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Sunday, September 13, 2026

A realpolitik por trás da história oficial da Segunda Guerra

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O panorama editorial português de livros de não-ficção, se bem que apresentando sérias lacunas nalguns domínios, parece estar bem servido no que respeita a dietas e nutrição; espiritualidade e mindfulness; e história da Segunda Guerra Mundial e do III Reich. Com efeito, ao longo do século XXI, tem sido observado um afã editorial invulgar no que respeita a 1933-45, por comparação com outros períodos.

Tendo este conturbado período da história sido escrutinado por tantos e tão diligentes investigadores, estando acessível a maior parte da documentação relevante (com a excepção mais notória dos arquivos centrais do FSB, o Serviço Federal de Segurança da Rússia) e tendo sido publicados numerosos livros sobre as mais variadas e obscuras facetas do conflito, poderá haver quem se pergunte se ainda haverá espaço nas estantes do leitor não-especialista para mais uma obra sobre o tema. A D. Quixote entendeu, em boa hora, que sim e publicou, com escassos meses de desfasamento em relação à edição original, a versão portuguesa de Allies at war: The politics of defeating Hitler (2025), do historiador britânico Tim Bouverie (n.1987), que teve tradução de Luís Filipe Pontes e recebeu como título Aliados em Guerra: Os rivais que derrotaram Hitler.

A obra foca-se nos bastidores políticos e diplomáticos da II Guerra Mundial, em particular nas flutuações e tensões da aliança que fez frente a Hitler, o que significa que os grandes embates militares – que costumam estar no centro da maioria dos livros de divulgação histórica – são meramente aludidas. O autor justifica assim esta opção: “A II Guerra Mundial é o conflito da História sobre o qual existem mais textos. Há milhares de livros acerca das suas batalhas, generais, soldados e vítimas. Neste livro, o objectivo não é acrescentar mais alguma coisa a esse manancial de história militar” (pg. xv). Este princípio geral não impede Bouverie de providenciar contexto para alguns eventos militares que, embora sejam menos conhecidos, são relevantes para a história política e diplomática, mas, de qualquer modo, a fruição de Aliados em Guerra requer que o leitor tenha já uma ideia genérica sobre a II Guerra Mundial e o seu contexto.

Noutras mãos, uma história narrada na perspectiva das chancelarias, das embaixadas e das cimeiras de líderes poderia deslizar para um moroso e bafiento inventário de telegramas, correspondência diplomática, actas, memorandos e relatórios, mas Tim Bouverie sabe complementar a componente formal com o aspecto humano, com a sua constelação de idiossincrasias, simpatias, embirrações, hipocrisias, amuos, querelas e oscilações de humor. Além disso, escreve de forma cativante, ainda que sem sacrificar a clareza e o rigor, e possui invulgar capacidade de análise. Odd Arne Westad, professor na Universidade de Yale e especialista na história do século XX, citado numa badana, está cheio de razão quando afirma que Aliados em Guerra é “uma leitura essencial para compreender a história do último século, com implicações profundas no nosso tempo”, mas é relevante acrescentar que as 570 páginas de texto, ainda que densamente recheadas de informação, se escoam sem que o leitor dê por isso.

Nota: dada a vastidão do escopo de Aliados em Guerra, o presente artigo apenas abordará uma pequena parte dos temas nele tratados.

A geopolítica, entre o idealismo e o cinismo

A história da II Guerra Mundial é, por vezes, apresentada de forma simplista e maniqueísta, opondo os impolutos Aliados às demoníacas forças do Eixo. Se o empenho de algumas figuras da extrema-direita do nosso tempo em justificar, suavizar, desvalorizar e até negar as acções mais iníquas das potências Eixo é de lamentar, também seria ingénuo aceitar que as políticas dos Aliados foram sempre guiadas pelos mais elevados valores morais. Um dos (muitos) méritos de Aliados em Guerra é precisamente, colocar em relevo a dualidade de critérios, o calculismo e o oportunismo que presidiram a muitas decisões tomadas pelos governos britânico e americano e as tensões e atritos resultantes da oposição entre idealismo e realpolitik.

Uma das situações mais embaraçosas da história da II Guerra Mundial reside nas diferentes reacções da Grã-Bretanha e da França à política reiterada de intimidação, anexação e invasão dos países vizinhos pela parte da Alemanha e da URSS. Enquanto a invasão da Polónia pela Alemanha, a 1 de Setembro de 1939, levou a que, dois dias depois, os governos da Grã-Bretanha e da França declarassem guerra à Alemanha, aqueles não reagiram à não menos condenável actuação da URSS, que, a partir de 17 de Setembro de 1939, se juntara à Alemanha na agressão contra a Polónia e se apropriara de parte substancial do seu território; que, a 30 de Novembro de 1939, invadira a Finlândia; que, em Junho-Julho de 1940, subtraíra à Roménia as regiões da Bukovina do Norte e da Bessarábia; e que, em Agosto de 1940, anexara a Lituânia, Letónia e Estónia (ver Uma factura detalhada para Angela Merkel e capítulo “Da II Guerra Mundial à Perestroika” em A Rússia e o sonho imperial pt. 2: Da Revolução de Outubro ao presente).

