Primeira-ministra do Japão gera polêmica ao dizer que usa pelo menos 3 horas cuidando de maquiagem e tarefas domésticas
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, estava diante de um púlpito no Parlamento nesta semana, respondendo a perguntas sobre o orçamento, a Rússia, um escândalo político emergente e a redução das tensões nucleares.
Então veio uma pergunta sobre sua agenda. Takaichi, a primeira mulher na história do Japão a ocupar o cargo de primeira-ministra, aproveitou o momento para fazer uma observação. Disse que sua rotina diária era muito mais atribulada do que a de seus antecessores homens porque passa pelo menos três horas se maquiando, tomando banho, cozinhando e realizando outras tarefas.
"Encontrar tempo para me sentar e me concentrar com a mente realmente tranquila é um desafio", disse ela aos parlamentares presentes, a vasta maioria homens. "Sinto que, em comparação com um primeiro-ministro homem, talvez eu passe três ou quatro horas a mais nessas tarefas."
As declarações de Takaichi provocaram discussões no Japão, onde as mulheres ainda assumem uma parcela desproporcional das tarefas domésticas e enfrentam pressão para se adequar a expectativas rígidas conhecidas como midashinami, ou seja, apresentar-se de forma adequada em público.
Essas normas incluem usar maquiagem —mas não em excesso— e salto alto, além de evitar saias curtas e blusas decotadas.
Alguns apoiadores de Takaichi elogiaram suas declarações, afirmando que ela ajudou a chamar a atenção para o esforço adicional que as mulheres fazem para ter sucesso no trabalho e para o papel que desempenham na administração da casa.
"Estão dizendo que ela deveria comparecer à Dieta sem maquiagem?", escreveu Kotoe Hashimoto, uma escritora conservadora, na rede social X, usando o nome do Parlamento japonês.
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Mas alguns parlamentares e comentaristas criticaram Takaichi, uma conservadora ferrenha, afirmando que ela estava promovendo estereótipos sobre as mulheres.
A senadora da oposição, Yoshiko Kira, disse em entrevista que Takaichi estava reforçando normas de gênero e prejudicando os esforços para ampliar os direitos das mulheres no país.
"Considero profundamente perturbador que a primeira-ministra fale como se essas expectativas específicas em relação à aparência e ao comportamento fossem simplesmente ‘a ordem natural das coisas’ —como se fossem premissas imutáveis e fundamentais, que não podem ser questionadas", afirmou.
As declarações de Takaichi ocorreram durante uma audiência orçamentária de rotina, em resposta a uma pergunta sobre um relatório recente que sustentava que os primeiros-ministros do Japão passam tempo demais lidando com procedimentos legislativos.
O relatório, elaborado pelo think tank NXJI Research, constatou que os líderes japoneses podem passar até sete horas por dia respondendo a perguntas de parlamentares. Segundo o documento, espera-se que o primeiro-ministro compareça a sessões do Parlamento, em média, cerca de 72 dias por ano, em comparação com 50 dias no Reino Unido e 13 dias na Alemanha.
Takaichi, que se define como viciada em trabalho e com sono de "zero a três horas" por noite, respondeu descrevendo as exigências de sua agenda. Disse que "considerava bastante difícil reservar tempo para se sentar e pensar estrategicamente sobre o rumo que o país deveria tomar ou sobre o tipo de nação que o Japão pretende ser". Acrescentou que leva para casa uma "montanha de documentos" todos os dias.
Em seguida, descreveu como sua equipe de assessores —composta exclusivamente por homens— tem tido dificuldade para se adaptar à sua rotina, sem sequer reservar em sua agenda tempo para que ela se maquie antes de aparições na televisão.
"Eles ainda não se acostumaram completamente ao fato de eu ser uma primeira-ministra, e não um primeiro-ministro", disse ela, arrancando risos dos parlamentares.
Takaichi tem feito questão de encarnar valores tradicionais durante seu mandato. Ela já falou sobre cuidar do marido doente, preparar refeições e limpar sua residência.
Segundo algumas estimativas, as mulheres japonesas assumem mais de três quartos das tarefas domésticas. Esse peso é agravado pelo fato de que muitos trabalhadores japoneses são rotineiramente pressionados a fazer horas extras —até 22 horas por mês—, de acordo com pesquisas recentes.
Embora Takaichi receba apoio no exercício de suas funções oficiais, ela não dispõe de uma equipe de mordomos, chefs e jardineiros, como ocorre na Casa Branca. De acordo com uma entrevista concedida neste ano pelo marido de Takaichi e ex-parlamentar, Taku Yamamoto, a residência oficial conta com pouca ajuda doméstica.
Na entrevista, publicada pela revista mensal Bungeishunju, Yamamoto disse que uma pessoa vai à residência uma vez por semana para fazer a limpeza, mas não há cozinheiro. Às vezes, contou, ele pede pizza, tomando o cuidado de obter o nome do entregador para que o pedido consiga passar pela segurança.
"O acesso ao prédio é controlado de forma tão rigorosa que parece que estamos em uma prisão!", disse ele à revista.
No Japão, é relativamente incomum que as famílias contratem ajuda doméstica; apenas cerca de 2% dos lares empregam profissionais de limpeza, segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria.
Takaichi, que prometeu "trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar" ao ser eleita no ano passado, tem destacado com frequência sua rotina extenuante para reforçar a imagem de uma líder com os pés no chão.
Seus comentários, em julho, sobre seus hábitos de sono provocaram um debate no país sobre o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Na ocasião, ela contou que passou um feriado prolongado passando roupas íntimas, costurando saias que estavam se desfazendo e reforçando botões frouxos de paletós.
Takaichi chegou ao poder no sistema político japonês, dominado por homens, e adotou algumas políticas que, segundo críticos, enfraquecem os direitos das mulheres. Como primeira-ministra, apoiou uma legislação destinada a preservar a linhagem exclusivamente masculina da família imperial japonesa. Ela também se opõe à mudança de uma antiga lei que exige que casais adotem o mesmo sobrenome.
Ela também já foi alvo de sexismo, incluindo comentários sobre suas roupas, seu cabelo e sua maquiagem.
O midashinami é uma parte tão importante da cultura japonesa que escolas fazem inspeções rotineiras do cabelo, das unhas e do comprimento das saias, enquanto os locais de trabalho impõem regras rígidas. Embora existam expectativas de cuidados pessoais tanto para mulheres quanto para homens, na prática elas costumam ser submetidas a um escrutínio maior.
A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, pediu desculpas várias vezes nos últimos anos por ter se esquecido de usar batom em entrevistas coletivas. O Japão ficou em polvorosa no início deste ano quando uma apresentadora da NHK, a emissora pública, correu para o estúdio após um terremoto e apareceu no ar usando óculos e aparentemente sem maquiagem.
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