"Puros que não são pervertidos pelo dinheiro... é bullshit"

Voltando à pergunta, o filme em Portugal fez números impressionantes. Tem a expectativa de os repetir?
Não. Para já, acho que a Gaiola foi um fenómeno, algo fora do normal. Não penso nisso, nunca pensei em números. Isto não é uma Gaiola 2, de todo. É completamente diferente. É outra reflexão, outro momento que estamos a viver, em 2026. São outras preocupações. Espero, com o meu cunho, ter várias layers, vários patamares, várias camadas de noções, de pensamentos, e que cada um leve para casa o que quiser. Se calhar, há pessoas que vão rir, outras pensar, outras vão emocionar-se. Hoje em dia, o cinema está complicado. Graças a Deus, em França voltou. Tivemos um problema gigante com a Covid, e o cinema foi-se muito abaixo, mas há quatro, cinco anos começou a crescer. Este ano bateu os recordes todos, desde 2001 que não tínhamos tantos espectadores no cinema. Isso é maravilhoso. Gostava que em Portugal este filme fosse, de certa forma, uma hipótese de reencontro, de querer ir ao cinema.
Não é sobre os números que vai fazer, não me importo com isso. Gostava que as pessoas quisessem partilhar um momento. Vamos ao cinema? Desligar esta porcaria destes telemóveis e viver o momento. Não estar em casa à frente do streaming e com o telemóvel na mão. É tão bom estar numa sala escura a conviver com pessoas que não se conhecem. As pessoas têm cada vez mais medo do outro.
Vê o cinema como sala de cinema partilhada, mas o filme chega-nos como o primeiro filme Disney+. Foi pacífico que o filme fosse primeiro para as salas antes de aterrar no streaming?
Foi super pacífico. A ideia dos casamentos de Santo António já tem alguns anos, uns cinco anos.
De onde surgiu a ideia?
Não nasceu em mim, foi uma produtora espanhola que vive em Portugal há muito tempo. Disse que gostava que eu conhecesse um amigo dela, guionista, espanhol, que tinham falado e que esta tradição, única, um bocado vintage, dava um filme. Foram eles que vieram ter comigo. Mergulhámos neste mundo e através dos dois casamenteiros percebi: há aqui um filme. A luta destas duas pessoas.
Estes dois casamenteiros existem mesmo?
Existem mesmo. É uma homenagem, aliás, a Carmo [personagem interpretada por Rita Blanco] chama-se mesmo Carmo. O outro [casamenteiro, interpretado por Joaquim Monchique] é Luís, mas eu achei [o nome] Valentim mais engraçado. Mas eles são pessoas mesmo, e a emoção destas duas pessoas que tentavam fazer o melhor com um budget muito pequeno, fazer um sonho, com um glamour, este desafio… Olhei para eles e pensei: uau.
Será que com este filme conquistam mais budget no próximo ano?
Não sei. Isto tudo para dizer que a ideia surge da produtora e começámos a tentar ver como podíamos fazer um filme. A indústria portuguesa é fraca, difícil… Fui fazer uma série a França e de repente surge uma proposta da Disney Portugal para nos encontrarmos e fazer o primeiro projeto Disney+ português. E eu disse: why not? Falaram-me de uma série, mas eu disse: tenho uma ideia para um filme, será que vos interessava? E eles disseram: vamos. Foi aí que surgiram as conversas e eu disse que gostava que o filme não fosse só para streaming e fosse para o cinema. Porque acho que é importante. Foi um sim muito simples, confesso que não estava à espera.
Esteve em vista estrear o filme em junho, no mês do Santo António?
Não. Filmei em outubro [de 2025] e está a estrear-se agora. Foi muito rápido. Estrear no Santo António [13 de junho] não era possível. Tive um processo de pós-produção, não era possível mesmo. Só se fosse no próximo ano, no próximo junho. Depois arranjou-se esta coisa da rentrée. E eu disse: vamos testar. O verão ainda não acabou.
Este, ao contrário da Gaiola, é um filme português. Disse recentemente que recusa a ideia de que o cinema em Portugal tem de ser unicamente “Godard ou Nouvelle Vague”, criticando a desconfiança do meio intelectual face aos filmes que geram receita e encontram o grande público. A questão ainda se põe nestes termos?
Ainda. Porque a indústria, se há uma, é muito pequena. E ainda está fechada nisto. Falo de uma forma mais aberta, macro, da cultura. Há um problema em Portugal em como a cultura é vista. Há uma certa elite que pega na cultura e diz que tem de ser de uma certa maneira.
Sente-se à margem dela?
À margem não. Sei lidar com ela. Cresci em Paris, sei bem o que é a elite. Em França também há, no cinema e na indústria, estas castas… Se acreditam em mim e me dão budget, têm de ter retorno. Não posso fazer um filme estando-me nas tintas se as pessoas vão ver ou não. Quando há uma realidade de produção por trás, isso não pode acontecer. Aqueles que veem a criação e a cultura como puros porque não são pervertidos pelo dinheiro… Isso é bullshit. É bullshit. Há lugar para todos. Gosto muito de ver projetos que são super genuínos com nada, com budget mínimo e em que saem dali coisas inacreditáveis.
Quer dar um exemplo?
De cinema?
Porque não?
Vou dar um exemplo em Portugal, mas não sei os budgets. Acho que o [realizador] Basil da Cunha faz um trabalho extraordinário e não está com mega produções atrás. Duvido que esteja. Lá está, não é porque há dinheiro que se fazem coisas melhores. Isso mostra que com vontade, trabalho e visão pode-se ter coisas maravilhosas. Há várias propostas. Se não voltamos à uniformização do mundo. Portugal ainda está um bocadinho fechado nisso, mas está a mudar.
O cinema continua a ser uma arte cara porque não é feito por uma pessoa só.
É uma realidade, é preciso decors, luz…
Uma forma que se tem encontrado para viabilizar certos orçamentos, sobretudo de obras mais populares, tem sido o product placement. Neste filme vemos marcas como a Worten, a Glovo ou a Delta. Onde é que fica o limite para si, como realizador, entre colocar um produto numa cena, mas não transformar um filme num anúncio publicitário de 90 minutos?
Para mim essa foi uma forma no guião de fazer com que uma personagem vintage fosse moderna. E, de repente, a querer ser moderno há a primeira vez que tem uma aplicação de encomendar alguma coisa. As notificações, bling, bling, isto tudo enriquece a personagem. De repente surgiu [a marca]. Estava escrito. Não tenho problema com isso se não é fake, se não é impor para trazer dinheiro.
Não o vê como uma cedência?
Não, se está inserido no guião, se não é gratuito.
Certamente não escreveu originalmente no guião que a personagem tinha uma máquina de café em que o copo sobe.
Escrevi.
Escreveu?
Sim, estava no guião porque estávamos à procura de coisas modernas que ele [Valentim, personagem interpretada por Joaquim Monchique] podia ter. Nesse momento a Delta tinha-me convidado para o lançamento da loja em Paris e tinha esta máquina. Achei genial: pôr a cápsula e aquilo sair, as pessoas fascinadas. Estava no guião. Gosto de brincar com isto.
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