Bundesarchiv

Tropas alemãs marcham em direcção à Polónia, sob o olhar de Hitler, Setembro de 1939

Na Grã-Bretanha, escreve Bouverie, “a repulsa perante as acções de Stalin era contrariada pelo pragmatismo simples” (pg. 194). Os britânicos respaldaram-se no facto de o Tratado Anglo-Polaco referir-se “exclusivamente a uma agressão perpetrada por uma ‘potência europeia’” (pg. 195) e, assumindo que a URSS não faria parte da Europa, sentiram-se desobrigados de também lhe declarar guerra. Já a “anexação virtual dos Estados bálticos por Stalin mal foi notada no Ocidente” (pg. 197). E se o Partido Trabalhista britânico condenou veementemente a invasão da Finlândia pela URSS, Churchill, apesar das suas credenciais de anticomunista intransigente, terá dito ao embaixador soviético em Londres, duas semanas antes da invasão da Finlândia, que “a Rússia tem todas as razões para ser uma potência dominante no Báltico, e deveria sê-lo. […] É melhor a Rússia do que a Alemanha. Isso serve os nossos interesses” (pg. 198). Em favor da credibilidade do relato do embaixador está a existência de vários registos contemporâneos que atestam o cinismo da visão geopolítica de Churchill, nomeadamente um memorando de 25 de Setembro de 1939, em que “argumentou que a incursão soviética na Polónia poderia ser uma bênção disfarçada”, por a “a pata esquerda do urso […] bloquear a expansão alemã para o Báltico e para os Balcãs” (pg. 195).

Quando invadiu a Finlândia, a 30 de Novembro de 1939, a URSS tinha, provavelmente a ambição de anexar todo o país, dada a desproporção das forças em confronto, mas, face à resistência tenaz dos finlandeses, teve de contentar-se com a conquista das regiões da Karelia e de Salla e da Península de Rybachi

No tanque dos tubarões

Pelo seu lado, a política externa soviética também era conduzida com uma combinação letal de frieza e pragmatismo. Se o Pacto Molotov-Ribbentrop, de 23 de Agosto de 1939, entre a Alemanha e a URSS, é o mais célebre comprovativo da prevalência dos interesses circunstanciais sobre as divergências ideológicas, a verdade é que a cooperação entre Alemanha e a URSS já remontava às cláusulas secretas do Tratado de Rapallo, de 1922, e teria um reforço apreciável com o (menos famoso, mas não menos relevante) Acordo Comercial Germano-Soviético, de Fevereiro de 1940 (ver capítulo “A Rússia como mártir e heroína da luta antifascista” em De Minsk a Pinsk: Como foram desenhadas a história e a geografia da “Rússia Branca”).

Apesar do seu cinismo e frieza, Stalin deixou-se iludir pelas relações de aparente cumplicidade estabelecidas com Hitler e recusou-se a acreditar na acumulação de provas que indicavam que o seu “aliado” estava prestes a traí-lo (ver capítulo “Richard Sorge” em Vai um chá com veneno? Histórias de espiões que acabaram mal e capítulos “Com a ajuda de Lenin e Stalin” e “Não há pior cego do que aquele que não quer ver” em Nazis de turbante e outros 10 episódios menos conhecidos da II Guerra Mundial). Quando esta ilusão se estilhaçou abruptamente, a 22 de Junho de 1941, com o lançamento pela Alemanha da Operação Barbarossa, Stalin, que, até então, acalentara o sonho de que as potências capitalistas da Europa Ocidental e a Alemanha nazi se desgastassem (ou até se aniquilassem) mutuamente, apressou-se a solicitar auxílio às primeiras.

Ao mesmo tempo que pedia ajuda, Stalin denunciava a “política de esperar para ver” dos britânicos, acusando estes de pretenderem o sangramento da URSS pela Alemanha (um caso paradigmático de imputação a outrem da sua própria má-fé). Quando Stalin reiterou o pedido de envio de uma “força britânica simbólica para combater ao lado do Exército Vermelho na Rússia – Stalin pedira 25 a 30 divisões, ou seja, mais do que todo o Exército britânico –”, Churchill respondeu assim ao embaixador soviético em Londres, quiçá olvidado da sua perspectiva que defendera em 1939 sobre as políticas expansionistas da Alemanha e da URSS: “Atraíram o próprio destino sobre si mesmos, quando, através do pacto com Ribbentrop, deixaram Hitler à vontade na Polónia. […] Que um governo com este historial nos queira acusar de […] estarmos dispostos a combater até ao último soldado russo deixa-me bastante gélido” (pg. 214-15).

Oficiais alemães e soviéticos confraternizam na recém-ocupada cidade polaca de Brześć nad Bugiem (antiga Brześć Litewski, hoje Brest, na Bielo-Rússia), a 22 de Setembro de 1939

Stalin não se deixou perturbar por esta certeira crítica e continuou a requerer que a Grã-Bretanha enviasse tropas para a URSS e lançasse ataques a Ocidente que permitissem desviar forças alemãs e afrouxar a pressão destas sobre a URSS. Quando os EUA entraram na guerra, após o ataque a Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941, Stalin redobrou os seus pedidos para acções militares no flanco ocidental da Europa, usando como moeda de troca a vaga possibilidade de a URSS atacar o Japão no Extremo Oriente. O que é mais notável é que, embora a URSS se encontrasse, no final de 1941, numa situação desesperada, Stalin teve o desplante de tentar obter da Grã-Bretanha e dos EUA a legitimação para as conquistas do imperialismo soviético em 1939-40, exigindo o reconhecimento das “fronteiras da União Soviética tal como elas eram no momento da invasão alemã – isto é, que aprovassem a anexação dos países bálticos, da Bessarábia e […] uma grande fatia da Polónia Oriental” (pg. 287-88). Stalin logrou obter o assentimento da Grã-Bretanha e dos EUA relativamente à anexação dos países bálticos, algo tanto mais inesperado por esta concessão violar os princípios da Carta do Atlântico, que definia uma nova ordem mundial para o mundo depois da guerra e que Churchill e Roosevelt tinham assinado apenas quatro meses antes.

