Catolicismo mantém força no Nordeste, que vê voto conservador crescer e desafiar esquerda
Era como estar diante do show de uma estrela do forró ou numa partida entre times de rivalidade renhida, como Fortaleza e Ceará. As arquibancadas do Ginásio Poliesportivo de Juazeiro do Norte, interior do Ceará, estavam lotadas com um público jovem, que cantava com entusiasmo.
Dentro da quadra, crianças corriam entre tapetes emborrachados, enquanto os pais ajoelhavam diante de um altar. Ali, o padre Sebastião Monteiro comandava em uma terça-feira a Missa Clamando à Misericórdia de Deus, também chamada de Missa da Cura.
Ao fim da cerimônia, Emilly Silva, 20, deixa o ginásio com o pequeno Tomás, filho de 11 meses, nos braços. Católica desde criança, ela mantém o hábito de frequentar a missa e acompanha na internet nomes como o frei Gilson, um dos principais fenômenos de evangelização católica do Brasil.
A religião, contudo, não determina sua decisão de voto. Em 2022, ela votou em Lula (PT) e pretende repetir a escolha neste ano, embora considere que o governo petista tenha deixado a desejar.
Seu companheiro, Stênio Martins, 28, pensa diferente. Ele ainda está indeciso sobre o voto para a Presidência, mas se diz preocupado com a situação econômica do país e faz críticas ao presidente Lula. Ao mesmo tempo, desaprova setores da direita que usam a religião para conquistar votos.
"Vejo muita gente usar a palavra de Deus e a igreja para benefício próprio. Tem muito político que não se importa com a religião em si. Fala uma coisa para o cristão e outra para pessoas de outras religiões. É só para conseguir o voto", diz Stênio, que trabalha com limpeza de prédios comerciais.
O Nordeste que vai às urnas em outubro é majoritariamente católico, mas viveu uma expansão das igrejas evangélicas nas últimas três décadas, aliada ao avanço de um conservadorismo que perpassa as denominações religiosas.
A presença de católicos na população nordestina caiu de 89% em 1991 para 64% em 2022, enquanto a fatia de evangélicos avançou de 5% para 22%. Ao todo, 24 cidades nordestinas têm maioria evangélica, sendo as principais São Pedro dos Crentes (MA), Rio Formoso (PE) e Sirinhaém (PE).
Dentre as cidades com menor proporção de católicos estão as baianas Catu e Camaçari, ambas na Grande Salvador. Nas duas, há uma divisão quase equânime entre católicos e evangélicos e um percentual acima de 20% de pessoas sem religião.
Mesmo com as mudanças, o Nordeste segue com a maior proporção de católicos entre as cinco regiões brasileiras. A fé está entranhada na cultura da região, que carrega a marca da religiosidade popular. Essa força se manifesta na devoção a figuras cuja influência vai além do espaço institucional da igreja, caso de Padre Cícero, frei Damião e Irmã Dulce.
Na região do Cariri, no Ceará, fé cristã e tradições culturais se misturam nas ruas, procissões e romarias. O Crato, que em 2025 inaugurou uma megaestátua de Nossa Senhora de Fátima, é a cidade com mais de 100 mil habitantes com maior número de católicos no país —81,5% da população.
A força do catolicismo não se traduz em um comportamento político homogêneo. É possível encontrar, entre os fiéis, apoiadores de Lula, eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) e pessoas que não vinculam sua fé à escolha política.
Professor do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), Joscimar Silva vê uma maior diversidade de voto entre os católicos, mas aponta o crescimento recente de um catolicismo conservador que pode influenciar o comportamento político dos fiéis, especialmente os mais jovens.
Nesse cenário, católicos e evangélicos compartilham discursos sobre família, moral, segurança e costumes, formando um eleitorado conservador que atravessa diferentes igrejas.
Os efeitos desse movimento já são observados em disputas locais, onde há um avanço de candidaturas ligadas a grupos religiosos na disputa por conselhos tutelares e câmaras municipais. Assim, temas da pauta de costume entraram no debate político do interior nordestino.
A expansão de discursos religiosos no ambiente digital também aproxima pessoas de diferentes religiões em torno de valores comuns. "Uma música evangélica que fala sobre a defesa da família pode ser ouvida por um católico, por um evangélico e por uma pessoa sem religião", afirma o professor.
Foi nesse ambiente que frei Gilson ganhou projeção entre os jovens católicos. Com 13 milhões de seguidores nas redes, ele se tornou um dos principais nomes da Renovação Carismática Católica, retomando um movimento mais antigo de padres celebridades.
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Aos pés da estátua de Nossa Senhora de Fátima, no Crato, o professor Raimundo Pereira, 41, diz que se identifica com a esquerda, mas ainda não sabe se repetirá o voto em Lula.
"Centrão, eu não voto. Bancada da Bíblia, Deus me livre. Extrema direita também. O que sobra é uma esquerda que não é aquela esquerda mais pura", afirma o professor, que é católico e frequenta missas aos finais de semana.
Morador do Crato, o bancário aposentado Armando Lopes Rafael, 70, é devoto de Padre Cícero e vê a religião como parte da estrutura cultural da região. Na política, vota em Flávio Bolsonaro e diz ver espaço para uma mudança no comportamento eleitoral nordestino.
Se nem sempre a religião determina a decisão de voto, a fé é levada a sério pelos candidatos que buscam um lugar ao sol. Na última semana de julho, cerca de 500 romeiros alagoanos foram até a estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Enquanto davam as tradicionais três voltas em torno do cajado de Padre Cícero, a base da estátua foi tomada por adesivos de candidatos, incluindo nomes como Renan Filho (MDB) e Arthur Lira (PP). A prática é proibida, mas recorrente.
Na subida da Colina do Horto, os muros tinham adesivos com a estrela do PT. Mas na casa da aposentada Maria Aparecida de Melo, 68, eram flores que ornavam a fachada. Do lado de dentro, havia imagens de santos e um quadro de frei Damião, capuchinho reconhecido como venerável desde 2019.
No início de julho, quando Lula esteve na cidade para um ato de governo, Maria vestiu uma roupa vermelha e foi assistir à cerimônia. Diz não ter nada contra Flávio Bolsonaro, mas segue votando no PT por convicção.
"Converso com todo mundo. Só não falem mal de Lula, de Nossa Senhora das Dores e do meu Padre Cícero", afirma Maria, aos risos.
Cortejada para conhecer uma igreja evangélica que se instalou no bairro, Maria recusou os convites das vizinhas. Católica fiel, segue acordando na madrugada para o primeiro dos três rosários que reza, religiosamente, todos os dias.
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