Doações individuais na eleição têm 'Rei do Gás' à frente e repasses voltados a direita e centro
O empresário baiano Carlos Seabra Suarez, conhecido no setor de energia como o "Rei do Gás", ocupa o primeiro lugar entre as pessoas físicas que mais destinaram recursos para o financiamento de campanha nas eleições 2026. Ele repassou R$ 5,7 milhões diretamente aos diretórios nacionais de seis partidos do centro e da centro-direita.
As informações fazem parte da prestação de contas parcial divulgada pela Justiça Eleitoral nesta terça-feira (15). O relatório aponta que o ranking de pessoas físicas doadoras contabiliza R$ 374,9 milhões destinados a partidos e candidatos.
Suarez ganhou projeção nacional na engenharia pesada como um dos sócios-fundadores da construtora OAS. Após desligar-se da empreiteira, investiu em infraestrutura energética ao fundar a Termogás e adquirir participações acionárias estratégicas em concessionárias estaduais de gás canalizado, como Potigás, Cergás, Algás e Companhia Paranaense de Gás. A presença dominante na cadeia de distribuição regional consolidou sua posição no mercado de gás natural. Com a proibição de doações eleitorais por pessoas jurídicas em 2015, o empresário passou a atuar como doador individual.
Na atual campanha, destinou R$ 1 milhão para a direção nacional do MDB, mesmo valor doado ao PP, PSD, PSDB e para o União Brasil. Repassou ainda R$ 700 mil para o PSB.
A atuação de Suarez nos bastidores de Brasília reflete interesses na preservação de marcos regulatórios vigentes e na expansão da infraestrutura de gás no país por meio do setor privado. O empresário também articulou a instalação da usina UTE Rima no Distrito Federal e travou disputas judiciais e regulatórias no setor, como um embate com o grupo J&F em torno de contratos de térmicas no Amazonas. O empresário não respondeu ao pedido da reportagem para que comentasse suas doações.
Na segunda posição do ranking figura o empresário Alexandre Grendene Bartelle, cofundador da calçadista Grendene e investidor em setores como imobiliário e agropecuário. O empresário repassou R$ 3,6 milhões em doações eleitorais.
Sua estratégia concentrou recursos em disputas no Rio Grande do Sul e no Ceará, estados que abrigam os principais polos fabris da empresa. O maior aporte individual foi de R$ 2,5 milhões para Luciano Zucco (PL), candidato ao governo gaúcho.
Alexandre Grendene também destinou R$ 500 mil a Ciro Gomes (PSDB), candidato ao Governo do Ceará. Irmão de Ciro, o candidato ao Senado Cid Gomes (PSB) também recebeu R$ 500 mil do empresário. Regina Becker Fortunati (PDT), que concorre a deputada estadual pelo Rio Grande do Sul, recebeu R$ 100 mil. O perfil das contribuições indica predileção por lideranças regionais alinhadas com pautas de incentivo à indústria nacional e simplificação tributária. Procurado, Alexandre não comentou até a publicação deste texto.
O terceiro maior doador individual é Rubens Ometto, presidente do conselho de administração dos grupos Cosan e Raízen, com R$ 2,95 milhões declarados.
Líder de um conglomerado com forte presença nos setores de sucroenergia, combustível e distribuição de gás por meio da Comgás, Ometto tem um perfil diversificado como doador eleitoral a candidaturas proporcionais.
Distribuiu verbas entre legendas de espectros variados, beneficiando João Junior (Democrata-MG), Carlos Zarattini (PT-SP) e Antonio Carlos Rodrigues (PL-SP) com R$ 200 mil cada, João Ribeiro Barroso Filho (PT-CE) com R$ 150 mil, além de Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), José Eduardo Botelho (União Brasil-MT), Onyx Lorenzoni (PL-RS), Hugo Leal (PSD-RJ) e Jessica Motran (MDB-MT) com R$ 100 mil cada.
O amplo leque de repasses evidencia interesse na interlocução com parlamentares ligados às frentes de infraestrutura, agronegócio e transição energética.
Nas doações partidárias, concentrou doações ao centro e à direta. Destinou R$ 1 milhão à direção nacional do MDB, R$ 300 mil à direção estadual do PL no Tocantins e R$ 200 mil ao PP de Mato Grosso do Sul.
Em nota, o empresário afirmou que as doações feitas "são realizadas em caráter pessoal e seguem as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral e demais normas aplicáveis".
Em quarto lugar no levantamento está o empresário Robert Carlos Lyra, presidente da Delta Sucroenergia, com R$ 2,6 milhões em contribuições. Com atuação no setor de biocombustíveis e agroindústria, Lyra repassou R$ 1,5 milhão para a direção nacional do PP e concentrou o restante de seus recursos em candidatos de Minas Gerais.
A campanha de Flavio Roscoe (PL) ao governo recebeu R$ 500 mil de Lyra. Na disputa parlamentar, o empresário contemplou Reginaldo Lopes (PT) com R$ 205 mil, Nikolas Ferreira (PL) com R$ 200 mil, Betinho Pinto Coelho (União Brasil) com R$ 50 mil, além de outros postulantes estaduais mineiros.
Lyra não havia comentado sobre suas doações até a publicação da reportagem.
O quinto colocado é Pedro Grendene Bartelle, também cofundador da Grendene, que somou R$ 2,45 milhões em doações. A exemplo de seu irmão, Pedro direcionou aportes a nomes com inserção no Sul e no Nordeste. A maior contribuição individual foi de R$ 1 milhão para a campanha de Elmano de Freitas (PT) ao governo cearense.
Repassou ainda R$ 1 milhão aos irmãos Ciro e Cid Gomes, sendo R$ 500 mil a cada um.
Em comum com a maioria dos integrantes do topo do ranking de doadores, o empresário ofereceu apoio a candidaturas de siglas antagônicas. Ele também não respondeu à reportagem a respeito dos repasses.
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