O que salta à vista na feroz determinação de Stalin em apoderar-se de regiões ou de países inteiros nas vizinhanças da URSS é que as suas principais motivações em termos de política externa não eram ideológicas mas imperiais. Neste domínio, a URSS de Stalin pouco se distinguia do Império Russo dos Romanov, e pouco se distingue da Federação Russa de Vladimir Putin: independentemente de o regime ser uma monarquia absoluta assente no direito divino, uma brutal ditadura comunista ou uma autocracia ultraconservadora de fachada democrática, a Rússia tem sido consistentemente norteada, nos séculos mais recentes, por uma irreprimível pulsão imperial (ver A Rússia e o sonho imperial pt. 1: Das origens às vésperas da Revolução de Outubro, A Rússia e o sonho imperial pt. 2: Da Revolução de Outubro ao presente, A Rússia e o sonho imperial pt. 3: Quem foram os professores de História de Putin?, A Rússia e o sonho imperial pt. 4: Liderar da Ásia até à Europa e capítulo “A máquina de fazer russos” em A Rússia e o sonho imperial pt. 6: Afinal, onde estão os nazis?).

A arraigada vocação imperial russa está patente neste “Mapa sério-cómico da Europa” (1900), por Fred W. Rose

A França biface: A coragem da Resistência e a vergonha do colaboracionismo

Para muitos, a participação da França na II Guerra Mundial é associada às proezas da Resistência e a figuras heróicas como Charles de Gaulle, Jean Moulin (líder da Resistência torturado até à morte pela Gestapo), Henri Rol-Tanguy (organizador do levantamento de resistentes que ajudou a libertar Paris dos nazis, em 1944) ou Marie-Madeleine Fourcade (líder da rede Alliance da Resistência Francesa, que, entre outros contributos, revelou a existência do programa alemã das V2).

Porém, o papel da França na II Guerra Mundial foi ambíguo, contraditório, inconsequente e, por vezes, assaz embaraçoso. Para começar, a França, que era vista como uma potência militar de envergadura comparável à da Alemanha, sofreu, em 1940, uma derrota estrondosa e capitulou com surpreendente rapidez, muito antes de os seus recursos militares terem sido esgotados (ou terem, sequer, entrado em combate). Após a assinatura do armistício, em Junho de 1940, muitos franceses na parte ocupada do país predispuseram-se a colaborar com o ocupante, nomeadamente, cumprindo com zelo as instruções deste para arrebanhar judeus (primeiro estrangeiros, depois também franceses) e entregá-los aos alemães. Quanto ao Governo que se instalou na parte não-ocupada do país – designada usualmente como “a França de Vichy”, em alusão à cidade que lhe servia de capital – deu repetidas provas de ser mais hostil à Grã-Bretanha de Churchill do que à Alemanha de Hitler.

O primeiro Governo de Vichy, Julho de 1940. Na primeira fila, ao centro, Pierre Laval (à esquerda) e o marechal Philippe Pétain (à direita), detentores dos cargos de chefe de Governo e chefe de Estado, respectivamente

Não é inesperado que o colaboracionismo e o Governo de Vichy sejam assuntos incómodos para a França, ainda nos dias de hoje. Bouverie recorda que em França houve quem tentasse passar a ideia de que “as políticas do regime de Vichy foram ditadas pelas exigências que o conquistador fez à nação derrotada e diminuída”, mas que “historiadores franceses e anglo-saxónicos” demonstraram que “a colaboração foi uma escolha: foi uma tentativa, da parte dos homens do regime de Vichy, para escaparem ao purgatório do armistício; uma bajulação com o objectivo de se obter um tratado de paz que restauraria a soberania francesa, a integridade territorial e os prisioneiros de guerra; entre os mais fervorosos, uma demanda para garantir à França o estatuto de ‘nação favorecida’, no quadro de uma nova ordem europeia” (pg. 126).

Bouverie cita uma conversa, de Setembro de 1941, do marechal Pétain, presidente da França de Vichy, com um industrial alemão, em que considerava a possibilidade de a França se aliar à Alemanha na luta contra a Grã-Bretanha, em troca de algumas concessões pela parte dos alemães: “alívio do fardo financeiro imposto pelos conquistadores, […] regresso dos prisioneiros de guerra franceses, […] garantias de que a integridade territorial da França e do seu Império seriam respeitadas” (pg. 127).

