Por que Milão foi a cidade escolhida pela Rolex para o novo Padellone
Para o lançamento do calendário anual Padellone, a Rolex escolheu o Palazzo Serbelloni, construído no fim do século 18 e que recebeu Napoleão Bonaparte como morador por algumas semanas em 1796. O prédio, que teve parte da biblioteca destruída em bombardeios durante a Segunda Guerra, serviu de cenário em Milão para apresentar o que pode ser considerado o relógio mais relevante da marca neste ano, ainda que tenha o nome inspirado em um utensílio de cozinha.
A escolha da cidade italiana chama atenção porque a Patek Philippe também vai abrir sua Grand Exhibition em Milão no mês que vem, evento que já passou por Londres, Nova York, Singapura e Tóquio em edições anteriores. Outras marcas do setor têm mirado a capital da Lombardia com a mesma intenção. A LVMH promoveu sua semana de relógios na cidade no início do ano, e a Jaeger-LeCoultre organizou uma exposição por lá na primavera europeia.
Um apelido que virou nome oficial
O Padellone é uma homenagem a um relógio triplo calendário com fase da lua fabricado pela Rolex entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, a referência 8171. Colecionadores e revendedores italianos deram à peça o apelido de padellone, "panelão" em italiano, por causa do formato arredondado da caixa. O apelido pegou e hoje é o nome oficial e registrado da linha, mesmo que o desenho não lembre em nada o utensílio doméstico.
"Escolhemos Milão porque o nome do relógio é Padellone, que foi inventado por colecionadores italianos", disse Jean-Frédéric Dufour, CEO da Rolex, sobre o lançamento que chega às lojas em novembro. Segundo ele, em entrevista ao Financial Times, a ligação da marca com o país é histórica, e nas décadas de 1970 e 1980 um relógio que fazia sucesso na Itália também emplacava no resto do mundo.
A nova versão tem caixa de 39 milímetros, disponível em ouro Everose de 18 quilates ou platina 950, com preços que variam de £ 49.150 a £ 60.700, o equivalente a cerca de R$ 340.600 a R$ 420.650 na cotação atual. O modelo se junta à linha 1908, lançada em 2023, formando a coleção Perpetual, voltada a um público que não se identifica necessariamente com o visual esportivo mais associado à marca.
Técnica avançada sob um visual clássico

Perpetual Padellone: inspiração vintage e inovações tecnológicas (Rolex/Divulgação)
No mostrador, dia e mês ficam posicionados às 12 horas, enquanto um ponteiro azul fino com a ponta em formato de lua percorre um anel periférico com a data. Às 6 horas, um disco esmaltado em azul traz a fase lunar, com as luas cheias e nova recortadas em meteorito, material que a Rolex reserva para peças mais raras do catálogo. Cada lua ganhou um rosto desenhado com humor, detalhe que remete ao mostrador original da referência 8171.
A novidade técnica está no calibre 7190, evolução do 7135 apresentado no ano passado. Dois componentes adicionais no mecanismo de data, chamados de sistema Haplos, permitem que o relógio diferencie meses de 30 e 31 dias sozinho, exigindo ajuste manual apenas uma vez por ano, no fim de fevereiro. O modelo em platina custa £ 55.300, cerca de R$ 383.200.
Milão disputa espaço com Londres e Dubai
A movimentação das marcas na cidade tem relação direta com mudanças fiscais que atraíram novos moradores estrangeiros de alta renda para a Itália nos últimos anos. O regime de tributação fixa sobre rendimentos externos, que passou de € 100 mil para € 300 mil, o equivalente a cerca de R$ 593 mil e R$ 1,78 milhão, segue vantajoso para quem tem grande patrimônio e é apontado como um dos principais motivos da transformação recente da cidade. Em contraste, mudanças nas regras para não domiciliados no Reino Unido têm sido citadas como fator que reduziu o apelo de Londres para esse público.
Jérôme Lambert, CEO da Jaeger-LeCoultre, contou ao Financial Times que a marca organiza há dois anos uma exposição de design em Milão durante a Salone del Mobile, feira de móveis e design da cidade. Nesta edição, o destaque foi o trabalho do designer Marc Newson para a marca. Segundo Lambert, o evento reúne entre 15 mil e 20 mil visitantes em uma semana, número que considera expressivo para os padrões da cidade. O negócio da Jaeger-LeCoultre em Milão está cerca de 50% maior do que no período anterior à pandemia, impulsionado pelo turismo e pelo calendário de moda e design local.
Público mais sofisticado atrai grifes de luxo
Arnault também destacou o nível de conhecimento dos colecionadores milaneses, que segundo ele identificam detalhes técnicos como o redesenho de uma lugueta ou um erro na tipografia do mostrador, sofisticação que compara à de Singapura. Max Bernardini, revendedor de relógios vintage e itens de decoração há mais de quatro décadas, afirmou à Financial Times, notar um público inédito nas negociações da cidade, formado por armênios, franceses, londrinos e pessoas que se mudaram recentemente do exterior e nunca haviam comprado um relógio vintage antes.
Milão tem sua própria feira do setor, a Milano Watch Week, que chega à segunda edição neste ano, coincidindo com o período da exposição da Patek Philippe. O evento também anunciou parceria com a Dubai Watch Week, ampliando a conexão entre as duas praças do mercado de luxo. Arnault comparou o volume de negócios da cidade ao de Dubai, mas destacou um comportamento mais discreto em relação à ostentação entre os compradores milaneses.
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