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Sunday, November 1, 2026

Dólar alto após eleições se soma a El Niño e ameaça inflação

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O dólar mais alto após a reeleição do presidente Lula (PT) surge como risco adicional para a inflação e começa a provocar revisões nas projeções de economistas para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

Segundo eles, a ameaça ocorre em um momento no qual os preços dos alimentos já refletem os impactos iniciais do fenômeno climático El Niño.

A moeda americana fechou a sexta-feira (30) em R$ 5,447, a maior cotação neste ano. A alta acumulada na semana pós-eleições foi de 9,2%. Trata-se de uma resposta do mercado financeiro ao temor de um ajuste fiscal insuficiente por parte do governo.

Caso se mantenha em nível superior ao verificado antes das eleições, o dólar pode pressionar os preços em diferentes setores da economia.

A moeda afeta a produção de bens que dependem da importação de insumos e é referência para as cotações de commodities, incluindo as agrícolas.

"Quase tudo responde ao câmbio, em maior ou menor grau, mas tem alguns candidatos [principais], como os preços de combustíveis, alimentos e alguns bens duráveis. A gama é gigantesca", diz o economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence.

Ele subiu as projeções para o IPCA em 2026, de 5,18% para 5,31%, e em 2027, de 4,23% para 5%.

O economista afirma que a mudança na curva de câmbio puxou a revisão para cima, seguida pela possibilidade de efeitos mais intensos do El Niño sobre os preços.

Eventuais aumentos nos custos de parte dos setores com o fim da escala 6x1 e a reforma tributária são fatores de menor influência para a alteração nas estimativas, indica Romão.

Folha Mercado

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A meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) tem centro de 3%. O intervalo de tolerância é de 1,5 ponto percentual para menos ou para mais, o que significa piso de 1,5% e teto de 4,5%.

"Não é só uma inflação preocupante em 2026. Começa a ficar preocupante também para 2027", afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. Ele prevê altas de 5,2% para o IPCA em 2026 e de 4,5% em 2027.

Antes do desfecho das eleições, a inflação voltou a ser pressionada pelos preços altos da comida. Os alimentos subiram em meio à redução da oferta devido a problemas climáticos como as fortes chuvas no Sul e no Sudeste.

Segundo Vale, parte do quadro pode ser associada aos efeitos iniciais do El Niño. O evento é conhecido por mexer nas temperaturas e alterar a distribuição das chuvas, o que desafia a produção agropecuária.

Vale avalia que o dólar pode se acomodar após o susto do mercado com a vitória de Lula, mas é preciso aguardar as sinalizações do presidente em relação à área fiscal e à montagem do novo governo.

Além do câmbio e do El Niño, as medidas de impulso à economia implementadas pela gestão petista às vésperas das eleições também podem pressionar o IPCA pelo lado da demanda, aponta o economista.

Um dos exemplos citados é o reajuste do Bolsa Família. O anúncio do aumento ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, e os novos valores começaram a ser pagos na semana anterior ao segundo turno.

"Tem um cenário bem tumultuado de final de ano que traz pressão adicional para a inflação", afirma Vale.

Rafael Cardoso, economista-chefe do banco Daycoval, projeta IPCA de 5% em 2026 e de 4,2% em 2027. De acordo com ele, a estimativa do próximo ano pode aumentar devido a uma combinação de riscos.

O economista diz que isso vai depender da intensidade dos efeitos do El Niño, da pressão cambial e dos custos do fim da escala 6x1, além do comportamento do petróleo e das medidas do governo em relação aos combustíveis.

Em outubro, a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) desacelerou para 0,32%, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A queda dos preços da passagem aérea e da energia elétrica ajudou a conter a alta, enquanto a carestia dos alimentos pressionou o resultado geral.

Os preços da alimentação no domicílio subiram 1,01%. Foi a maior variação para outubro em cinco anos, desde 2021. O tomate exerceu a principal pressão, com alta de 24,54%, seguido por arroz (5,8%), cebola (13,63%) e batata-inglesa (10,96%).

Os dados de outubro do IPCA, o índice oficial de preços do país, ainda não estão disponíveis. O IPCA-15, por ser divulgado antes, sinaliza uma tendência para a inflação. A coleta do IPCA-15 de outubro ocorreu no período de 16 de setembro a 14 de outubro.

O mercado financeiro espera altas de 5,19% para o IPCA em 2026 e de 4,34% em 2027, conforme a mediana do boletim Focus, publicado pelo BC na segunda (26). As expectativas foram coletadas antes da vitória de Lula.

ECONOMISTA VÊ RISCOS SEM AJUSTE FISCAL

Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para Brasil do UBS GWM, sem um ajuste fiscal crível, a alta do dólar deve persistir e representar mais um fator inflacionário para o ano que vem, o que tornará mais difícil para o Banco Central controlar a alta dos preços.

Nesse cenário, não está descartada a possibilidade de o BC ter que voltar a subir a taxa básica de juros da economia em 2027, avalia a economista.

Os analistas ouvidos semanalmente pelo boletim Focus esperam que a Selic encerre este ano em 13,25% ao ano e que seja reduzida a 11,75% no ano que vem.

"Vemos um movimento significativo no câmbio e isso tem impacto inflacionário. Se não houver um ajuste para desacelerar a dívida, isso afeta muito as expectativas de inflação. O governo precisa entender que, se não agir com urgência no fiscal, a situação econômica vai se deteriorar de forma rápida", diz.

Srour afirma que a alta da inflação já está contratada por causa do El Niño e do aumento na cotação do petróleo. "E é insustentável manter os subsídios aos combustíveis por muito tempo", diz a economista, que aponta ainda outros fatores inflacionários, como o fim da escala 6x1 e a implementação da reforma tributária.

Para ela, o único fator desinflacionário para o próximo ano é a desaceleração da economia. "Mas, em um cenário em que há desconfiança com o fiscal, meu viés é achar que isso terá pouco impacto na inflação."

Como mostrou a Folha, a extensão das medidas de ajuste fiscal após a reeleição de Lula abriu um impasse dentro do governo, uma vez que o chefe do Executivo demonstra resistência em propor ações mais robustas e que poderiam configurar um estelionato eleitoral.

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