O marechal Philippe Pétain, retrato oficial, 1941

Naturalmente, Hitler estava, como admitiu a Mussolini, interessado em atrair “a França para a órbita da coligação antibritânica”, mas nunca explicitou os requisitos e condições para a participação francesa. Em Outubro de 1941, o Governo de Vichy teve oportunidade de manifestar pessoalmente a Hitler disponibilidade para entrar na coligação antibritânica, por ocasião da viagem do Führer a Hendaye, para um encontro com o Generalísimo Francisco Franco. Na viagem de ida, foi Pierre Laval, primeiro-ministro da França de Vichy, que, num breve encontro na estação ferroviária de Montoire-sur-le-Loire, declarou ao Führer, que “desejava a derrota dos britânicos de todo o coração” (pg. 127).

Pierre Laval, à esquerda, com o general das SS Carl Oberg, Paris, Maio de 1943

Na viagem de regresso, na mesma estação, Hitler ouviu Pétain exprimir o seu apoio à colaboração franco-alemã, deixando porém a ressalva de que a declaração de guerra requeria o “consentimento da Assembleia Nacional – o organismo que tinha acabado de abolir. De qualquer maneira, tal como atalhou Laval, a França poderia ajudar a Alemanha sem uma declaração formal de guerra” (pg. 128). Porém, como Bouverie sublinha, “não ficou nada acordado oficialmente, e nada foi assinado”.

A viagem de Hitler a Hendaye acabou por revelar-se vã, pois não logrou atrair nem Espanha nem a França de Vichy para a coligação antibritânica: as exigências exorbitantes e a tagarelice incontinente de Franco exasperaram Hitler (que estava habituado a monopolizar as conversas) e as condições apresentadas por Pétain e Laval parecem não ter agradado a Hitler, talvez por este entender que a França, uma vez que fora inapelavelmente derrotada, não tinha direito a solicitar concessões à Alemanha.

Uma imagem melindrosa: Pétain e Hitler cumprimentam-se na estação ferroviária de Montoire-sur-le-Loire, a 24 de Outubro de 1941

A maior inimiga da França

A aversão aos britânicos que animava Laval e muitos franceses tinha recebido dois fortes impulsos no Verão de 1941. O primeiro fora o ataque britânico à base da marinha francesa em Mers-el-Kébir, na Argélia. Os britânicos, temendo que os navios franceses pudessem ser capturados pelos alemães e reforçar a relativamente modesta Kriegsmarine, tentaram persuadir o almirante Gensoul, comandante da Force de Raid, baseada em Mers-el-Kébir, a quebrar os laços com Vichy e a passar-se, com todos os seus navios, para o lado britânico; porém, as negociações revelaram-se infrutíferas, o que levou os britânicos, no dia 3 de Julho de 1941, a atacar Mers-el-Kébir, afundando e danificando parte da frota francesa e causando 1300 mortos.

A frota francesa em Mers-el-Kébir sob fogo britânico, 3 de Julho de 1941

Entretanto, situação análoga ocorria no Líbano e na Síria, protectorados sob mandato francês desde 1923. Vichy autorizara o uso pelos alemães de bases aéreas nestes dois territórios, no âmbito dos confrontos entre britânicos e revoltosos iraquianos apoiados pela Alemanha; os britânicos, antevendo a possibilidade de os alemães assumirem o controlo dos protectorados franceses e, a partir deles, ameaçarem o Canal do Suez, tentaram persuadir as tropas francesas a deporem as armas. A recusa francesa levou à invasão britânica do Líbano e da Síria a 8 de Junho de 1941. Os franceses fiéis a Vichy opuseram uma resistência inesperadamente tenaz e que produziu derramamentos de sangue facilmente evitáveis. Segundo Bouverie, parte desta obstinação de Vichy e dos seus apoiantes resultaria da “necessidade de manter, ou recuperar, a honra francesa” e do “desejo de demonstrar o valor das armas francesas, após a humilhação de 1940” (pg. 185); outra parte foi motivada pelo facto de o contingente multinacional, liderado pelos britânicos, que fora enviado para o Líbano e para a Síria incluir forças gaullistas, vistas pelo Governo de Vichy e por quem lhe era leal como traidoras.

Soldados australianos tomam conta da base aérea francesa de Alepo, na Síria, Junho de 1941

Pétain, dirigindo-se ao embaixador americano em Vichy, exprimiu assim a sua posição face a mais este ataque britânico: “Sabemos que vamos perder a Síria, mas estamos decididos a lutar até ao fim” (pg. 186). Esta determinação de Pétain em “lutar até ao fim” contra a Grã-Bretanha e a França Livre de De Gaulle por um protectorado distante e irrelevante para os franceses, faz um irónico contraste com a relativa facilidade com que, em Junho de 1940, a França liderada pelo recém-empossado Pétain capitulara perante a Alemanha e assinara um armistício humilhante.

Sem surpresa, parte da actual extrema-direita francesa tem tentado encontrar aspectos positivos na actuação do Governo de Vichy. Jean-Marie Le Pen, que liderou a Front National entre 1972 e 2011, reconhecia a legitimidade do Governo de Vichy e tentou branquear as suas actuações mais sinistras (nomeadamente o seu pendor anti-semita). Porém, o partido herdeiro da Front National, o Rassemblement National (RN), liderado por Marine Le Pen e, actualmente, por Jordan Bardella, parece ter concluído que o legado de Vichy era demasiado “tóxico” e demarcou-se dele: o RN defende que o Governo legítimo de França durante a ocupação era o que estava exilado na Grã-Bretanha e tinha o general De Gaulle como figura de proa e condena os crimes do Governo de Vichy. Já Éric Zemmour, líder do Reconquête, partido à direita do RN, defende que “Vichy protegeu os judeus franceses e entregou os judeus estrangeiros” (uma falsidade) e que os nazis não enviaram homossexuais franceses para campos de concentração (outra falsidade).

