembro do ano que vem. O teatro ainda está sendo definido, mas já está praticamente fechado. Precisamos aguardar um pouco para confirmar.
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