Marselha, 24 de Janeiro de 1943: Tropas alemãs supervisionam embarque de judeus rumo a campos de extermínio

Uma faceta decepcionante do Milagre de Dunkerque

Seria, porém, simplista reduzir a má figura da França na II Guerra Mundial à actuação do governo pró-nazi de Vichy, pois muitos franceses comuns também deram provas de oportunismo, tibieza e falta de fibra. Veja-se o célebre caso da evacuação de Dunkerque, que decorreu entre 27 de Maio e 4 de Junho de 1940: enquanto muitas unidades francesas retiravam em desordem ou se rendiam sem luta, no litoral norte do país, junto a Dunkerque, a marinha e a força aérea britânicas conseguiram, sob forte pressão alemã e à custa de pesadas baixas, o milagre de evacuar para o lado inglês do Canal da Mancha, 224.000 soldados britânicos e mais de 130.000 soldados franceses. Note-se que, após um momento inicial em que foi dada preferência na evacuação aos soldados britânicos, o que suscitou protestos indignados dos comandos franceses, Churchill determinou que a operação passasse a ser conduzida “de forma igualitária” (pg. 38) e que três divisões britânicas fossem destacadas para tentar suster, tanto quanto possível, o avanço alemão, enquanto a evacuação das restantes unidades prosseguia. Resultou daqui que os britânicos foram forçados a deixar para trás c.40.000 soldados, que foram aprisionados pelos alemães.

Soldados britânicos aguardam evacuação em Dunkerque, 26-29 Maio de 1940

O que foi celebrado em filmes, livros, cerimónias, discursos, monumentos e placas comemorativas foi o lado abnegado e heróico deste empreendimento; o que é pouco divulgado é que a maioria dos soldados franceses evacuados a tanto custo optaram por ser repatriados e viver sob o jugo do ocupante alemão ou do regime de Vichy. Apesar de ter, diligentemente, percorrido os acampamentos militares na Grã-Bretanha onde tinham sido albergados os soldados franceses evacuados, o general De Gaulle “conseguiu apenas recrutar dois batalhões da Legião Estrangeira, cerca de 200 chasseurs alpins e parte de uma companhia de tanques. […] Dos quase 500 oficiais e 18.000 marinheiros franceses que estavam na Inglaterra em Junho de 1940, todos escolheram regressar a casa, excepto 50 oficiais e 200 homens” (pg. 69).

O que terão pensado disto os 40.000 britânicos que “ficaram a ver navios” em Dunkerque e passaram o resto da guerra em campos de concentração alemães?

Material abandonado em Dunkerque pelas tropas britânicas em fuga

A generosidade contraproducente de Roosevelt

Apesar de a França de Vichy evidenciar maior animosidade para com a ex-aliada Grã-Bretanha do que face ao agressor alemão, os EUA continuaram a tratar Vichy com incompreensível indulgência. Como explica Bouverie, “após a queda de França, Roosevelt tinha tomado a controversa decisão de reconhecer o governo de Pétain. O Departamento de Estado defendia que, mantendo relações de cordialidade com Vichy, seria possível evitar que o marechal e os seus ministros passassem para o campo do Eixo”. Porém, os EUA não se ficaram pelo reconhecimento, fizeram também envios regulares e substanciais de víveres, medicamentos e combustíveis, o que “deixou os britânicos furiosos”, pois “estavam cientes de que bem mais de metade de todas as importações francesas acabavam em mãos alemãs”, e também suscitou a oposição de membros da Administração Roosevelt, como o assessor Harry Hopkins, que fez ver ao presidente que “tudo aquilo que promova a actividade económica na França não-ocupada ajuda os alemães” (pg. 187).

Cartaz de propaganda do Governo de Vichy, com a efígie do marechal Pétain e a divisa “Trabalho, Família, Pátria”, 1942

Todavia, os EUA não alteraram substancialmente a sua política em relação a Vichy – nem sequer com a declaração de Guerra da Alemanha aos EUA, em Dezembro de 1941 – e só suspenderam a sua colaboração em Novembro de 1942, quando os alemães invadiram a zona não-ocupada de França e assumiram, na prática, o seu controlo, remetendo o Governo de Vichy a um papel formal.

A ingenuidade surpreendente de Churchill e de Roosevelt

Entre 12 e 17 de Agosto de 1942, teve lugar em Moscovo uma cimeira entre Churchill, Stalin e Averell Harriman, em representação de Roosevelt, que ficou conhecida como 2.ª Conferência de Moscovo. No decurso dos trabalhos, Churchill ficou perplexo com as abruptas mudanças de posição e de atitude de Stalin: após a reunião de dia 12, Churchill regressou às suas acomodações entusiasmado, convencido de que começara a estabelecer “uma relação sólida e sincera com [Stalin]”; todavia, no dia seguinte, Stalin mostrou-se intratável e disparou rajadas de acusações e provocações insultuosas contra os britânicos. A explicação que Churchill – e também Alexander Cadogan, sub-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros – encontrou para estas violentas flutuações de humor e de posição negocial foi que Stalin tivesse de prestar contas ao Conselho de Comissários e que estes teriam recebido mal as notícias e as propostas apresentadas pelos britânicos e tivessem instruído Stalin para exprimir o seu desagrado.

Como escreve Bouverie, “a ingenuidade desta hipóteses – que revelava uma ignorância quase total da ditadura de Stalin e, ironicamente, fazia eco da explicação dada por [Neville] Chamberlain para as mudanças de humor de Hitler – é espantosa” (pg. 306-07).

Não menos espantoso é que, após nova reunião no Kremlin, em que Stalin voltou a mostrar-se afável, Churchill tenha revertido completamente a má impressão do dia anterior e tenha transmitido a Roosevelt ter ficado “definitivamente encorajado” com a visita, que descreveu como pautada pela amizade e pela boa vontade: “Sinto que estabeleci [com Stalin] uma relação pessoal que será útil” (pg. 310).

Churchill, Stalin e Harriman, durante a 2.ª Conferência de Moscovo

Também Roosevelt tinha uma percepção completamente errada sobre a natureza do regime soviético e sobre a personalidade de Stalin: desenvolvera a tese de que, durante os anos de conflito, a URSS tinha vindo a afastar-se do comunismo em direcção a “uma forma modificada de socialismo estatal”, ao mesmo tempo que as potências capitalistas estavam a deslocar-se no sentido contrário, rumo à social-democracia. “A ideia de que os sistemas soviético e norte-americano se encontravam num processo de convergência – com o primeiro a tornar-se mais livre e o segundo mais orientado pelo Estado – era partilhada por membros do governo e por altos responsáveis” da administração americana (pg. 468) e até pelos jornais de referência americanos, que garantiam que a URSS seguia “um capitalismo de Estado” e que “o pensamento marxista foi afastado da Rússia soviética” (pg. 468). Esta visão era secundada pelo Ministério da Informação britânico, que via Stalin como um “reformista” e a URSS “a avançar em direcção às democracias” e anunciava que o comunismo soviético já não era um “papão marxista maligno” (pg. 376-77).

Durante a Conferência de Teerão, que reuniu os líderes dos EUA, Grã-Bretanha e URSS e decorreu entre 28 de Novembro e 1 de Dezembro de 1943, Roosevelt confidenciou a um elemento da sua equipa: “Tenho apenas um palpite de que Stalin […] não pretende nada mais, além de segurança para o seu país” (pg. 400). Também hoje, no Ocidente, há quem esteja convencido – ou pretenda convencer os outros – de que Putin tem como maior preocupação a segurança da Rússia e que a sua agressiva política externa é apenas uma reacção natural ao ameaçador alargamento da NATO.

A trágica ilusão da “relação especial “com Stalin

Tal como Churchill, Roosevelt convenceu-se de que seria capaz de “ultrapassar o duro exterior de [Stalin]” e de “estabelecer um relacionamento com ele”, se necessário à custa dos laços que o uniam a Churchill. Na Conferência de Teerão, Roosevelt empenhou-se a seduzir Stalin, recorrendo a uma série de graçolas e atitudes que deixaram Churchill visivelmente agastado, mas que, na percepção do presidente americano, foram coroadas de sucesso: “conversámos [ele e Stalin] como homens e irmãos”, confidenciou a um membro do seu gabinete (pg. 407).

Esta impressão foi reforçada na Conferência de Yalta, que decorreu na Crimeia entre 4 e 11 de Fevereiro de 1945, com a guerra praticamente ganha, e em que Stalin se apresentou com disposição amistosa e brindou aos seus aliados com palavras esperançosas e lisonjeiras: “Não me lembro, em toda a história da diplomacia, de uma aliança como esta […] Uma aliança contra um inimigo comum é algo claro e compreensível. Muito mais complexa é uma aliança depois da guerra, para garantir uma paz duradoura e os frutos da vitória” (pg. 538).

Conferência de Yalta

Harry Hopkins, o principal responsável pelas relações EUA-URSS, foi um dos muitos elementos de topo da administração Roosevelt que engoliu o isco, o anzol, a bóia e a cana de pesca: “Estávamos absolutamente convictos de que tínhamos obtido a primeira vitória da paz. […] Os russos tinham provado que podiam ser razoáveis e ter visão a longo prazo, e não havia qualquer dúvida, na mente do presidente e nas nossas, de que podíamos viver com eles e darmo-nos pacificamente com eles por tanto tempo” quanto fosse possível imaginar (pg. 538). Churchill, que por várias vezes, à medida que a guerra contra a Alemanha se aproximava do fim, prognosticara, lugubremente, a inevitabilidade de um conflito com a URSS, foi completamente ludibriado em Yalta e quando regressou a Londres, em conversas com membros do seu gabinete, “previu que enquanto Stalin se mantivesse no poder, as relações entre o Ocidente e a URSS continuariam a ser amistosas e seguras”; num momento de extraordinária presunção, comentou que “o pobre Neville Chamberlain pensava que podia confiar em Hitler, mas acho que não estou enganado a respeito de Stalin” (pg. 539).

Porém, Churchill fora tão ludibriado como “o pobre Neville Chamberlain”, com a agravante de ter passado mais horas com Stalin do que Chamberlain com Hitler. Ainda que não viesse a reconhecer explicitamente o seu tremendo erro de julgamento, este está  implícito no célebre discurso que proferiu, pouco mais de um ano depois, a 5 de Março de 1946, no Westminster College, em Fulton, no Missouri, e que tem sido, retrospectivamente, considerado por muitos historiadores como o momento inaugural da Guerra Fria. Nele, Churchill traçou um sombrio cenário, em que “de Stettin [Szczecin] no Báltico a Trieste, no Adriático, uma Cortina de Ferro desceu sobre o continente. Por trás dessa linha estão as capitais dos antigos Estados da Europa Central e de Leste. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia, todas estas cidades famosas e as suas populações ficam hoje no que tenho de designar como esfera soviética e todas estão sujeitas, não só à influência soviética, como a um controlo apertado por parte de Moscovo. […] Os partidos comunistas, que tinham muito fraca expressão na Europa de Leste, ganharam proeminência e poder bem para lá do seu número de votos e procuram, por todo o lado, assegurar um controlo totalitário”.

4 de Março de 1946: O ex-primeiro-ministro Churchill e o presidente americano Harry Truman a bordo do comboio que os levaria a Fulton, no Missouri

O paradoxo polaco

A impressão optimista com que Roosevelt, Churchill e os seus conselheiros e assessores saíram de Yalta é tanto mais incompreensível por, em 1943 e 1944, Stalin já ter dado sinais inequívocos de que pretendia, terminada a guerra, incorporar a parte oriental da Polónia na URSS e assumir o controlo político do resto da Polónia, tentando, por todos os meios (mesmo os mais torpes), deslegitimar o governo polaco exilado em Londres, suprimir os seus apoiantes na Polónia e promover o Comité Polaco de Libertação Nacional (PKWN, na sigla polaca), um governo-fantoche criado pela URSS em Lublin, em 22 de Julho de 1944, como único representante do povo polaco – a 1 de Janeiro de 1945, o PKWN seria convertido no Governo Provisório da República da Polónia (RTRP, na sigla polaca), que seria reconhecido apenas pela URSS, o que suscitou protestos do governo polaco exilado em Londres; Churchill e Roosevelt também protestaram, mas não empreenderam qualquer acção.

Em Fevereiro de 1945, em Yalta, Stalin voltara a dar provas claras dos seus desígnios relativos à Polónia, levando Churchill a lembrar que “desembainhámos a espada para ajudar a Polónia contra o brutal ataque de Hitler. Nunca poderemos ficar satisfeitos com um acordo que não permita à Polónia ser um Estado livre e independente. […] A Polónia deve ser a senhora na sua própria casa, a capitã da sua própria alma”. (pg. 531-32). Mas os EUA mostraram-se menos intransigentes em relação à questão polaca e os EUA e a Grã-Bretanha acabaram por contentar-se em obter a assinatura de Stalin na Declaração sobre a Libertação da Europa, “que comprometia as três potências a […] dar assistência aos países libertados do nazismo, para que pudessem reconstruir as suas economias e ‘criar instituições democráticas segundo a sua própria escolha’” (pg. 535). A decisão de Stalin em assinar tal declaração surpreendeu muitos – incluindo Vyacheslav Molotov, o ministro soviético dos Negócios Estrangeiros – e teria sido, com efeito, um passo surpreendente se Stalin tivesse qualquer intenção de cumprir o acordado; mas Stalin tratou de tranquilizar Molotov: “Não te preocupes. Podemos lidar com isto depois, à nossa maneira”.

E tão bem soube “lidar com isto” que, não só a Polónia, como o resto da Europa de Leste e parte da Europa Central só conseguiram serem “senhoras da sua própria casa” quase meio século depois.

As conquistas da URSS entre 1938 e 1948: a castanho, território soviético em 1938; a rosa-escuro, acréscimos territoriais da URSS; a rosa-claro, Estados-satélite da URSS; a amarelo-torrado, acréscimos territoriais dos Estados-satélite da URSS

Adenda: Algumas questões de terminologia e de tradução

Ainda que não comprometam a compreensão e fruição de Aliados em Guerra, há falhas e imprecisões a apontar, algumas das quais poderão ter resultado do processo de tradução (ainda que, sem poder cotejar o original inglês, não seja possível afirmá-lo).

● Ao longo do livro, quando se mencionam forças navais, usa-se repetidamente a designação “fragata”. Este termo teve significados diferentes ao longo da história da marinha de guerra e na língua portuguesa a possibilidade de confusão é ainda maior, pois também designa uma pequena embarcação de um mastro usada no Rio Tejo para transporte de mercadorias. As fragatas tiveram o seu tempo áureo no séculos XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, altura em que eram navios rápidos, com três mastros e uma única coberta equipada com canhões; a introdução da máquina a vapor e da blindagem trouxe mudanças drásticas à arquitectura naval e às tácticas e o conceito de “fragata” caiu progressivamente em desuso. A palavra foi recuperada durante a II Guerra Mundial, pelas marinhas de guerra britânica, canadiana e americana, para designar algo completamente diferente: um navio de tonelagem e poder de fogo intermédio entre as corvetas e os destroyers, deslocando cerca de 1400-1500 toneladas, que providenciava protecção contra aviões e submarinos e era usado em patrulhamento e escolta de comboios.

Fragata HMS Loch Alvie, c.1939-45

Porém, no livro, o termo é sistematicamente aplicado a navios nos antípodas das modestas fragatas: na pg. 49, designa os navios franceses Bretagne e Provence (dois couraçados de 24.000 toneladas); nas pg. 52 e 78 voltam a surgir menções a navios franceses que, pelo contexto, se depreende serem couraçados; na pg. 80, o termo é aplicado ao navio britânico Resolution (um couraçado de 26.000 toneladas); na pg. 176, quando se inventaria a factura paga pela Royal Navy na Batalha de Creta, mencionam-se danos em “três fragatas” (provavelmente os couraçados Valiant, Warspite e Barham, atingidos pelas bombas da Luftwaffe). Tudo sugere que, no processo de tradução, a palavra inglesa “battleship” (couraçado) foi convertida em “fragata”. Na pg. 135, fala-se do “navio de guerra Royal Oak” (mais um couraçado), expressão insólita (dado que os navios de que se fala são todos “de guerra”) e que, possivelmente, é outra tentativa pouco feliz de verter “battleship” para português.

A confusão aumenta na pg. 257: quando se inventariam as baixas infligidas pelo ataque japonês a Pearl Harbor, menciona-se o afundamento de “cinco couraçados e dezasseis fragatas”, o que não tem correspondência com os factos. Da centena de navios da Marinha dos EUA presentes em Pearl Harbor a 7 de Dezembro de 1941, cinco couraçados foram afundados (ainda que, dada a escassa profundidade, tenha sido possível, anos mais tarde, reparar e devolver ao serviço três deles) e três outros foram danificados; três cruzadores ligeiros foram atingidos; dois destroyers que se encontravam em doca seca foram destruídos e dois outros foram atingidos; e quatro navios auxiliares, de pequena dimensão (lança-minas, rebocadores, etc.) foram atingidos. O principal alvo do ataque japonês eram os navios mais poderosos: os couraçados – nenhum dos quais escapaou ileso e os porta-aviões – nenhum dos quais se encontrava no porto à data (ver Pearl Harbor: O Dia da Infâmia foi há 75 anos).

O couraçado Bretagne

● Na pg. 61, no contexto do ataque britânico à base naval francesa de Mers-el-Kébir, em 1941, escreve-se que “um avião Swordfish carregado com doze torpedos acabou com o [couraçado] Dunkerque”. Ora, os Fairey Swordfish tinham capacidade para carregar um único torpedo (de cerca de 760 Kg) e era esse o padrão usual nos torpedeiros que operavam a partir de porta-aviões, como o Swordfish; mesmo os bimotores e trimotores que foram usados como torpedeiros durante o conflito não carregavam mais do que dois torpedos. O ataque ao (já danificado) Dunkerque a 6 de Julho foi levado a cabo, isso sim, por 12 Swordfish.

Fairey Swordfish, c.1939-45

● Na pg. 178, no contexto da captura de Bagdad, em Maio de 1941, por tropas britânicas (e da Commonwealth), escreve-se que se tratou de uma proeza inesperada, uma vez que aquelas estavam equipadas “com apenas quatro canhões Bren e duas metralhadoras pesadas Vickers”. Na língua inglesa, o termo “gun” designa não só “canhões” como qualquer arma de fogo; a Bren era uma metralhadora ligeira, com um calibre de 7.7 mm, não um “canhão”, o que, aliás, é confirmado pelo testemunho de um dos militares britânicos envolvidos, reproduzido na linha seguinte: “Não tínhamos artilharia nem tanques”.

● Na pg. 233, escreve-se que o programa Lend-Lease, em que os EUA forneciam gratuitamente os seus principais aliados com material de guerra, alimentos, petróleo, deu “um contributo inestimável para a vitória aliada, com cerca de 50 biliões de dólares em bens a saírem dos EUA em direcção às nações aliadas entre Março de 1941 e Setembro de 1945”. Este valor foi, na realidade, de 50.000 milhões de dólares (690.000 milhões, se expressos em dólares de 2024) e a diferença resulta de a tradução assumir – como faz sistematicamente ao longo de todo o livro – que os “billions” dos americanos e dos britânicos equivalem aos “biliões” dos europeus continentais.

● Na pg. 8, lê-se que “‘sapo’ era a alcunha aplicada aos franceses por entre os britânicos” (na pg. 184 surge referência similar). Trata-se, possivelmente, de uma confusão zoológica por parte do tradutor, pois não há memória de os britânicos se referirem aos franceses como “toads” (sapos), mas é bem conhecida a alcunha (depreciativa) de “frogs” (rãs), cujo primeiro registo data de 1657 e que tem, provavelmente, origem no hábito francês (repugnante para os britânicos) de consumir pernas de rã (Rana esculenta). Segundo alguns autores, a designação de “frogs” terá começado por visar os holandeses (por a maior parte do seu país serem terras baixas, ensopadas em água), transferindo-se depois para os franceses, agora com fundamentação nos hábitos gastronómicos.

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